Crónica de Jorge C Ferreira | Números e Gráficos

“Números e Gráficos”

 

Todos os dias me enviam números e gráficos que eu agradeço, vejo e tento interpretar. Alinho os números, vejo as curvas. As subidas, os achatamentos e chego sempre à mesma conclusão: morreram mais não sei quantos e isso é que é horrível. Vejo as idades dos que morreram e entendo porque pertenço ao grupo de risco.

Houve um tempo em que a aventura era a minha vida e costumava alardear e gritar: o “risco é a minha profissão”. Agora o risco apanhou-me nesta curva da vida. Ainda tenho umas coisas que gostava de fazer. Sei que há gente noutros Continentes que me espera. Sou dos encontros improváveis, das ruas desconhecidas, dos bairros dos nativos, sou dessa busca incessante e sem fim. Amo o que é desaconselhado.

Já venci alguns contratempos. Sobrevivi a terríveis diagnósticos. Contemplei o dia seguinte como uma oportunidade única. Tudo deixa sequelas. Coisas que se tratam quando admitimos que necessitamos de ajuda. Tomo algumas pastilhas milagrosas que têm contraindicações. Outro risco que corro. Tento informar-me da relação entre o bem que me faz e o mal que me causa. É sobre uma corda de aço que atravessamos este pequeno pedaço de tempo a que chamamos vida. Eu tento levar a vara e sapatilhas adequadas, mas o perigo está sempre à espreita. A vida é um estreito caminho. Onde usamos e abusamos de coisas que não nos fazem falta. Vamos atravessar tudo isto de braço dado com os nossos: família e amigos. As várias vertentes do amor são essenciais. Só assim conseguiremos ultrapassar este momento único na nossa vida.

Ouvi há pouco que vamos mudar de estado de emergência, para estado de calamidade. Sejamos mais claros, vamos libertar as pessoas pouco a pouco. Vamos tentar pôr a economia a funcionar. Esta equação que parece uma coisa fácil, não o é assim tanto. Podemos começar a produzir, mas temos de ter quem compre. As pessoas estão com medo. Não é tempo de arriscar. Arriscam os que vivem nos cofres iguais aos do Tio Patinhas e se aproveitam sempre destas situações para ficarem mais nababos, a baba a cair ao ver os extractos de conta nas ilhas do costume. Um clique e já está. Mais não sei quantos milhões. Consta que muitos morreram afogados no dinheiro. Essa coisa que também passou a ser virtual.

Vou esperar para saber e absorver as novas medidas e disso falarei a seu tempo. Não sei o que me espera. Este enorme nojo que sinto ao começar a sentir que um velho é um encargo, é horrível. Cuidado que há quem pense assim. Eu não injectarei detergente nas veias. E sei que não são os coveiros que podem responder às perguntas sobre os mortos.

Sei que não há futuro sem passado. Tudo o que sei, de mais importante, foi-me ensinado pelos meus mais velhos. Tudo o resto são pormenores que nos aumentam um pouco do que sabemos, mas não são o nosso essencial sustentáculo.

Nunca me calarei com as situações nos lares. Quando vamos inspeccionar e testar todas as pessoas de todos os lares, licenciados e não licenciados? Nunca silenciarei a situação dos migrantes e das pensões e hostels para onde os enviam.

Não sei quando verei de novo a Isaurinda. Vamos falando e vendo por estas novas tecnologias. Enviamos beijos e dizemos até amanhã como se estivéssemos numa antiga gare marítima a assistir ao afastar de um navio.

Temos de falar com os amigos. Não se esqueçam.

Confinado JCF Parede, 29 de Abril de 2020

Jorge C Ferreira Maio/2020(250)

 

Jorge C. Ferreira
Define-se a si mesmo como “escrevinhador” . Natural de Lisboa, trabalhou na banca, estando neste momento reformado.
Participou na Antologia Poética luso francófona: A Sombra do Silêncio/À Lombre du Silence;
Participou na Antologia poética Galaico/Portuguesa: Poetas do Reencontro
Publicou a sua primeira obra literária em 2019, “A Volta à Vida À Volta do Mundo” – Poética Editora 2019.

