Crónica de Jorge C Ferreira | Confinados

Crónica de Jorge C Ferreira

 

Confinados

Aqui estamos confinados. Uma casa antiga, um quarto refúgio. Catorze degraus e um pátio. Três ânforas velhas. Uma fonte que não deita água, mas que, pela noite, se ilumina com candeeiros de carregamento solar. Três cactos que crescem de forma desarvorada num pequeno canteiro. Cadeiras, uma mesa e um churrasco que nunca utilizei. Os gatos passeiam pelos muros numa liberdade que me inveja. Descansam em equilíbrio instável. E fintam o arame farpado de forma ágil. Depois vão-se embora nunca sei para onde. O Sol tem entrado sorridente pelas vidraças de uma grande janela de madeira. Haja algo que nos ilumine.

Os livros que falam e se mostram oferecidos. Livros desarrumados como a vida. Os quadros de muitos anos. As recordações de viagens e as que guardámos dos mais velhos. Algumas coisas não passam de tralha. “Trastos inútil” como diria a minha Amiga Catalã. Tõna, minha querida, espero que estejam bem aí por Reus, a falar a vossa língua. Outras são objectos que nos remetem para outro viver, para outro tempo. Para um tempo em que ouvíamos no rádio as notícias proibidas. Os retratos retocados pelos fotógrafos, verdadeiros artistas que assinavam as fotografias e faziam manualmente o que agora um telemóvel resolve.

Estamos escondidos. Quase clandestinos. Sobrevivemos de uma forma austera. Somos dois. Vamo-nos vendo. Tentamos não implicar. As artes são diferentes. O trabalho manual e a escrita. Tudo se completa de uma forma inesperada. Uma dança nunca esquecida. Crescem casacos de quadrados com cores que chamam à atenção e alguns textos que vão nascendo das teclas que parecem correr sozinhas.

Há uma montanha de livros na mesa da sala. São os próximos a devorar. Por vezes escrevo um texto sobre um livro que leio. É muito tarde que inicio a leitura. É com ela que me enleio antes de dormir. Uma amiga de muitos anos. Uma amiga que sabe os meus vícios, o sabor de alguns sublinhados e da cola fraca dos pequenos marcadores coloridos. Nem sempre tudo o que assinalo resiste a uma segunda leitura. Há, no entanto, livros que estou sempre pronto para ler. Também há descobertas emocionantes e existe a minha livreira e amiga de muitos anos que me recomenda coisas especiais. As saudades que eu tenho das novas conversas entre livros.

Falamos ao telefone com muito mais gente e mais gente fala para nós. Hoje vemo-nos ao telefone e temos uma ilusão de proximidade terrível. É também algo que nos acalma, ou não. Quando falo com os meus mais velhos procuro saber das coisas que não vivi. É então que eles me contam da segunda guerra mundial, das senhas de racionamento, das bichas para os bens essenciais. O carvão que era na altura muito importante também era alvo de correria quando chegava. Ainda me lembro das carvoarias e dos carvoeiros. Dos funileiros. É a forma de entrar ainda noutra vida. Assim vamos aprendendo. Até ao fim.

Tenho mais de setenta anos. Estou obrigado a esta clausura não sei até quando. Sobreviver é a palavra de ordem.

A Isaurinda não vem cá a casa. A falta que ela me faz… Como me custa viver com esta ausência. Sei que, quando ela voltar, vou ouvir do bom e do bonito. Quando nos falamos ela bem quer ver como está a biblioteca e o escritório, claro que não lhe mostro. Depois logo se vê.

Cuidem-se muito.

Jorge C Ferreira Março/2020(245)

 


Poder ler (aqui) as outras crónicas de Jorge C Ferreira.


   

Leia também

22 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Confinados”

  1. Cristina Ferreira

    Querido Jorge,
    Estamos confinados, no entanto ao ler-te, senti-mo-nos abraçados pela ternura das tuas palavras. São sempre um conforto aos nossos corações.

