Folhetim por Licínia Quitério | “Dona Clotilde” – (5º. Episódio)

Licínia Quitério

Folhetim por Licínia Quitério 

“Dona Clotilde”  – 5º. Episódio

Conversas sobre este assunto não eram frequentes, mas, quando aconteciam, Dona Clotilde parecia perpassada por um diabinho que vivia dentro dela, e que então se deixava avistar, num ápice, um pequenino luzeiro, no fundo dos olhos cor de mel, ao mesmo tempo que o corpo dela se contorcia, ligeira, muito ligeiramente.

A vida levou uma volta, se levou.

Quando os apanhou em flagrante delito, no seu próprio quarto, no seu próprio leito, num desaforo, foi como se uma bomba buum! lhe rebentasse dentro da cabeça. Dizia que verdadeiramente tinha perdido a inocência naquele instante. Então viu tudo. Tinham criado no seu seio uma víbora (ou serpente, confundia sempre) venenosa, traiçoeira. Com aquele arzinho de menina pudica e grata aos seus Pais, afinal era a própria tentação, o pecado. Com a Bíblia sempre à cabeceira, como é que ela, Dona Clotilde, tão apreciadora dos textos sagrados, de que sabia de cor muitas passagens, principalmente do Livro dos Salmos, não fora capaz de ver que, no seu Jardim do Éden, Satanás se preparava para actuar, para levar o Tavinho a morder a maçã rosada e carnuda em que aquela criança se transformara, ali mesmo debaixo dos seus olhos de mãe extremosa? “Pois, estava-lhe na massa do sangue. Herdou daquela p…, desculpe, senhor Ferreira, que a palavra ia-me saindo. Sim, quem sai aos seus… Ele há coisas!”. Silenciava uns instantes, a remoer migalhas da dor que lhe ficara a “atazanar” a alma, como dizia o seu falecido Padrinho. Mas o Ferreira, de olhinho pequeno, a brilhar de gozo, voltava à carga: “Confesse, Dona Clotilde, que a senhora andava muito distraída. Então eles disfarçavam assim tão bem? Olhe que, se dizem que as mulheres têm um sexto sentido, a senhora pelo menos deve ter perdido o faro. Desculpe, sem ofensa.”. “Não me diga mais nada, senhor Ferreira. É melhor parrarmos a conversa por aqui, que eu, quando falo disto, sinto que fico forra de mim e sou capaz de lhe dizer alguma coisa de que o senhor não goste.”.

O telefone tocou. O Ferreira atendeu. Mesmo a propósito, a aliviar a alta tensão que se sentia em volta. Para melhor ajudar a mudança de cena, acabava de chegar um montão de correio que era preciso tratar. Dona Clotilde não se permitia ter trabalho em atraso. Contendia-lhe com os nervos. Não era pessoa de reclamar, de reivindicar, como diziam agora os “comunas”. Dizia entre dentes a palavra espúria, não fosse algum deles (que os havia por todo o lado) ouvir e ripostar, como a Dona Elvira da outra vez, na sua linguagem desbragada, muito peculiar: “Isso de comuna por acaso é comigo? Pois, partindo do pressuposto, também lhe digo que antes comuna que cornuda como certas madamas que eu conheço, a armar ao fino.”

(continua)


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