Crónica de Jorge Ferreira | O silêncio

O silêncio
por Jorge Ferreira

 

 

Este silêncio que persiste em se manter vivo. Este não sei quê que se vai instalando de uma forma que nos atormenta. São como noites de vigília apenas com uma vela acesa. Os medos incutidos. A mudança de vida. A mudança de mundo. Caladas vozes.

Passam máscaras na minha rua. As máscaras, na minha região, estão à venda nas IPSS. Como sou velho tenho direito a quatro máscaras grátis por semana. Acho que tenho de telefonar para a linha sénior. Ofereçam a toda a gente, é vossa obrigação.

Estamos a tentar abrir a sociedade. Os lobbies assim o querem. Muito se tem resistido. O dinheiro que inunda e logo se escoa por sítios inverosímeis. Vamos pouco a pouco, vamos pouco. Para onde iremos?

Que se seguirá? Vamos mudar? Vamos ser mais controlados. As novas aplicações sucedem-se. Que querem saber mais de nós? Sabem onde estamos a todo o momento. Há cada vez mais câmaras a seguirem-nos. Os robots já obedecem a determinadas ordens, memorizam. Quando chegará a sua hora da revolta?

Poderá esta sociedade ser mais desumanizada? Eu que continuo a ser dos afectos, dos abraços, dos beijos, do toque, serei um alvo a abater? Para onde caminhamos? Hoje vi uma filha subir numa grua do lado de fora de um lar, até ao primeiro andar para ver e falar com o Pai à janela. Coisa que já não fazia há muito tempo. O Pai, já com alguma aparente demência, com a confusão aumentada perante tal situação. Saíam lágrimas e frases curtas respondidas por esgares e algum balbuciar.

É raro ir à rua. Já me doem as pernas. Já me dói tudo.  Depois são as desinfecções. Os receios e alguma tristeza no que vejo e no que não vejo. As pessoas que andam de forma estranha. O café em copos de papel. Tudo higienizado. A tal sociedade que querem asséptica e o politicamente correcto. Como diz o cantor: “Antes o poço da morte que tal sorte”.

A maioria fala em voltar ao normal. Falam como se tudo isto não fosse deixar marcas. O que mais se ouve é: isto vai ficar tudo bem. Não, não vai! Para os que morreram, para os que não os puderam ver pela última vez. Para os que sentiram a morte a rondar. Para os que viram morrer muitos nas suas mãos. Para os que, apesar de extenuados (devia dizer burnout, está na moda), seguiram cuidando. Muitos deles afastados da família para os defender. Tudo muito duro.

A vida nunca foi fácil para muita gente. A maioria da população mundial. Mandar lavar as mãos a quem não tem água é tarefa difícil. A Europa continua a ser um retalho de Nações, umas quintas com arame farpado. Os nacionalismos agradecem. Esperam, como as aves de rapina, o seu momento. Mais uma luta a travar.

Estamos todos frágeis. Falta-nos vida. As notícias são sempre tristes. Tentamos ver outra coisa. Outros momentos que nos faltam. Falamos para os amigos. Lavamos as mãos. Faltam-me as luvas. Lembro-me de umas luvas velhas que arranjei quando era miúdo e queria ser guarda-redes.

Novidades precisam-se.

A Isaurinda diz que está cada vez pior. Que não aguenta. Que já é demais. Que não entende nada. Aconselhamos calma. Enviamos beijinhos. Não chegamos ao desespero.

Confinado JCF Parede, 6 de Maio de 2020

Jorge C Ferreira Maio/2020(251)

Jorge C. Ferreira
Define-se a si mesmo como “escrevinhador” . Natural de Lisboa, trabalhou na banca, estando neste momento reformado.
Participou na Antologia Poética luso francófona: A Sombra do Silêncio/À Lombre du Silence;
Participou na Antologia poética Galaico/Portuguesa: Poetas do Reencontro
Publicou a sua primeira obra literária em 2019, “A Volta à Vida À Volta do Mundo” – Poética Editora 2019.

 


Pode ler (aqui) todas as crónicas de Jorge C Ferreira


   

Leia também

11 Thoughts to “Crónica de Jorge Ferreira | O silêncio”

  1. Eulália Pereira Coutinho

    A melhor crónica sobre o momento que se vive.
    Meu amigo, também concordo, nada vai ser igual e não vai ficar tudo bem. O medo está instalado. As notícias sucedem -se e contradizem-se. As mesas de café e esplanadas deixaram de ser lugar de encontro de amigos e conhecidos. O mar vê–se ao longe. Há muito poder nas mãos dos loucos. Temo pelo futuro, não por mim, mas pelas minhas filhas e netas.
    Boa ausência.
    Espero pelos seus textos e crónicas.
    Cuide-se bem.
    Um grande abraço.

