Alexandre Honrado | Aprender a caminhar depois de Bérgamo

Em Junho de 2007, o escritor José Vegar ofereceu-me um livro seu, intitulado Cerco a um Duro, ficção de qualidade em dose tripla, digo tripla por conter três textos apetecíveis.

Tenho lido apenas ensaios nos últimos anos, com raras exceções, o que não me exercita como possa parecer, nem me acrescenta em sabedoria, pois exerço o meu direito de leitor em liberdade de arquitetar as mais complexas ideias, criticando pontos de vista, como se andasse à procura do vaso sagrado, do graal das minhas convicções.

Cerco a um Duro não é um ensaio, mas nele sobressaem sentenças de ensaísta, talvez porque o apelo da cultura tenha levado o seu autor cada vez mais longe, procurando na Academia o que cá fora às vezes anda disperso.

Agora, nesta caminhada estática que todos fazemos, da sala para o quarto e vice-versa, o título, repousava na prateleira há mais de 12 anos, atraiu-me, parecendo-me sintomático.  Passo a explicar.

Pior do que um cerco duro, duro para quem cerca e sobretudo para os que são cercados, é bem capaz de ser o cerco a um duro, ao duro que se julgava em eterna liberdade, procurando rumo sem temer o chão pisado, o castigo mais pesado.

No livro, vejo agora, tinha marcado uma página com um post-it e neste uma seta a indicar-me uma frase: “não creio que seja fácil um homem resistir a alguns dos seus piores instintos, numa situação-limite”.

Dizem-me alguns teóricos que não os temos já, aos instintos, por termos caminhado para longe, pelo menos um pouco, da crueldade animal de onde viemos, onde nascemos, e que, melhor palavra, será justo reconhecer que somos sofisticados a pontos de, isso sim, termos impulsos.

A frase do Vegar, nesta hora em que estamos confinados ao lar, à caverna sem abertura para o exterior, vendo apenas por uma nesga as sombras projetadas que entendemos ser o que sobra do mundo – revisitando a alegoria da caverna do velho Platão-, esta frase estremeceu-me.

E se fosse verdade?

E se, perante a situação-limite sucumbíssemos aos nossos piores impulsos?

Em 2016, o físico e cosmólogo britânico Stephen Hawking , provavelmente o único génio da Humanidade capaz de entender-nos, durante uma entrevista com Larry King, no programa de entrevistas Larry King Now, afirmou que a ganância e a estupidez são o que acabará com a raça humana.

Sucumbiremos aos nossos impulsos, acelerados pelas situações-limite? Reservo a convicção de que parte da cultura humana constrói hoje como sempre a expectativa para a redimensão do ser humano, embora possa ser tarde de mais para retornos.

Num texto escrito coletivamente por anarquistas de Turim, tomando posição sobre o que se passa em Itália, pude ler – e se forem impressionáveis parem aqui e desprezem a citação que impressiona: “os carros funerários estão alinhados frente ao cemitério de Bérgamo. Esta imagem, mais do que muitas outras, mostra-nos a realidade em toda a sua crueldade. Nem sequer se lhes pode colocar uma flor. Nem sequer puderam acompanhá-los até à sua última morada. Morreram sozinhos, lúcidos, sufocando lentamente”.

Estamos, como em crianças, a aprender a caminhar pelo nosso próprio pé. E, como no ato de nascer, falta-nos o ar, a luz, o entendimento.

 

Alexandre Honrado

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