Crónica de Alexandre Honrado – José Saramago dez anos depois e outras coisas que podem ser verdade

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José Saramago dez anos depois e outras coisas que podem ser verdade
Por Alexandre Honrado

 

Duas ideias que quero entrelaçar, não tendo relação óbvia – nem equívoca, se formos a ver bem – podem satisfazer-me durante aqueles minutos em que penso, não por obrigação, mas por desprendimento. São momentos em que escrevo para alguns órgãos de comunicação, como é o caso, sem o menor compromisso, nem com leitores nem comigo, porque se o tivesse tornava-se imperioso ensaiar algumas cedências e, sobretudo, mentir. É que já não se faz qualquer tipo de jornalismo – da crónica à grande reportagem passando pela minúscula nota da redação, sem que, por imposição cultural, se minta como obrigação, um pouco moral, muito deontológica, mas sobretudo modal (verbo auxiliar que expressa noções como desejo, possibilidade, probabilidade, dever, necessidade). Em simultâneo, está na moda pregar umas boas petas – até quando se põe na boca de um Presidente a ideia de que um país não mente nem esconde nada, o que é um absurdo gigantesco. Era não só impossível, esse comprometimento com a verdade, como um anacronismo: não somos de um tempo em que a verdade seja um prato forte.

Isso da verdade é coisa das ditaduras. Manda o ditador e quando assim é, é essa a única verdade. Vem o povo sob a canga e obedece-lhe, tingido e tolhido de medo. E a verdade é apenas de sentido único, a grande mentira legitimada.

Mentir é um efeito saudável da liberdade: se cada qual diz o que lhe parece, e como cada cabeça sua sentença, é óbvio que não haverá uma verdade mas milhares, milhões delas e se calhar as mentiras confundem-se e acabam por ganhar em percentagem.

«P’rá mentira ser segura, e atingir profundidade, tem que trazer à mistura, qualquer coisa de verdade» – dizia um dos raros filósofos portugueses, o poeta (analfabeto) algarvio António Aleixo.

Numa sociedade autocentrada, antropocentrada, bem distante da sociedade teocentrada que a antecedeu,  torna-se obsoleto o raciocínio do oitavo mandamento – «não levantarás falso testemunho». Os tempos que correm assentam no levantar de falsos testemunhos, e não vem daí mal ao mundo, já que os aceitamos, promovemos, tomamos como nossos, enchemos as redes sociais com essa alegria de enganar o próximo, enganando-nos prioritariamente.

É melhor levantar falsos testemunhos a não poder exercer o direito de testemunho. Assim, não podemos acreditar em quase nada e por isso mesmo tornámo-nos descrentes, do que somos, do que podíamos ser e sobretudo do nosso próximo.

Decidi banir das minhas relações mais próximas alguém que há dias me dizia que não acreditava em ninguém, por princípio. Militando no mundo da mentira, pessoas como essa não podem constar do meu recanto utópico onde crer no outro ainda me faz algum remoto sentido. Não por ser antiquado, antidemocrático, ou mesmo lorpa, mas porque ter o ser humano como último reduto da salvação é uma ideia que me encanta. Não falo de seres, há-os de todas as espécies, mas dos últimos humanos, que defendem a Humanidade e os efeitos humanistas que se prendem com a sentimentalidade, com a afeição e os afetos, com a esperança (nunca de um mundo melhor, este é fantástico, mas de alguém melhor para o mundo). Aqueles que não acreditam nos outros, não me servem, a menos que me divirtam, nem é esse o caso.

Não sei se é mentira, mas entrelaço aqui, finalmente, uma notícia quase surpreendente. O jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, assinalou o décimo aniversário da morte do escritor português José Saramago (16.11.1922 – 18.6.2010), primeiro na edição diária em italiano, e depois na edição semanal em português, sublinhando: «[…] preferimos recordá-lo como um autor que procurou destacar o fator humano que se esconde por detrás dos acontecimentos mais díspares.»

Faço notar que esses dez anos de ausência não tiveram grande dimensão evocativa por aqui, no nosso país de gente gira.

Disseram-me um dia que só a verdade é revolucionária; falaram-me da verdade a que temos direito; dizem-me que são verdade coisas que sei virem do pobre imaginário dos delirantes e recebo-as como petas indecorosas, arrumando-as no contentor dos dejetos e desperdícios.

Entrelaço coisas e ideias. Retiro algumas pessoas do caminho.

Deixo a cada um a sua verdade. Se acharem que é mentira, é lá convosco.

Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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