Crónica de Alexandre Honrado – Mas as crianças, senhor, porque lhes dais tantos gadgets?

Oferecemos horizontes infinitos aos nossos filhos – sem lhes mostrar a qualidade do terreno onde devem por os pés e a beleza intensa dos avós que deram a vida e a glória para que hoje pudéssemos olhar para os telemóveis em liberdade.

Olhar para quem me rodeia faz parte de uma militância cultural. Leva-se ideias para recolher outras, ausculta-se os pulmões da Nação e aprendemos o tamanho do que somos – quase sempre menor do que aquele que nos atribuímos.

O querido filósofo português José Gil  antecipou-se às razões maiores da nossa autenticidade quando, em setembro de 2014, traçava visões pessimistas do que éramos e seríamos, consagrando que a presença da Troika em Portugal aniquilou a capacidade de sonhar dos portugueses.

Hoje sabemos que a verdadeira Troika aniquiladora de sonhos era constituída por um primeiro-ministro, pelo seu vice e pelo seu (depois sua) responsável pelas Finanças. Roubar os velhos, obrigar os novos a sair do país e tratar os que ficaram como propriedade de interesses económicos estrangeiros e lixo não reciclável, não permite quimeras, ou sonhos destinados.

É certo que já Virgínia Wolf, no início do século XX, dizia que o «caráter humano mudou». Melhor, afirmava que «houve uma mudança em todas as relações humanas – entre patrões e criados, maridos e mulheres, pais e filhos. E quando se modificam as relações humanas, ocorre a mudança na religião, na conduta, na política e na literatura».

Tornando o raciocínio ameno, introduzindo-lhe acordes do José Mário Branco, diria eu, com Camões na letra que o mundo é composto de mudança. Troquemos-lhe as voltas, então. (O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria…).

Que já não se encontram crianças como as que eram – é verdade. Estão mais disponíveis para imediatismos, mundanidades, são mais rápidas em certas conjugações e muito lentas noutras. Veem o mundo por caixinhas. E já não são as dos ecrãs dos televisores e cada vez menos os dos computadores. Têm uma espécie de mundo na palma da mão e pensam em telemóveis como os seus ancestrais pensavam em deuses.

Já várias vezes ao estudarmos História, Cultura e atitudes sociais na História e na Cultura – ideias e comportamentos, sobretudo – verificamos como a sociedade rompe com o passado e abandona as estruturas sociais, políticas, económicas e religiosas tradicionais. A sociedade, porém, opera mudanças só de vez em quando. Precipita-se em transformações – mesmo quando, paradoxalmente, é resistente às mudanças.

Aquilo a que assistimos hoje – numa nova sociedade ocidental de extremos, extremismos e extremistas, de populismo e populistas, de nacionalismos assustadores porque não têm o ser humano como centro mas um desprezo absoluto pelo que é humano – é um triunfo não tanto da ignorância mas de aspetos fundamentais que ignoramos. A falar verdade, tornámo-nos uma sociedade acidental, que não antecipa os acidentes que, todavia, identifica e regista como diagnóstico  da sua condenação.

Desde finais do século XIX, inaugura-se uma nova fase de vida constituída pelo progresso económico e industrial, a revolução nas comunicações, o crescimento demográfico, a democratização do acesso aos vários níveis de ensino, a hegemonia dos valores burgueses, republicanos e liberais.

Novas ideias filosóficas e novas doutrinas políticas viriam a influenciar o pensamento ocidental e a ter repercussões ao longo de todo o século XX. Alteraram-se os estilos de vida com consequentes modificações nos hábitos e gostos culturais. A ciência desempenhou um papel fundamental nas melhorias das condições de vida das populações e revelou um interesse crescente nas questões sociais, que muitas vezes se cruzavam com a esfera do poder político. Há mais remédios para as doenças – mas também há doenças novas e pessoas sem remédio!

Esse desenvolvimento assustou-nos. Porque o que devia ser para todos ficou cada vez mais para alguns.

A utopia esperançosa da criação de um novo homem, libertando-o da sua animalidade e sublimando a condição humana – parece uma distopia diante de algumas criações que se nos deparam. Espero que as meninas e os meninos que sabem descarregar Apps dos seus telemóveis, não sejam daqui a uns anos, a multidão manipulada que os Trump tanto querem. É por isso que continuo na estrada, no esforço imenso de perceber o que se passa connosco.

NOTA: a primeira vez que usei uma versão parecida com este texto foi numa intervenção pública, em dezembro de 2016, pelo que não é, a falar verdade, completamente original. É, todavia, necessário, penso eu, que volte ao tema e às ideias que nele se propõem.

Alexandre Honrado

 


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