Crónica de Jorge C Ferreira | Viva a malta

Viva a malta
por Jorge C Ferreira

 

Das encantadas levezas. Da leveza da água da cascata mais alta. Da leveza do corpo amado. De leveza em leveza nos vamos embevecendo numa festa sem razão de ser. Vamos fazendo filmes e teatros. Números de saltimbancos e barracas de fantoches. Desfila a banda dos bombeiros agora já sem os miúdos atrás. Está tudo nas aulas virtuais, no teletrabalho. Viva a tecnologia. Dizem que, para o ano, os miúdos serão substituídos por robots. Esperemos para ver.

Somos gente de brincar às levezas e carregar tudo às costas na hora seguinte. Uma bipolar maneira de ser. A partida de D. Sebastião e a chegada de Filipe. O regicídio, a implantação da Républica. Um Presidente-Rei assassinado e os militares que se deixaram enredar pelo “santinho” de Santa Comba, mais conhecido pelo Botas. E por aí fora. Eu sei que há aqui interregnos que mereciam ser referidos. Mas isto não é uma aula de história.

Agora é o Covid. Uma curva que sobe, desce, aplana, sobe de novo. Isto parecem quase as serras que eu estudava na escola primária. Uma montanha russa. Uma estranha cordilheira de onde nascem muitos infectados que vão morrer.

Os “meninos” decidiram sair à rua. Seguiram alguns maus exemplos de figuras que se deviam recatar. Começaram a sair aos magotes com bebidas alcoólicas na mão e imitaram o espanhol “botellón”. Reúnem-se onde calha. Em bombas de gasolina, praias, marginais, sociedades recreativas, garagens, etc. Os pais não se atrevem a dizer não aos meninos. O não é uma palavra difícil de dizer.

Viva, viva, viva! Vamos ter a final da Champions em Portugal. Agosto vai ser o máximo. Tudo, como antigamente, a bem da nação. Somos os maiores, os melhores, sempre fomos, temos dias. Temos a mania da maior ponte, do maior passadiço. Eu sei lá. Desde Alves dos Reis que aprendemos a ter grandes aldrabões que continuam a andar por aí à solta. Tudo à farta, casas e mais casas, viagens e mais viagens. Nós vamos pagando.

Vamos ter as maiores equipas de futebol em Portugal, nenhuma é nossa, mas é uma honra! Vai ser uma festa bonita. Esperemos que haja ventiladores que cheguem nos hospitais e médicos, enfermeiros, auxiliares e todo o pessoal necessário. Vamos ser falados. Esperamos ser grandes de novo. Espero que por boas razões.

A operação de lançamento do evento foi inolvidável. Todo o poder presente. Mais gente no Palácio de Belém que, no 10 de Junho nos Jerónimos. Bola é bola. É o desporto das multidões. Os pontas de lança do País estão em forma. Marcelo e Costa, uma dupla insaciável por vitórias. Ou me engano muito e vamos ganhar tudo, e tudo é não sei o quê. Algo que ninguém imagina.

Entretanto as lojas começaram a fechar mais cedo de novo. Os números da pandemia na grande Lisboa não auguram coisas boas. Os gráficos que ninguém vê. As curvas e as contracurvas. Os transportes continuam sobrelotados nas horas de ponta. Voltou o Povo Unido. E se o Povo se une mesmo?

A influência dos lobbies é impressionante. Houve alguma resistência. Mas a força é muito grande. Todos os que já não vendiam nada, dizem que agora não vendem por causa do covid. Já está tudo em pulgas que o dinheiro chegue. Já não enxergam mais nada. Os mercedes já estão à espera.

Viva a malta!

«Olha lá, tu hoje estás imparável. Tem cuidado contigo.»

Fala de Isaurinda.

«Hoje tinha de dizer estas coisas. Estou farto disto tudo.»

Respondo.

«Cuidado. Calma, muita calma.»

De novo Isaurinda e vai, o lenço num lento adeus.

 

Jorge C. Ferreira
Define-se a si mesmo como “escrevinhador” . Natural de Lisboa, trabalhou na banca, estando neste momento reformado.
Participou na Antologia Poética luso francófona: A Sombra do Silêncio/À Lombre du Silence;
Participou na Antologia poética Galaico/Portuguesa: Poetas do Reencontro
Publicou a sua primeira obra literária em 2019, “A Volta à Vida À Volta do Mundo” – Poética Editora 2019.

