Crónica de Jorge C Ferreira | Uma tarde na Casa dos Ventos

Crónica de Jorge C Ferreira

Uma tarde na Casa dos Ventos

Uma casa dos ventos numa tarde ventosa. Três pessoas que gostam de escrever, de ler e que amam os livros. Uma casa de cantos e recantos. Uma casa para sonhar e brincar às casas. Há vida, livros e um gato que se passeia por entre nós. Um gato chamado O’Neill, tinha de ser. Um gato com nome de Poeta. A poesia em cada parede. Esta casa nova de tão antiga.

O motivo foi ir buscar exemplares de um livro em que os três participámos. Uma “Colleita de poesia Galaico-Lusa 2019”, chamada “Poetas do Reencontro”. Uma irmandade que faz todo o sentido. Duas línguas que se cruzam, duas terras unidas por muitas alegrias e aflições. A dureza de partir, a triste emigração. Dois ditadores e a liberdade roubada. Os livros foram entregues. A conversa continuava a pedir conversa.

Houve troca e oferta de livros. Chegámos a escolher quartos para qualquer situação complicada, o mundo não está fácil. Lembrei-me das casas de Pablo Neruda. As portas que se abrem para espaços nunca esperados. O Serpentear por estreitos corredores até aparecer uma nova aventura. Um labirinto por onde Poemas e alguns estranhos personagens de livros nos perseguem. Uma corrida e as esculturas em arame da amiga comum Simone Grecco. Eu não tenho nenhuma! Que inveja. (Inveja boa.) Espero que isto chegue a S. Paulo.

As conversas que se entrançam. Falámos de livros, dos nossos e dos outros, de escritores, de Poemas e Poesia. Dos nossos heróis e das leituras nunca esquecidas. Tudo isto sentados numa mesa num recanto encantado entre um café e um belíssimo bolo caseiro. De repente a chuva caiu a sério. As ruas ficaram rios. O ambiente a ficar nostálgico. Vem-me à memória Virgínia Woolf. Uma eterna Paixão. Um ambiente que o tempo teceu. Guardei isto só para mim. A conversa continuou indiferente aos meus pensamentos. Falámos dos que também podiam ter passado connosco este pedaço de tarde inesquecível.

Os três temos livros recentes, os três somos leitores sôfregos e escrevemos:

Lília Tavares, poetisa com obra editada, criadora da página do Facebook “Quem Lê Sophia de Mello Breyner Andresen” e  dona da casa, escreveu “Bailarinas de corda”, um belíssimo livro de Poesia com belas ilustrações onde fala sobre as mulheres que marcaram a sua vida. Um livro com a chancela da “Poética” e que podem e devem comprar, vejam na: Poética, na Wook e na Bertrand, onde estará disponível on-line. Parabéns Lília.

Não se esqueçam que Lília vai estar em Braga, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, sábado dia 1/02 às 18:00. Pessoal do Norte, vamos lá.

Eu, conhecido por Jorge C Ferreira, escrevi: “A Volta À Vida À Volta do Mundo”. Um livro que não quis catalogar e também editado pela “Poética”. Um livro escrito em 2016 durante uma volta ao mundo de barco. Também ele à venda nos mesmos sítios que o da Lília.

Afonso Valente Batista, o terceiro Tertuliano, é um escritor de romances com uma obra já com um lastro importante e obras reconhecidas. Afonso acaba de lançar como costumamos dizer, um livro do caraças. O título é brilhante, “O Fadário das Mulheres Insolentes”. Afonso aborda o tema da violência doméstica de uma forma sui-generis. Vai à raiz das coisas. É por vezes violento nas imagens e cru na linguagem. Afinal, nada é mais violento, que a própria violência doméstica que nos é dada a conhecer no dia a dia. Um livro editado pela Parsifal. Comprem na livraria mais próxima.

Não se esqueçam que o livro do Afonso vai ser apresentado na Casa do Alentejo no dia 1 de Fevereiro às 16:00. Não faltem!

«Que bonita deve ter sido essa conversa. Tu vinhas contente.»

Fala de Isaurinda.

«Sim, foi um bocado de tarde bem passado. Muito agradável.»

Resposta minha.

«Que bom, gosto de te ver assim. Escreveste bonito.»

De novo Isaurinda e vai, a mão fechada e o polegar virado para o ar.

Jorge C Ferreira Janeiro/2020(236)

 


Poder ler (aqui) as outras crónicas de Jorge C Ferreira.