    Compreendemos-te bem o que sentes na forma como descreves a liberdade dos teus amigos felinos , as “cores vivas” da tua querida companheira de vida. Jorge, como me custa pensar nas pessoas de idade que estão sozinhas. Ontem telefonei a uma tia querida que está fantástica nos seus 82 anos, e vive sozinha, desabafava comigo que “estar presa” em casa lhe estava a custar horrores.

    hoje, já choveu, (e que falta estava a fazer para as minhas alergias) mas apesar da chuva , o nosso céu é único, e neste momento que te escrevo, uns raios tímidos de Sol espreitam por detrás das nuvens e a Luz é fantástica .

    Ninguém estava preparado para “isto”, querido amigo, Mas eu acredito que nada vai voltar a ser como antes. Vamos ver e sentir o mundo de uma outra forma.

    Mas temos de estar preparados. E fortes. Continua a escrever, que a Isaurinda quando aí for, dá-te um puxão de orelhas, mas perdoa-te. Sabes que ela perdoa-te sempre.

    Cuida-te muito, por favor.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Que agradável é ouvir que as palavras que junto fazem companhia a outros. Grato pelo teu comentário. É reconfortante. Cuida-te muito. Abraço.

      1. Cristina

        Fazem muita companhia, querido Jorge.
        Nós é que te somos gratos. Sempre!
        Abraço

  2. Isabel

    Nem sei que te diga para além de… ❤️
    Acredita numa coisa 🌞 vou invadir o teu espaço 😊 vou invadir esses catorze degraus 😊 espera – me ❤️ que me desculpe a tua companheira de vida se não chegar no melhor momento mas hei-de aí chegar.
    E tu?! Quanta resmunguice boa 😊 Acredita que a Isaurinda não liga nenhuma ao teu jeito desarrumado 😊 é só uma forma de dizer que te ama.

    Beijinhos grandes e não deixes de ser chato 😊
    Gosto muito de ti ❤️

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Que bonita esta canção feita comentário. És única. Abraço

      1. Isabel

        ❤️❤️❤️
        Portem-se bem, cuidem – se 😊 estou quase a caminho 😊😊😊
        Beijinho grande

  3. António Feliciano de Oliveira Pereira

    Forçosamente, temos muito mais tempo para pensar e rever passagens da vida guardadas no arquivo natural.
    Este ciclo por que estamos a passar obriga-nos à meditação sobre o que sabemos e o que evitámos saber.
    É a vida!
    Um abraço, Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. Um tempo estranho, meu amigo. Um tempo desconhecido. Pensar e ler. Saber dos outros. Abraço

  4. maria fernanda morais aires gonçalves

    Imaginei ver-te nessa casa, parece-me que estou a ver um filme. Tal é o realismo que carregas nas palavras com que descreves as cenas. Tu por um lado, a Isabel por outro, depois estabeleço a comparação para dentro da minha e em muitos pormenores vejo-me espelhada, porque também não estava a habitar agora aqui, estava em Lisboa. Os planos eram vir para aqui no fim da época escolar. Também não contava ter o meu marido em casa. O que é normal é estar a trabalhar durante o dia. De repente tudo muda. e as nossas cabeças vão ter que acompanhar a mudança. Cabeças cansadas. Cansadas cheias de hábitos e rotinas, baratas tontas, somos nós dois aqui por casa a ver séries da netflix, a não ter football na televisão para uma pessoa cuja paixão para além do trabalho e dos netos é este jogo.
    Vamos ao menos salvar as nossas vidas?
    O que vai ser da vida dos nossos? Estamos muito preocupados.
    Um abraço. Continua a escrever para nos deslumbrar com as tuas histórias.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda. A vida a mudar. Quanto vai mudar? Somos brindados com novos desafios diários. O corpo a ficar cansado. Até quando, minha amiga? Abraços

  5. Manuela Moniz

    Querido amigo, mesmo confinados, a ternura invade-nos em cada texto teu. É um tempo dificil, o que estamos a viver, onde fica patente a fragilidade do mundo em que vivemos. Não é o estar só que me preocupa, mas o medo que sinto pelos meus e por todos.
    Obrigada, Jorge. Cuida-te muito. Que nunca nos falte a esperança de voltarmos aos abraços e beijos a quem mais amamos.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Manuela. Frágil este mundo. Tão frágil como nós. A vida a destempo. As flores a crescerem. Grato, muitl, pelo teu comentário. Abraço.