 


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14 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Viva a malta”

  1. Cecília Vicente

    Há quanto tempo,e quanto tempo mais teremos para entender ou nos entendermos. Creio,e quis compreender esta pandemia,e que dela haveria de vir ao de cima o melhor do ser humano,e para surpresa minha,espanto até, duvidei nesta idade em que aprendi mais do que vi,questão de gerações simplesmente,vi,vejo e assombro-me dia a dia,tal como vivo,um vírus comandar uns e outros que sem medo,outros com muito medo…em campo de batalha a quererem brincar com toda uma geração que devia viver dignamente a serem alvo fácil de ambos os lados…fico-me por excesso de reticências,nada sei,nada vale se não se apreender a respeitar todos nós,e muito mais os outros como um referendo de saber como sobreviver à pandemia que por alguma razão mostra o ser humano tal qual como se iniciou no jardim do ” Éden”. Abraço meu amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Que bom ter-te de novo por aqui. Que belo texto. Temos de aproveitar o nosso tempo para sermos melhores, Olhar e saber do outro. Abraço grande

  2. Sofia Barros

    Se o mundo já era difícil de entender antes da pandemia, agora parece que qualquer réstia de lógica se foi…
    Um abraço, amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Sofia. Precisamos de calma e muita capacidade para descodificar as notícias. Abraço grande.

  3. Eulália Pereira Coutinho

    Tudo dito meu amigo. Tão bem dito. A realidade do país . A realidade do mundo. Parece ficção. Altos e baixos, todos os dias números. Para onde caminhamos?
    Continuamos a estar atentos. Vamos resistir.
    Obrigada meu amigo.
    Um abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália, sim resistir, perante tanta confusão. Um grande Abraço.

  4. Branca Maria Ruas

    A Isaurinda tem razão. “Tu hoje estás imparável”
    Mas é verdade tudo o que dizes!
    Estou, como tu, muito farta disto tudo.
    Mas a economia manda, a bola é que interessa e o resto logo se vê, que esta malta quer é copos e festas. E o dinheiro que aí vem vai dar para encher muitos bolsos, enquanto outros já se esvaziaram há muito e pouco ou nada lhes vai chegar.
    E sinto-me desiludida com a falta de respeito pelo próximo e com a falta de civismo. Quando vejo alguma máscara deixada no chão até me apetece chorar…
    Não sei quando, nem como, isto irá terminar mas nada vai ficar igual ao que era. E, se em tempos pensei que este período de pandemia podia levar a que muita coisa viesse a melhorar, hoje tenho sérias dúvidas.
    Um abraço, meu amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado, Maria, minha Amiga. Coragem. Tens razão no que dizes, mas temos de vencer. Um abraço enorme.

  5. Cristina Ferreira

    Uma crónica muito lúcida que expõe de uma forma muito clara toda a verdade, assim como o sentimento que vai dentro de nós. Como dizes, estamos fartos, mas temos de manter a calma e continuar a acreditar. Ouve a Isaurinda e dá-lhe um abraço meu. Um beijo para ti.
    Cristina

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado, Cristina, minha Amiga. Manter a calma e saber descortinar o certo do errado. Nunca deixar de acreditar. Abraço grande.

  6. Teles Ivone Teles

    Como gostava de te dar boas notícias a contrapor ao teu tão rigoroso texto desta crónica. Querido amigo, é como dizes. Aqui em Coimbra há um certo sossego porque as aulas não começaram na Universidade. Se houvesse estávamos na época das piores praxes até à ” Latada “. Depois do cortejo, agora sem qualquer interesse, o álcool torna.se o maior interesse. , Muitos caloiros nem vinham habituados a beber. De manhã é vê-los pelos relvados, passeios, átrios de portas, “tudo em monte e fé em deus.”. Fácil entender os contágios como foguetes de lágrimas. Tudo o mais se passa como em Lisboa e tu contas. ´Estou muito preocupada e triste.Como sempre, gostei de te ler meu querido Irmão/ Amigo. Dá um beijinho â Isaurinda. Beijinhos meus para ti.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado, Ivone, minha querida Amiga/Irmã. Sim, a paciência parece estar a gastar-se. As notícias continuam a ser uma coisa cada vez mais difícil de descodificar. Gosto sempre tanto de te ler! Abraço imenso.

  7. Sara Paiva

    É, infelizmente em Portugal é sempre o futebol, parece que não há mais nada. Mas é o que dá dinheiro, porque as pessoas vão ver e acabam por deixar as outras modalidades na miséria (e outros temas também). E cá estamos nós nos brandos costumes e na futilidade. Somos bons na ciência, nas artes, mas isso não interessa, porque estão todos focados no mesmo. Talvez as prioridades estejam todas trocadas ou seja este um pensamento minoritário, enfim. Vamos acreditar, que tudo vai correr bem, e que o bom senso irá imperar, mesmo que o tal evento ocorra. Beijinhos.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado, Sara, minha querida Sobrinha. Por vezes tentam desviar-nos do real, com foguetórios inúteis. Saber do importante é essencial. Vai correr. Abraço enorme.

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