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21 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Uma tarde na Casa dos Ventos”

  1. António Feliciano de Oliveira Pereira

    Deve ser um gozo o encontro de pessoas com afinidades comuns, neste caso escritores; uma tertúlia em troca de ideias ou ideais que mais tarde serão realidades nas páginas.
    Hoje sou muito vago no que deveria escrever; falta-me a luz do gasómetro no túnel da mina!
    Um abraço, Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. Falamos de muito coisa. Claro que os livros aparecem sempre. Eles gritam por nós. Ler até na mina. Um grande Abraço.

  2. Cecília Vicente

    Há um reino que fica ali bem perto do mar,tem um farol a indicar o caminho de lá para cá como um naufrago que quer chegar a terra e encontrar onde pousar das intempéries. O reino fica numa rua estreita,até tem uma sineta de marinheiro,não é barco,nem prédio alto,tem um portão sem guarda,tem dentro mil e uma coisas que fazem lembrar uma casa castelo,dentro os corações batem e convidam a entrar,um reino onde reina uma feiticeira que escreve livros,quase sempre deixa-se ir pelos ventos e águas perfumadas com aromas de emoções. Meu amigo,e já agora minha amiga também,que bom saber desse encontro nesse reino onde o aconchego tem nome: Amizade! Desta vez,deixo um super abraço ao meu amigo escrevinhador,e à minha amiga feiticeira que agora virou bailarina…

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília, Conheces bem os caminhos da calma e da ternura. Quanta alegria nas conversas. Tudo de peito aberto, sem esconder nada. A fala dos livros também. Uma tarde muito bela. Abraço.

  3. Eulália Pereira Coutinho

    Só pode ter sido uma bonita conversa. A Isaurinda tem razão.
    Quando se encontram três pessoas que escrevem tão bem, será uma tarde inesquecível.
    Conheço Lília Tavares, pela página do Facebook. É extraordinária. O livro de poesia, será uma das minhas prioridades.
    Obrigada por me ter dado a conhecer também a obra de Afonso Valente Batista, que tenho seguido e que muito admiro.
    Obrigada pelo privilégio de seguir os seus textos e crónicas e acompanhar a magnífica viagem à volta do mundo..
    Um abraço amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Que bom ter-lhe dado a conhecer alguma escrita. Acho que vai gostar muito. Grato por me gostar de ler. Foi imensa a partilha. Abraço.

  4. Regina Conde

    O título do texto indica algo de apetecível. Li como um conto. Os três amigos têm em comum uma das mais belas artes. Palavras escritas com o cheiro que só os livros possuem. A magnifica referência a Virgínia Woof. Das mais bonitas crónicas que publicaste neste Jornal. Abraço meu amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Que bonitas as tuas palavras. Sabe sempre bem a quem escreve escutá-las. Abraço, ninha Amiga.

  5. Teles Ivone Teles

    Ainda estou atordoada de tanta felicidade. Meu querido Jorge, Amigo/irmão de tanta cumplicidade, eu estou como a Isaurinda a olhar o teu belo e feliz rosto. Que posso eu dizer que já não esteja dito ? Como foi prazeroso esse encontro de amigos na ” Casa dos Ventos “. Ventos que são brisas envolvem-vos e hão de te embriagar de tanta ternura que tens pelos outros. Conheço o Afonso pessoalmente e dos seus livros falta-me, só, este último que está encomendado. A Lília admiro-a como poetisa e como Mulher que se afirma. Virgínia Woolf será, sempre, uma sua referência. E tu, meu querido, sabes a força que tens na minha vida. Há abraços que selam as maiores amizades, aquelas que também estão nas brisas que nos envolvem. Gosto muito desta tua crónica que transpira serenidade. Três amigos que se encontram para viverem momentos que nunca mais se perderão Dá à Lília e Afonso um beijo meu. À Isaurinda roubo o pano de sempre, onde há agora, poemas escondidos. Beijinhos ternos da tua Amiga/ Irmã.Ivone.

    1. Um beijinho, querida amiga Ivone.
      Tão bonito, o que escreveu.
      Beijos.
      Lília

    2. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Tu sabes quando os abraços são sinceros. Eu tenho saudades de Coimbra. As tuas palavras são, sempre uma luz imensa. Não sei como te agradecer. Tu mereces tanto! Abraço, minha Amiga/Irmã.

