Crónica de Alice Vieira | De quarentena

Crónica de Alice Vieira 

 

DE QUARENTENA
Alice Vieira

 

Meus amigos e directores do “Jornal de Mafra”:

Estou-vos imensamente grata porque esta minha crónica é a única coisa que eu tenho para fazer nesta quarentena. Ninguém me mandou estar de quarentena, é verdade, mas eu sou uma pessoa muito cumpridora (e, além disso, pertenço a um grupo de risco) e faço aquilo que é preciso, antes que me mandem. Quando todas as mensagens dizem “Fique em casa”, quando olho para o écran da minha televisão e vejo lá em cima, do lado direito “#Fique em casa”— quem sou eu para não cumprir. Ah, mas de manhã vou ao café aqui em frente porque a jovem que lá trabalha liga-me a dizer “não está cá ninguém”.. E pronto, lá marcho eu.

Como todos os que me conhecem sabem, a minha agenda é assustadora. Agora também —porque foi tudo desmarcado. Páginas e páginas sem nada escrito—a não ser os dias de anos dos meus amigos, porque mandar-lhes um sms não faz mal a ninguém.

Tudo, absolutamente tudo desmarcado. E acho bem, eram encontros em escolas, em bibliotecas, em teatros, tertúlias, jantares — claro que fizeram bem.

Mas agora o que faço eu enfiada em casa? Digam-me. Ah, uma coisa muito boa: todos os amigos me telefonam. Nunca gostei tanto de receber telefonemas dos amigos (desde que não sejam daqueles sempre em pânico, esses dispenso. O mais em pânico é o João que me liga e diz logo “vê lá se estás à distância de 2 metros do telemóvel..”—mas isto, claro, é para a gente desatar a rir… )  Amigos que raramente ligam, amigos que só conhecia do Facebook, todos aparecem agora, não ao vivo e a cores porque ainda não pode ser, mas de viva voz, o que já é muito bom. Outros mandam sms com muita graça (valha-nos isso…). Como a minha amiga Maria, a quem eu perguntava “já estás a bater com a cabeça nas paredes?”, e me respondeu, “não, estou a bater com a cabeça no meu marido que para isso ele ainda serve.”

E claro, todos nós combinamos que, assim que isto acabar, fazemos jantaradas todos os dias…

Estou-me a viciar na Netflix (nunca pensei desconhecer tanto da família real inglesa desde que vejo “A Coroa”…), e não perco os Midsommer Murders, a Laura, a Munch—ou seja, as melhores séries da FoxCrime. Quando já passaram, “puxo-as” e lá vêm. Meu Deus, o que seria de nós agora se não houvesse telemóveis, computadores, acesso à net…e outras maravilhas fatais da nossa idade.

Ah, e não perco um  “Joker”. O Vasco Palmeirim é filho de amigos meus do meu tempo de Paris, quando ele nem era ainda sonhado… Mas ou a minha cabeça anda (ainda mais) maluca, ou ontem houve ali uma asneira …Que fadista entrou no filme “A Canção de Lisboa”? –e davam como hipóteses a Amália ou a Hermínia. Mas alguma fadista entrou nesse filme, onde brilhava a Beatriz Costa? O Vasco Santana é que cantava o fado… Ai, ai, isto anda tudo às aranhas.

E também faço malha. Aí os amigos vingaram-se: tenho sempre uma lista de espera, cachecóis para este, manta para aquela, mas agora a lista enche uma página inteira. Acaba a quarentena e eu ainda hei-de estar de roda dos novelos.

Meus queridos leitores, desculpem lá mas isto parece um diário parvo de quem não tem nada para contar.

De alguém que está de quarentena.

De alguém que, por acaso, até faz anos hoje.

 


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