 


Pode ler (aqui) todas as crónicas de Jorge C Ferreira


   

Leia também

9 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Números e Gráficos”

  1. Cecília Vicente

    Tempo de guerra,calamidade,desespero,lágrimas que escorrem pelo rosto determinadas pelas ausências que não entendem. Se éramos um país envelhecido o vírus encarregou-se,encarrega-se de subtrair para somar a estatística dos que sobrevivem. Se o destino marca a hora,que lhes resta,que nos resta senão sobreviver à espera do tempo,esse tempo que há muito deixou de ser nosso para sermos espectadores comandados por uma pandemia que não poupa ninguém,apesar de continuar os mais frágeis a serem os da linha da frente…Nada muda,nada mudará,o ser humano é ingrato por natureza. Abraço meu amigo,havemos de vencer apesar de nada mudar,nada há-de ficar bem.Salva-nos o arco íris desse horizonte onde muitos de nós ainda habitamos como a “Terra do nunca” essa esperança que se mantém enquanto pudermos e tivermos a capacidade de olhar além mar o céu e a terra que olhamos com olhar de querer chegar longe…

  2. Cristina Ferreira

    Angustiante assistirmos à solidão e depressão dos nossos idosos. Estarmos atentos. Alertarmos. Nunca calarmos. Não há o toque, não há o abraço, mas não podemos perder o elo com a família e amigos.
    Uma crónica que dói, mas não podemos desistir.
    Obrigada pela tua voz.
    Abraço

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Tudo isto é muito estranho. Parece que há uma cerca sanitária. Não gosto. Coragem. Abraço

  3. Eulália Pereira Coutinho

    Momentos difíceis estes meu amigo. Números e gráficos que levam sempre ao mesmo, à fragilidade dos mais vulneráveis.
    “A vida é um estreito caminho “. Quando há limitações passa-se a dar valor a coisas que pareciam insignificantes. Outras tão importantes acabam por não ser valorizadas. Tudo se relativiza.
    Vamos tentar atravessar tudo isto da única maneira possível, com o amor da família e dos amigos. Faz tanta falta o abraço dos filhos e dos netos. Nunca a saudade fez tanto sentido.
    Obrigada pelos seus textos e crónicas extraordinárias.
    Vamos resistir.
    Um abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Percorrer o caminho com os nossos. Sabermos uns dos outros. O Amor é a chave de tudo. Abraço.

  4. Regina Conde

    Novos tempos. Creio que alguns de nós já viveu momentos difíceis, mas o mundo inteiro ao mesmo tempo tounou-se regra. Sobreviver sim, viver é arriscado. Dei comigo a fazer contas com a vida, quase deve e haver. E a Telescola voltou. Não oiço aviões. Vejo adivinhos. Saudades do sentido de humor sem medo de chorar a rir sem o uso da máscara. Por nós todos, vamos aguentar. De tudo o que me dói é a ausência do abraço inteiro, demorado. Vamos combinar para a semana aqui à mesma hora Jorge? Um abraço grande, meu Amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Sim, tempos difíceis e o desconhecido, o imprevisto. Não sabermos o quando? Está combinado. Abraço.

  5. Teles Ivone Teles

    Meu querido amigo, bebi o que escreveste. ” Números e gráficos ” não faltam, mas como tu eu queria entender mais, tenho a mania de querer saber. E, se oficialmente tens um risco acrescido, imagina eu que tenho mais dez anos. Tens uma vida de muitas vivências, mas és um jovem na maneira de olhar o mundo. De repente não podemos estar com amigos, com a família. Procuramos cumprir o estabelecido, pelos outros, por nós, e pelos nossos ” outros “. Nunca mais viveremos sem mais esta inquietação, mesmo quando derem ordem de liberdade . Vamo-nos encontrando por aqui, por ali, pela presença da memória. Vejo-te como te conheci; abraço-te, como te abracei. Essa memória está bem guardada. Beijinhos meu querido Amigo/ Irmão. Até amanhã.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Como me lembro desses abraços. Sim, isto não nos irá largar tão cedo. Até já. Abraços.

Comments are closed.