Crónica de Alice Vieira | Que fazemos dos nossos velhos?

Crónica de Alice Vieira 

 

QUE FAZEMOS DOS NOSSOS VELHOS?
Alice Vieira

Participei na semana passada num congresso da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre envelhecimento. “Nascer para não Morrer” era o tema—e, para além da velhice, também se discutia a baixa natalidade do país. Cada vez há menos crianças, cada vez os velhos vivem mais, cada vez há mais tios do que sobrinhos, cada vez mais as mesas de Natal são preenchidas por pessoas mais velhas.

Mas se a baixa natalidade é um problema –onde estará a mão de obra nos próximos anos –também os velhos muitas vezes são um problema. Acabamos todos um dia—como se ouviu num documentário apresentado— a perguntar “onde é que os pomos?”

Fiquei a pensar nisso nestes últimos dias.

Será que comunicamos com os nossos velhos?

Que lhes telefonamos, que os visitamos?

E hoje em que já ninguém escreve cartas, a comunicação fica ainda mais difícil.

Jornalista desde os meus 18 anos, ainda sou de um tempo em que as pessoas escreviam muito para os jornais.

A protestar – muito

A pedir—quase sempre.

A aplaudir – pouco.

A agradecer – quase nunca.

Uma vez, em finais dos anos 60, poisava eu então num jornal, que já não existe, chamado “Diário Popular”, quando um velho leitor me telefona, dando conta de que uma (em tempos) grande actriz de teatro estava na miséria, absolutamente sozinha numa cama de hospital.

Chamava-se Lina Demoel – e, embora eu já não a tivesse visto representar, conhecia o nome, sabia de toda uma vida de glória nos palcos, e daquelas extravagâncias que as estrelas faziam, o monograma gravado a ouro na porta do carro que guiava, fotografias ao lado de grandes nomes do music-hall francês, etc …

Escrevi então meia dúzia de linhas no jornal e – confesso — nunca mais me lembrei do assunto.

E se hoje aqui o recordo não é apenas porque fiquei ,nestes últimos dias, a pensar no que fazemos dos nossos velhos – mas também porque, de repente, me cai no colo – no meio destas arrumações de papelada que nos deixam a casa cheia de pó e a pele das mãos encarquilhada – uma carta enviada em meu nome para o “Diário Popular”, datada de 6 de Dezembro de 1969.

Escrita naquele papel com linhas que dantes se comprava nas papelarias propositadamente para cartas, numa letra trémula de pessoa de muita idade.

Assinava-a Lina Demoel.

Pedia desculpa por não poder ir pessoalmente agradecer-me a notícia e por isso me mandava aquela carta, onde me dizia : “ o seu apelo foi ouvido por tantos, tantos amigos, admiradores anónimos, colegas, tenho 169 cartas de todo o Portugal, América e Brasil, e estou-lhe imensamente grata por me ter proporcionado verter lágrimas de alegria no meio de toda a minha solidão e da dor da doença”.

Sorri, com a leitura daquela carta com mais de 50 anos (e de que, evidentemente, já nem me lembrava), achei graça àquele pormenor rigoroso das “169 cartas”, nem mais uma nem menos uma, e pensei  que, se fosse agora, o mais certo era haver um chefe para me dizer “o jornal está cheio, não há cá tempo nem espaço para essas palermices, os leitores querem lá pensar em velhos”…

Guardei a carta, pensei em como hoje em dia as relações entre as pessoas estão tão diferentes e, vá-se lá saber por que estranhas coincidências, um dos telejornais dessa noite deu uma notícia absurdamente chocante: desde o princípio do ano dez pessoas tinham sido encontradas mortas em suas casas.

Em pouco mais de um mês, dez pessoas tinham morrido absolutamente sozinhas e sem ninguém dar por isso.

Dez pessoas que, pelos vistos, não faziam falta a ninguém.

Alguns vizinhos diziam que sim, que realmente há muito tempo não sabiam delas, outros nem isso – até que finalmente alguém se lembrou de avisar a polícia.

Que mundo é este em que nós vivemos, onde temos sempre tempo para as máquinas, e nunca para as pessoas que vivem ao nosso lado?

Como se as pessoas fossem objectos descartáveis, que se abandonam quando já não nos servem.

Há quanto tempo não visitamos velhos tios ou primos ou amigos?

Há quanto tempo não lhes telefonamos?

Com tanta campanha que se faz (e muito bem!) pedindo “não abandonem os animais!”, penso que talvez não fosse má ideia fazer também algumas pedindo “não abandonem os velhos!”

E acreditem, às vezes um simples telefonema, uma visita rápida, um toque de vizinho na porta podem fazer toda a diferença.

 


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