Crónica de Alice Vieira | Quando o Amândio bateu no Simão

Crónica de Alice Vieira 

 

QUANDO O AMÂNDIO BATEU NO SIMÃO
Alice Vieira

 

Ainda mal eu tinha fechado a porta e já a ouvia, agarrada ao volante e a olhar para o espelho retrovisor, “vamos para onde? explique-me lá isso direitinho que hoje a minha cabeça não anda boa e baralho as ruas todas, e então com esta barafunda de trânsito…Olhe para aquele javardo a ultrapassar pela esquerda…Jasus….”

Se fosse eu que tivesse apanhado o táxi, se calhar arranjava uma desculpa, saía e apanhava outro—mas tinha sido um táxi enviado pela televisão para me levar para casa.

Digo-lhe que corte logo à direita, ela lá segue mas já vai embalada, palavra sim palavra não a olhar para o espelho retrovisor e a abanar a cabeça, “eu ainda nem estou em mim, palavra de honra, imagine, o Amândio bateu no Simão, tá a ver ? no Simão…Então não era caso para  despedimento imediato? Pois não… Lá anda … Bater no Simão, tá a ver? … Se inda fosse noutro… Claro que era mau na mesma, mas no Simão… Era logo porta fora, limpinho… E olhe que o partiu ao meio em três partes, zás, tá a ver? E continua aqui… Eu já disse, se o gajo se sentar aqui ao meu lado no táxi, é ele a entrar e eu a bater com a porta.  Javardos ao meu lado é que não.  Não sirvo para esses ajuntamentos. Nem lá em minha casa, quanto mais no emprego… Ainda ontem pus a minha irmã na rua…E voltava a pôr… Atão, ligou-me a dizer que ia lá almoçar. Tudo bem, era domingo, que fosse. E não é que me chega lá a casa com mais umas primas que….”

Trava a fundo, por pouco não nos espetávamos no carro da frente,

“Ó seu javardo…Trava-se assim e não se diz nada?… Faróis ? Mas cais faróis? Só se for no cimo da sua cabeça… É o que eu digo…A minha cabeça hoje não anda boa…É o Amândio a bater no Simão, é a minha irmã a chegar lá casa com mais 5 primas… Como é que uma pessoa há-de dar conta do recado? E eu olho para aquela gente toda e não digo nada, elas vão entrando, beijocando, atão prima Odete estás boa?, e eu  nem ai nem ui, à espera do que a minha irmã ia dizer, e ela nada, até que a levo para a cozinha e disparo, atão a comida, trouxeste? E ela a fazer-se de parva, que de certeza que eu tinha comida no frigorífico, e na despensa e que se podia ali arranjar qualquer coisa, e eu já a ver no que aquilo ia dar. Olhe, deu que toda a gente se alambazou com o que eu tinha lá em casa e sairam sem pagar um tuste. Foi então, já elas iam rua abaixo, que eu peguei no braço da minha irmã, e a pus na rua. Atão, mas eu ando a trabalhar para estas javardas que não fazem nada? “

Estamos quase a chegar e ela não para de falar e de insultar “estes javardos que são um perigo nas nossas estradas, ”e de olhar para o espelho retrovisor , até que ,de repente , explode, “ó D. Alice, eu bem sabia que conhecia essa cara de qualquer sítio…Na televisão deram-me um nome do passageiro que vinha buscar mas sabe como é, com estas coisas todas a minha cabeça não anda boa, estou sempre a ver o Amândio a bater no Simão…Desculpe lá…Mas a senhora também ia aí atrás tão caladinha… “

Chegamos, já vou a fechar a porta do táxi quando ela escreve qualquer coisa  num cartão e me chama : “ó D. Alice, fique aí com o meu telemóvel…Eu sei que de vez em quando faz umas tertúlias e uns jantares… olhe, chame-me , que eu vou lá e animo toda a gente, porque o que eu gosto é de falar.”

Entrega-me o cartão, já vai pôr o carro a trabalhar e ainda deita a cabeça fora da janela e diz “mas olhe que eu faço questão de pagar a minha parte… Não sou lá como aquelas javardas que não pagaram nem um tostão e ainda …”

Penso que deve ter continuado na mesma conversa das javardas, e do Amândio que bateu no Simão—que será de certeza a música de fundo do próximo cliente que apanhar o seu táxi.

 


Poder ler (aqui) as outras crónicas de Alice Vieira.


 

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