Folhetim por Licínia Quitério | “Dona Clotilde” – (3º. Episódio)

Licínia Quitério

Folhetim por Licínia Quitério 

“Dona Clotilde” – (3º. Episódio)

Choramingou, soltou ais do fundo da alma em rebuliço. Lamentava que a alegria não contagiasse o seu protector, mas não perdeu muito tempo com lamentos. Após os preparativos algo apressados, fez mesmo a cama, deitou-se nela e gostou.

Era finalmente uma senhora casada com um pedaço de homem que só de o olhar sentia os braços em pele de galinha. Para que a felicidade fosse completa, naquele lar apenas faltavam as risadas de crianças, no plural (que filhos, ter só um, é como não ter nenhum).

O destino, porém, pregou-lhes a partida. Apesar de todas as ardências partilhadas com as assiduidades convenientes, (mas sem deboches, que o Tavinho sabia respeitar o recato próprio duma esposa amantíssima) o tão desejado rebento tardava e os pais putativos desesperavam.

O destino, sempre o destino, colocou-lhes nos braços uma pobre criança, rejeitada pela mãe, uma perdida, indigna do sagrado nome. Piores que os animais, que esses lutam para não perderem as crias. A princípio, ainda hesitaram. Era uma responsabilidade. Levar para casa uma criança não é o mesmo que comprar um canário ou mesmo um cãozinho. É um ser humano que precisa de amor, de educação e de boa alimentação. Não era por isso uma decisão a ser tomada levianamente. Falaram muito sobre o assunto, quantas vezes bem agarradinhos um ao outro, sem saber se haviam de chorar ou de rir. Mas parece que Deus os chamava para uma missão, sem dúvida nenhuma, nobre. E o anjinho era lindo, uma menina de poucos meses que fazia dádádá brrr brrr quando lhe afloravam o narizito com o indicador. Como resistir? Não era carne da carne deles, mas tinham todo o amor deste mundo para lhe dar.

O processo de adopção ainda teve os seus quês. Valeu-lhes a simpatia do senhor doutor Justino que, a troco de algum dinheiro, bem entendido (nada se faz sem dinheiro), deu por eles todas as voltas necessárias, que foram muitas, e tratou da papelada que parecia não ter fim. O certo é que conseguiram ter, à face da lei, a filha que Deus não quisera chegasse por outros meios mais convencionais. Filha de Gustavo de Sousa Paiva e de Clotilde da Purificação Correia de Sousa Paiva, assim passou a fazer parte das suas vidas a Fatinha, afilhada de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Dona Clotilde sentia-se em estado de graça, abençoada pelo amor da Terra e dos Céus.

 

(continua)

 


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