    1. Jorge C. Ferreira

      Obrigado Eulália. Vamos acreditar na nossa força. Vamos tentar contrariar os caminhos estreitos. Abraço

  2. Branca Maria Ruas

    O silêncio que se arrasta pelos dias que começam alongar-se. A alegria a perder a força. A vulnerabilidade a espreitar. A espera que já cansa. Os abraços que tardam. A dúvida de como vai ser a seguir. Será que ainda vamos a tempo de viver ou teremos que nos limitar a sobreviver?

    1. Jorge C. Ferreira

      Obrigado Maria. Não perder a esperança e a vontade de ter outro futuro. Abraço

  3. Isabel Campos

    Olá querido amigo confinado ☺️ olá Jorge

    Essa a realidade um pouco por todo o lado.

    Máscaras, pois, não me dou lá muito bem mas tem de ser nos locais obrigatórios. Nos outros não uso. Tomo sérias precauções e até penso que me defendo melhor. Manda quem pode, obedece quem deve.
    Sabes, tem-me dado a preguiça mas vou fazer algumas na tentativa de passarem por um apontamento de moda ☺️

    Bom, o que te queria mesmo dizer é que vejo muita preocupação em desconfinar mas não vejo nenhuma em aproveitar os benefícios ambientais que alcançamos com o confinamento enquanto confinados.
    Penso que se podiam implementar medidas que nos impedissem de estragar o bom que aconteceu. Há tanto a fazer.
    Entretanto não fazemos nada e outra pandemia virá, talvez até mais forte e voltamos de novo a confinar e assim o fim do mundo vai acontecendo.

    É isto que queremos para nós, para os nossos? Claro que não mas fazemos muito pouco para mudar.

    A atitude preventiva de hoje tem de ser o comportamento de sempre.

    Beijo

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Que bom ter-te aqui e a escreveres o que escreves. Sim. Medo de um nunca acabar. A eterna pandemia. Abraço

    2. Jorge C. Ferreira

      Obrigado Isabel. Temos de fazer pela vida, por um Mundo diferente. Vamos conseguir. Abraço.

  4. Teles Ivone Teles

    Talvez o ” silêncio “, talvez a estranheza, talvez o medo, talvez……. Este não era o nosso mundo. As conversas eram mais variadas, contávamos pequenos acontecimentos, partilhas de vida. A alma aberta para aqueles de quem estamos mais próximos. O recordar abraços e beijinhos amigos. Uma festa na mão, na face. Partilhar sobre o mundo passou a ter um nome Covid 19. É feia e é perigosa esta doença.. Impossível sentirmo-nos livres. Impossível ser livres com medo. Cumprir distanciamentos. Acenar. Pôr a máscara. Calçar luvas ?. Não sei fazer nada com luvas. Mas ponho se sair. Posso contar as saídas: à Farmácia e à Mercearia de Bairro. Envio uma mensagem do que necessito; quando chega a mensagem: ” pode vir buscar “, vou de carro buscar. À porta, no passeio, já estão pessoas, todas afastadas. Qd me chamam vou à porta. Pego os sacos, coloco o cartão no terminal de MB,que também vem à porta, pago, e venho para casa. Apoiar alguns familiares, ou amigos, qd necessário. É assim o ” rame-rame “. Querido Jorge, meu amigo/ irmão, nunca mais a vida será igual. Cuida-te bem. Beijinhos ternos , meu amigo, meu irmão.., incluindo a Isaurinda.<3

    1. Jorge C. Ferreira

      Obrigado Ivone. Que vida, que cansaço. Que futuro? Que se seguirá? Que Mundo? Aquele Abraço.

  5. Cecília Vicente

    Um cansaço que me inquieta,demasiado tempo sem ir à rua. Demasiado tempo,três meses e meio,o meio tem sido um quase todo o tempo que me faz desistir. A máscara e as luvas,o gel,e os múltiplos sintomas físicos e emocionais. Eu que escrevia que nada de significativo tinha para contar perante tanto que muitos contavam pelo que tinham passado,vejo-me neste resguardo onde as janelas fechadas deixam passar a claridade necessária. Quero correr o mundo,e o mundo fugiu perante o meu desejo. A desgraça e a miséria de muitos é o enriquecimento de milhares. Detesto máscaras,faltam-me o ar,falta-me a liberdade de poder ir por aí…
    Impossível,respeito para respeitar os outros. O mundo a avançar,setenta e cinco anos após a guerra mundial e os alemães,os juízes alemães a comandarem a Europa, perdera a guerra mas não a arrogância,o país mais rico a querer empobrecer ainda mais esta Europa onde o vírus comanda a vida alheia,deixamos de ser nós,para sermos números,como sempre,o mundo é matemático e cientifico. Nós,os meros peões de um jogo internacional… A Isaurinda consciente de sabedoria diz nada entender,quem entende? Abraço meu amigo,todo o cuidado e precaução é necessário. Não esquecer que um abraço prometido é código de honra…

    1. Jorge C. Ferreira

      Obrigado Cecília. Vamos contrariar o cansaço. Vamos criar coisas novas. Vamos abrir novas avenidas. Abraço

Comments are closed.