Folhetim por Licínia Quitério | Casa de Hóspedes (25º. Episódio)

Licínia Quitério

Folhetim por Licínia Quitério 

Casa de Hóspedes (25º. Episódio)

A campainha da porta tocou uma vez, duas vezes. Dona Júlia acordou, levantou-se, em susto, olhou o relógio na mesinha, viu seis horas, corredor fora, quem será, quem será a umas horas destas, espreitou pelo ralo da porta, um polícia, credo, boa não é, abriu, reparou que estava em camisa de noite, que importância tem isso para um polícia a estas horas, devo ser parva, faça favor de dizer, é aqui que mora o guarda fulano, não senhor, aqui não mora guarda nenhum, então é engano, desculpe, de nada, que raio de engano que me acordou tão cedo, e vai com pressa o sujeito, parece que tem asas nas botas, aqui há coisa. A Lucrécia também acordou, viu-lhe luz acesa no quarto pela bandeira da porta, o que foi Dona Júlia, era um polícia enganado na morada à procura de outro polícia, durma mais um bocadinho que ainda é muito cedo, mas Lucrécia, como era seu hábito ao acordar, ligou o pequeno rádio de pilhas. Música, só música, pareciam marchas militares, rodou o botão, não estivesse mal sintonizado o posto, podia não ser o Rádio Clube Português, mas era, a música continuava, esperou que o locutor falasse, mas a música parava para logo recomeçar, algo anormal está a acontecer, pensou, e de súbito uma voz na rádio “Atenção elementos das forças militarizadas e policiais. Uma vez que as Forças Armadas decidiram tomar a seu cargo a presente situação será considerado delito grave qualquer oposição das forças militarizadas e policiais às unidades militares que cercam a cidade de Lisboa. … Os comandos das forças militarizadas e policiais serão severamente responsabilizados caso incitem os seus subordinados à luta armada.”. Saltou da cama, não podia acreditar no que estava a ouvir, estonteada, de um lado para o outro, à procura da roupa, dos sapatos, o que é que estava a acontecer, seria o que estava a pensar, não, e se fosse o contrário, o coração como um doido, abriu a porta do quarto, fechou-a, tornou a abri-la, a voz continuava “Aqui Posto de Comando das Forças Armadas. Informa-se a população de que, no sentido de evitar todo e qualquer incidente, ainda que involuntário, deverá recolher às suas casas, mantendo absoluta calma.”.

Pouco passava das sete e meia, o dia amanhecia cinzento, de morrinha. Ao contrário do habitual, na rua era quase nulo o trânsito de carros e de pessoas. Em casa ficaram só as duas mulheres mais velhas, ansiosas, confundidas, ai Dona Júlia que é uma revolução, eu não saio, não, eles falam que pode haver sangue, valha-me Deus, talvez não, senhora, vamos esperar, e aquela rapariga e aqueles rapazes foram para a rua, gente sem juízo, e o Sr. Mário também não deve ter muito juízo porque saiu, e estou para saber porque é que levou as duas malas que trouxe quando chegou, nem para mim olhou, não disse água vai e foi-se embora a fugir, fugir de quê, Dona Júlia, sabe-me dizer, penso que sei, mas não lhe digo que posso estar a levantar um falso testemunho, diz-me o coração, D. Adélia, que o dia de hoje ainda vai ser muito falado, e a televisão que só tem a mira e música, e a gente sem saber o que é que se passa, vamos mas é ouvindo o rádio, eu tenho ali mais pilhas.

(termina no próximo número)

 


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