  6. Sofia Barros

    Que boa tarde, esta!
    Estar assim, entre amigos, num local tão acolhedor como os recantos da Lília Tavares que conheço do Facebook, na companhia do O’Neill e de bebidas quentinhas, é quanto precisam para dar combustão à escrita.
    Que todos continuem a produzir beleza e as rosas de Santa Teresinha (que a minha tia adorava!) floresçam também.
    Um abraço.

    1. Um beijo, Sofia Barros!
      Boa noite!
      Lília

    2. Jorge C Ferreira

      Obrigado Sofia. Sim, foi uma tarde com muito calor humano e conversa bonita. A escrita também nasce destas coisas, tens razão. As rosas são o remate do belo. Abraço.

  7. Cristina Ferreira

    Tão bonito o que escreveste. A Isaurinda viu a tua felicidade. E eu imagino a tua expressão doce e feliz. Estar com quem gostas, a falar do que tanto gostas. Livros, poesia, amigos. De repente caminha-se pelos corredores das casas de outros queridos poetas. A nostalgia a tomar conta do ambiente . Sim, só podia, faz parte. Até o calor de um café e um bolo caseiro, faziam parte deste belíssimo cenário. Até um gato com nome de poeta. Tinha de ser. Que bela tarde esta na casa dos ventos.
    Eu, enquanto vossa leitora, conheço a página de Lília Tavares praticamente há tanto tempo quanto tenho facebook. Confesso, que foi ela uma das inspirações a que permanecesse naquela plataforma. Fui ao emocionante lançamento deste livro “bailarinas de corda”. Muito interessante. Já o li.
    Depois apaixonei-me pelos teus textos e crónicas e tornei-me presença diária. E o tão aguardado livro, finalmente chegou. Concedeste-nos o privilégio de continuar “a viajar” contigo. E através de ti, fiquei a conhecer a obra de Afonso Batista. E a admira-la cada vez mais. Dia para dia. E que privilégio.
    Hoje, o meu comentário alongou-se. Desculpa.
    Dou-vos aos três os meus sinceros Parabéns
    Abraço

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. É tão saber que nos vais seguido. É o teu modo de nos exigir sempre mais e nós a isso nos sentimos obrigados. És uma excelente leitora. Obrigado por tudo. Abraço.,

  8. Amigo Jorge, faltam-me as palavras, e olha que não gosto que elas me faltem, para te agradecer o carinho contido nesta crónica.
    Sinto-me feliz por poder ter vivido com o Afonso e contigo aquela tarde que pedia um café bem acompanhado e aconchegado por boa conversa.
    Nem a chuva nem a companhia do gato O’neill nos faltaram.
    Pelos vistos, Isaurinda achou-te com bom semblante quando chegaste a casa. 🙂
    Esta casa vive, escuta e guarda todos os instantes. Como eu. Linda, a tua menção a Virginia Woolf. Connosco comentaste a semelhança à casa de Neruda, o nosso poeta.
    Nunca mais vou esquecer estes momentos mágicos.
    As ‘mulheres insolentes’ do Afonso já me enchem a cabeça de ambientes e lugares. A tua ”volta ao mundo’ fez entrar ainda mais ventos e personagens no meu imaginário.
    Bom, uma destas tardes havemos de voltar a tomar café na mesa onde tudo se fala e se constrói. As roseiras de Santa Teresinha estarão ainda mais floridas, o O’neill vai-se cansar de perguntar por vocês e, quem sabe, haverá outros livros no forno, noutro, pois do que tenho só saem bolos que se comem à fatia.
    Beijos. Para ti e para o Afonso.

    Lília

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Lília. Não fosses tu e o teu generoso convite para nos abrires a porta desse casa mágica e esta crónica não teria tido lugar. Foste inexcedível. Pensaste em tudo para nos sentirmos bem. Surgiu algo de mágico. Os livros, sempre os livros. Um gato Poeta. Grato por tudo. Grande Abraço.

  9. Afonso Valente Batista

    Foi uma tarde magnífica onde a amizade floresceu no afago da simpatia e da cumplicidade. Obrigado Lília. Obrigado Jorge.

    1. Um abraço, amigo Afonso, já com saudades.

      Lília

    2. Jorge C Ferreira

      Foi, Afonso. Contigo e com a Lília assim será sempre. A brincadeira sempre presente no meio de uma conversa mais afinada. A tua Amizade é uma coisa boa que me aconteceu. Abraço.

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