Crónica de Alexandre Honrado – O meu conto de Ano Novo

Há uma estranha acalmia, agora.

O vento é como as velhas bisbilhoteiras, que sem andarem por aí não sabem o que contar. Também há velhos bisbilhoteiros, bem sei. Não seria correto olvidá-los. São diferentes. Sentam-se à porta de casa ou em velhos cafés que são tabernas promovidas e contam o que veem com olhos de reinventar.

Às vezes vão a um ou outro velório e sentam-se também, os velhos. E contam histórias antigas como se fossem o que de mais recente os rejuvenescesse.

Dizia haver uma regra para esses velhos, um prémio, a medalhinha, uma comenda.

Os velhos, velhas e velhos, que andam pelo mundo a bisbilhotar, traem os sofás e aquelas emissões de televisão que fazem dos jovens seres muito velhos e dos velhos, alguns ainda pouco velhos, pobres fungos alienados.

Há uma estranha acalmia. Digo-o com provas, acabo de passar por campos que dormitam e acabo a contemplar o mar, muito cansado, a sossegar-se. Há dias era muito brava a borrasca, queria beber-nos inteiros e afogar-nos a todos. Agora lavou-se céu e terra, não há deuses desorientados nem seres humanos a bramir. Longos caudais vão-se dessecando. Barragens apertam-se para ganhar espaço. As vinhas agradecem os pés ainda molhados e o resto da água ora se escoa ora se evapora, talvez volte a chover mas mais tarde e já com sensatez. Os desvalidos, os desalojados, os políticos, ainda se acusam. É que a mãe natureza não obedeceu ao Homem, ser castigador, condutor dos povos. A mãe natureza não entende a sua língua e sabe no seu íntimo de fogo e terra, de água e ar, de espíritos mágicos e olhos de visões de longo alcance, que nenhum Homem a conhece a ponto de ser capaz de a conquistar.

Há uma estranha acalmia, agora. Pássaros trocam recados e esclarecem: que erro é desejar um mundo melhor. Não há. Vivemos no melhor dos mundos. Pena não haver melhores utentes para o melhor dos mundos. Uma brisa quase quente brinca com cristas de onda e areia que se move docemente. Correm dois cães pela praia e uma criança, indiferente aos adultos, constrói uma espécie de poema que cheira a algas e a dias novos.

Oiço os últimos dias do ano a afastarem-se, cabisbaixos. Oiço os passos de um novo ano que se aproxima.

Há uma estranha acalmia, agora, em mim. E não estou habituado. É só nesses instantes que recordo. E ao recordar reprimo lágrimas. E nas lágrimas revejo-me como se os meus espelhos de sal e água fossem o que eu sempre fui.

 

Alexandre Honrado


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