Crónica de Alexandre Honrado – O que fazer na minha ilha

Leituras muito variadas – não necessariamente em livros, ou em artigos dos muitos jornalismos ou das emanações académicas -, leituras feitas olhos nos olhos, a maior parte das quais assentes na observação do que somos, do que estamos a deixar de ser e resultantes da mundividência (isto é, do modo de ver o mundo) e sobretudo da mundivivência (em neologismo, o modo de viver o mundo, palavra que nenhum dicionário aceita), levam-me a interrogar as ideias que construí da condição humana, do humanismo, da produção identitária e da evidente dispersão identitária que é o mundo de hoje. Levam-me a interrogar-me, processo cansativo mas de onde saio, comummente, refeito, retemperado, um pouco mais limpo. Levam-me ainda a meditar sobre frases como aquela de Herbert Marcuse: “o mundo não tem sido feito por amor dos seres humanos e não se tornou mais humano.”

É quase uma contradição, todavia, verificar que enquanto desenvolvemos técnicas e armadilhas singulares para acabarmos com o nosso planeta e uns com os outros, há quem invista quantias despudoradas de dinheiro para prolongar a vida e, quem sabe, para alcançar a imortalidade, sonho antigo sempre presente na cultura humana, das religiões e das suas vidas para além da morte, das suas ressurreições e estádios transcendentes, da Epopeia de Gilgamesh à prática da mumificação dos egípcios, do pensamento taoísta à alquimia esotérica, à criogenia, “técnica de conservar o corpo numa temperatura baixíssima para que, no futuro, quando a medicina tiver mais remédios eficazes contra as doenças que nos assolam hoje, esse indivíduo, morto outrora, seja religado e volte a viver”.

Reconheço os meus medos. E que somos povos assustados – um dia tememos o fim do mundo pela ameaça dos fundamentalismos religiosos e políticos, na semana seguinte pela morte ecológica, ontem apenas a propagação descontrolada da morte com o nome já assimilado de coronavírus, peste entre pestes contemporâneas que nos impõe um sobressalto novo.

Nunca percebemos bem qual é o tema que devemos temer, e acreditamos em tudo o que nos contam apenas para nos sentirmos um pouco mais acompanhados. Mas a solidão permanece. Somos local. Um local de solidão. Independentemente da multidão onde nos diluímos. Mas somos seres ultrapassados.

Alguém virá depois de nós e será provavelmente resultado das nanotecnologias, das biotecnologias, da informática, das ciências cognitivas, isto é, das ciências do cérebro e da inteligência artificial, e visitará museus para perceber quem era o ser do século XXI que se destruía, se odiava, que tentava discriminar-se – inventando racismos, xenofobias, distinções de géneros, preconceitos, anormalidades. Um ser doente, como se a epidemia o tivesse apanhado numa curva do tempo há muitos milénios. O ser do desamor e do inumano.   Não sei se o avanço dessas ciências e dessa inteligência ganhará a corrida contra o tempo. Ou se criará mais ruínas em cima das que criamos. Sei que as leituras variadas da vida tal como se me deparam vão-me trazendo mesmo assim um ou outro oásis. Mas por vezes não sei o que fazer na minha ilha.

 

Alexandre Honrado

 


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