25 de Abril: a Internet como arma política

Em 2020, o 25 de Abril foi comemorado de forma diferente em Portugal. Em Mafra e em Sintra, tal como no resto do país, a Revolução dos Cravos foi celebrada através de manifestações virtuais. O cancelamento insólito das comemorações do 25 de Abril levou algumas pessoas a protestar contra aquilo que muitos consideraram ser um ataque aos princípios políticos da liberdade e da democracia. Mas faz sentido acreditar que o exercício político pessoal está limitado quando confinado ao espaço virtual? Ou é o 25 de Abril de 2020 um momento oportuno para nos fazer finalmente considerar o papel da Internet enquanto uma arma política legítima?

A primeira plataforma de comunicação realmente livre

Os meios de comunicação desempenham um papel fulcral no progresso político desde que a imprensa foi desenvolvida pelo inventor alemão Johannes Gutenberg, no século XV. Pela primeira vez na história, a informação não estava nas mãos daqueles que detinham o poder político, mas sim do povo. No entanto, à medida que a prensa de Gutenberg inspirava grandes corporações a editar jornais e revistas de forma regular, surgia uma nova forma de poder centralizado: os média. Com a invenção de meios de comunicação ainda mais poderosos, como a rádio ou a televisão, a importância dos média crescia de forma exponencial. Subitamente, aquilo que era ouvido nas rádios ou transmitido através das televisões passava a ser controlado por um pequeno grupo de pessoas e corporações.
Felizmente, a existência de uma deontologia jornalística assegurou a protecção da verdade e ajudou o público a manter-se verdadeiramente informado. Mas isto nem sempre aconteceu. Em muitos países do mundo, os média foram colocados à disposição das forças políticas vigentes. Os média ajudaram a difundir as ideologias de regimes fascistas como o do Estado Novo, em Portugal, ou o de Adolf Hitler, na Alemanha. Mesmo hoje, continuam a ser utilizados como um meio de propaganda política em países como a Coreia do Norte, a China, ou mesmo os Estados Unidos. Mas tudo poderia ter mudado com a invenção da Internet.
Pela primeira vez na história, a Internet permitia um acesso justo a diferentes conteúdos informativos, constituindo uma plataforma realmente livre e ao serviço de todos. Criar um site ou um blog e partilhar com uma audiência de milhões uma ideia pessoal passou a ser uma realidade no final do século XX. Pela primeira vez na história, era possível obter os meios de produção necessários para difundir de forma eficaz uma mensagem. A melhor parte? Nem sequer era preciso sair de casa. Bastava ter acesso a um computador com Internet. Não existiam dúvidas: a Internet tinha tudo para ser a arma política mais poderosa de sempre, um instrumento de poder ilimitado colocado ao serviço do povo e do cidadão comum.

Hacktivismo e a luta por uma Internet livre

Se é preciso uma prova do poder político da Internet, basta olhar para a história recente. No século XXI, grupos como os Anonymous começaram a proliferar no espaço virtual. Um movimento “sem chefe” e completamente descentralizado, os Anonymous eram, mais do que uma instituição, uma ideologia comum. Um conjunto de crenças em que os valores máximos eram os da liberdade, da democracia, e do livre acesso à informação. E mais do que uma maneira de manter ocupados os utilizadores se serviços digitais como o 4Chan ou o Reddit, os Anonymous eram eficazes e activos. Ajudaram a fundar movimentos como o WikiLeaks, que levou à exposição de actividades extremamente perigosas, que eram e ainda são colocadas em prática por grandes corporações mundiais e organizações políticas como a NSA, nos Estados Unidos.
Outros hacktivistas, como o norte-americano Aaron Swartz, lutaram pela manutenção de uma Internet livre e colocada à disposição do povo. Swartz defendeu de forma efusiva o livre acesso à informação. Uma luta que poderá ter levado ao seu trágico suicídio, mas que ajudou à manutenção de uma Internet livre e gratuita, tendo consequências directas nas acções legislativas do Senado norte-americano. Nos últimos anos, no entanto, hacktivistas como Swartz e movimentos como os Anonymous têm sido alvo da perseguição constante das autoridades políticas, que agem de acordo com leis ultrapassadas que têm mais de burocrático do que de democrático. De repente, “whistleblowers” como Edward Snowden ou Rui Pinto, em Portugal, passaram a ser perseguidos pelo seu próprio Governo e foram forçados a responder perante a lei. Tudo devido a uma exposição alegadamente “indevida” da verdade.

Uma parte fundamental das nossas vidas

Hoje em dia, já não vamos às lojas. Compramos através da Internet. Já não visitamos o casino. Jogamos através dos sites da 888. Também já não passamos anos sem ver os familiares que estão no estrangeiro. Porque podemos falar com eles através de video-chamadas. A Internet mudou as nossas vidas para melhor e dotou-nos de um poder extraordinário em quase todos os aspectos do nosso dia-a-dia. Por que devia o intervencionismo político ser diferente? O 25 de Abril não está sob ameaça por ser celebrado online, muito pelo contrário. Porque é online que o cidadão comum está realmente dotado de um poder político ilimitado, e é através da Internet que cada um de nós pode fazer a diferença.

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