Crónica de Alice Vieira | O silêncio da leitura

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O silêncio da leitura
por Alice Vieira

 

Todos nós temos uma tendência  para falar preferencialmente daquilo que está mal.

Claro que se deve falar dessas coisas, claro que se deve chamar a atenção para aquilo que está errado—mas quantas vezes olhamos para o que está bem…e não dizemos nada?

(Mal acomparado, muito mal acomparado, admito, é um pouco o que se passa hoje, toda a gente a repetir vezes sem conta, o número de mortos e infectados sem nunca se lembrarem de anunciar o número de curados…  Adiante )

Quando eu era miúda , lembro-me de ouvir as minha velhas tias dizerem lá em casa, quando eu fazia qualquer coisa bem feita, “não fazes mais do que a tua obrigação”…-o que era, pensava eu, profundamente injusto porque, quando a minha prima Ana, que tinha sempre más notas, arrancava um 10, aquilo era uma festa lá em casa que até parecia que o Benfica tinha sido campeão do mundo e arredores.

Bom, quero eu dizer que, de vez em quando, não custa nada elogiar o trabalho bem feito que vamos encontrando à nossa volta.

Neste meio confinamento em que ainda estamos, é engraçado como vamos passando a nossa vida em revista, sítios onde fomos, actividades em que participámos—e eu ontem, vá-se lá saber porquê, lembrei-me de uma escola perto das Caldas da Rainha  (creio que era a Escola de Santa Catarina) em que os professores tiveram uma ideia extraordinária.

Decidiram e anunciaram que iria haver um dia em que toda a gente na escola iria parar durante 45 minutos—e estaria a ler durante esses 45 minutos.

Ninguém podia fazer outra coisa que não fosse ler.

Durante 45 minutos.

E todas a gente significava mesmo toda a gente : desde o funcionário à porta da escola, até às empregadas, professores, alunos, toda a gente o que se chama mesmo toda a gente.

Escolheram o dia, cada um escolheu o livro que quis ler, e à hora marcada, do dia marcado, a escola parou e, durante 45 minutos toda a gente esteve a ler.

Lembro-me que uma das professoras que me contou isto dizia que o mais impressionante de tudo era o silêncio. Foram 45 minutos de  silêncio absoluto, não se ouvia o mínimo ruído, toda a gente estava, realmente, absorvida na leitura.

E, pelos vistos, essa paragem de 45 minutos não interferiu em nada no bom andamento da escola : não houve desacatos, as burocracias inevitáveis não se ressentiram, a comida esteve pronta a horas, os programas não se atrasaram, os alunos não falaram ao telemóvel, os professores não se queixaram do ministério da Educação.

Foram 45 minutos de uma vida diferente encaixados perfeitamente na vida de todos os dias.

Possivelmente algumas das pessoas que nesse dia leram durante 45 minutos há muito que não pegavam num livro.

Possivelmente algumas das pessoas que nesse dia leram durante 45 minutos eram daquelas que constantemente repetem “eu tenho lá tempo para ler!”

Possivelmente algumas das pessoas que nesse dia leram durante 45 minutos até pertenceriam àquele grupo dos que afirmam “eu não gosto de ler”…

Possivelmente algumas das pessoas que nesse dia leram durante 45 minutos… mudaram de opinião.

Quando esta pandemia acabar e já se puder regressar normalmente às escolas—penso que esta seria uma ideia a aproveitar.

 

Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Actualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


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