    2. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda. A vida a mudar. Quanto vai mudar? Somos brindados com novos desafios diários. O corpo a ficar cansado. Até quando, minha amiga? Abraços

  6. Branca Maria Ruas

    Tal como dizes falamos ao telefone com muito mais gente e mais gente fala para nós.
    Nunca gostei de falar ao telefone. Se o fazia era apenas para o indispensável. Preferia usar mensagens. SMS ou whatsApp. Assim nunca me sentia inoportuna. A resposta vinha quando a outra pessoa tivesse disponibilidade para o fazer.
    Mas agora disponibilidade é o que menos falta… excepto quem tem que trabalhar para que nós possamos manter as nossas vidas (embora confinados),
    E até sabe bem conversar um bocadinho com alguém que, tal como eu, também não tem com quem conversar no dia a dia.
    Gosto do silêncio, gosto de estar só, mas as saudades de um abraço já são muitas.
    Não vejo a hora de poder abraçar a minha filha com quem não estou há 29 dias.
    Mas vamos superar isto tudo. Acredito que, quando retomarmos as nossas vidas, o mundo será melhor.
    Um abraço grande.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. As saudades de um abraço . Da conversa à volta de um café. A vida rasgada. Uma coisa a que não vemos o fim. Tenho todas as segunda-feira os teus belos comentários. Abraço

      1. Jorge C Ferreira

        Obrigado Maria. Minha amiga tão importante. A leitura dos meus textos. As considerações e as emendas. Temos de resustir abraço.

  7. Regina Conde

    A crónica que nos faz companhia. Aliás, juntamo-nos afastados, mais perto que nunca. Assim, te lemos. Cada um de nós menciona ou recorda o que viveu, o que não fez e virá a fazer. Estamos confinados ao espaço também individual. Costumo dizer que sou feita de abraços. Teremos que esperar muito. Mas, estamos vivos. Meu amigo de sempre um abraço. Cuidem-se muito.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Somos os abraços dados e por dar. A vida interrompida. Nunca mais nos dizem o dia do recomeço. Abraço

  8. Ivone Teles

    ” Confinados ” estamos, tal como escreveste. Confinados nos espaços, no tempo que se baralhou com a mudança da hora. Talvez a minha cabeça se esteja a baralhar com os 80 anos. Custa a passar o tempo. Revejo-me em muito do que dizes, principalmente na preocupação com os outros. De uma forma egoísta com os meus, mas basta ler e ouvir e é impossível não viajarmos ( não, não quero que viajes agora ) e nos sentirmos perto de tantas vítimas pelo mundo..Também vamos estando clandestinos. Até entre os vizinhos do mesmo prédio os contactos são pelo telefone.
    Se entrasses aqui onde estou também virias colunas de livros. Gosto de ter à mão os de poesia, aqui à minha volta. E os de prosa, alguns que gosto de ir relendo, estão pelo chão em colunas ,às vezes instáveis, mas bem perto de mim alguns outros; basta levantar-me um pouco. Mas tenho lido pouco para o que era habitual. A casa deve estar admirada, mas ocupo-me mais com ela do que era costume. Um dia por semana tinha uma ajuda, mas agora sou eu que vou dando um jeito.
    Meu querido Amigo/ Irmão, espero que continuem bem. Talvez para a semana estejamos todos mais esperançados. E vamos-nos ” vendo ” com os teus textos e a tua foto. Desculpa estar um pouco chocha. Beijinhos amigos e ternos.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Esta nossa nova forma de viver. Os livros que continuam nossa companhia. As vozes e as imagens. Abraço.

  9. Eulália Pereira Coutinho

    Meu amigo, como me revejo nesta crónica. O isolamento forçado. A preocupação com os ausentes. A preocupação dos ausentes, atenuada aparentemente pelo telefonema. Até quando?
    Os livros que estavam em lista de espera,ocupam agora parte do tempo.
    Todas as “isaurindas” estão em quarentena. Que falta fazem.
    Obrigada por continuar a escrever e publicar os seus belíssimos textos.
    Cuide-se bem.
    Um abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Sim, minha amiga, até quando? É a pergunta que todos fazemos. Quantos dias e quantos noites mais nos esperam? Que castigo é este? Resistir. Abraço.

Comments are closed.