Folhetim por Licínia Quitério | “Dona Clotilde” – (8º. Episódio e último)

Licínia Quitério

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“Dona Clotilde” – (8º. Episódio e último)

Licínia Quitério

 

Já vários anos tinham decorrido desde que o acordo fora estabelecido, com honra para ambas as partes. Encontraram-se numa leitaria, longe do bairro em que habitava. Lembra-se ainda, como se fosse hoje, de todos os pormenores do encontro. Até da nova água-de-colónia que ele trazia. Um horror! Cheirava de longe a pecado. E ela coberta de pó-de-arroz, a esconder as olheiras de uma noite de insónia, nervosa como uma adolescente em encontro clandestino. Ouviu-o falar, falar, enquanto bebia um galão e mordiscava um bolo de arroz e ele sorvia uma imperial, acompanhada de tremoços. A espuma leve da cerveja ficava presa nas pontas do bigode, mas ele logo a limpava, com o triângulo do guardanapo. E ele falava, falava, e ela pestanejava e ouvia. Era um acordo sensato. Segundo ele afirmava, com toda a segurança, nunca pela cabeça dela lhe passara a ideia que um casamento também pode trazer o seu cansaço. “A rotina, estás a ver? Depois viria o desinteresse e isso, filha, seria o pior que nos poderia acontecer: a morte dum Amor tão bonito como o nosso.”. Ele previra a situação, um homem sabe sempre muito mais da vida do que as mulheres, coitaditas. O que ela vira no quarto, naquele dia? Pura imaginação. Ou melhor, alguma coisa sobrenatural dentro dela a dar-lhe a prever o que poderia acontecer se tudo continuasse como estava. Ele falava, falava… Ela chegara ao fim do galão e limpava as migalhas do bolo do tampo da mesa para o pires. “E agorra? E aquela… infeliz?”. Não se preocupasse. Tudo previsto. Ele era o Pai e estava a cumprir a sua missão o melhor que sabia. Havia de a ajudar a tornar-se a pessoa com que ambos tinham sonhado. Chegara o tempo de Clotilde ter algum descanso nas preocupações de velar por uma jovem, ainda por cima nestes tempos tão difíceis, tão cheios de armadilhas. Quanto a eles, iriam, se ela estivesse de acordo, iniciar uma nova fase das suas vidas amorosas, com todo o picante de um amor proibido, desses que nunca morrem, pelo contrário, se incendeiam com o passar do tempo. Ela escutava, escutava… Puxara da mala, tirara de lá o espelhinho e o bâton com que retocara os lábios, esfregara-os depois um no outro, a uniformizar o tom, e voltara a pôr tudo na mala. Sentindo um leve arrepio, abotoara o botão de cima da blusa de nylon cor de salmão. Arredava a cadeira para se levantar, quando ele, intrigado, lhe atirou: “Então, não dizes nada?”. Dona Clotilde, já de pé, empertigou os peitos, olhou Gustavo bem nos olhos e, sem expressão, como se desde sempre soubesse de cor a frase exacta, disse: “Passas a dormir lá às quartas-feirras.”.

Era nesses benditos dias da semana que no escritório a ouviam trautear a “Trraviatta”.

 

FIM

Licínia Quitério
Licínia Correia Batista Quitério nasceu em Mafra em 1940. Foi professora, tradutora e correspondente comercial.
Quando chegou à reforma decidiu publicar o que escreve.
Tem neste momento publicados seis livros de poesia e três de prosa (contos e romance).

 


Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Licínia Quitério.


 

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