Opinião Política | Leila Alexandre (PS) – Dores de crescimento… e como em Mafra se está a ceder à outra direita

Dores de crescimento
… e como em Mafra se está a ceder à outra direita

 

Mafra tem décadas de poder à direita. Do mal o menos, falamos de uma direita central.
Não podemos ignorar as mudanças a que assistimos e com as quais vivemos no concelho. A população aumentou, estamos “mais perto” da capital, temos mais infraestruturas e equipamentos, fruto deste crescimento demográfico e usufruímos da medida dos passes sociais, o que ainda nos aproxima mais, não em termos de distância, mas por redução de custos, das áreas mais urbanas do distrito de Lisboa.

Com a crise da habitação e um spillover effect que a fez alastrar-se para fora do centro histórico da capital e depois para fora da capital em si, os preços para compra ou arrendamento de casas condignas disparou nos concelhos limítrofes a Lisboa, fazendo com que em muitos casos os custos fossem incomportáveis para as famílias e para afixação de novos agregados nesses territórios. Quem sai das cidades da Área Metropolitana de Lisboa, procura alternativa em concelhos um pouco mais distantes da capital, como Mafra, Arruda dos Vinhos, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras… Mafra, beneficiando do passe social; com acessos privilegiados (embora dispendiosos) pela A8 e A21; uma rede de transporte público rodoviário insuficiente de forma global mas que basta às horas de maior procura da maioria dos estudantes e trabalhadores que fazem movimentos pendulares Mafra-Lisboa; um mercado imobiliário que encareceu muito mas que ainda não está ao nível de outros concelhos onde hoje é quase impossível viver; com o encanto natural que o concelho tem; ainda com emprego na área do turismo (sazonal), comércio, serviços e trabalho não-qualificado ou de baixas qualificações; pese embora o IMI seja assustador, que fora do eixo urbano as estradas tenham tantos buracos quanto tabuletas e marcações e pondo de lado todas as vicissitudes – o concelho é atrativo. E depois de aqui chegar, dificilmente se quer sair.

Esta tendência de crescimento populacional, que não vinga só pela natalidade, mas muito por força destas novas famílias que aqui se fixam, traz consigo outras tendências, nomeadamente aquilo que tem sido verificado nos últimos anos eleitorais: uma deslocação do voto do bloco central para fora, nos partidos mais à esquerda e mais à direita (exceção seja feita ao demérito do CDS). Foi esta tendência (e mais uns quantos fatores) que levou o mal-amado mas esperto como um rato André Ventura ao Parlamento. O que importa perceber é que no ponto de partida do surgimento desta tendência, que não é só nacional, está um problema de mentalidades e infelizmente tenho tido a perceção muito óbvia de que este problema de mentalidades tem lugar cativo em Mafra. Comentários racistas, xenófobos, depreciativos, matarruanos, terriolas, atitudes de desprezo, de subordinação ou altivez, comportamentos que envergonham qualquer pessoa com dois dedos de testa e com sentido de ser gente. Eu assisti. Várias vezes nos últimos tempos. Outros têm assistido e comentado. Os bons, lamentam. Esta falta de caráter a que assisto eu e tantos outros perante a entrada de certas novas famílias, “daquela gente”, no concelho, tem de ser travada. JÁ.

Cabe a cada um de nós, no exercício da cidadania e de viver em sociedade, promover a boa convivência, a aceitação, a integração – acima de tudo, a inclusão. Cabe também às instituições: escolas, poder local, tecido empresarial, levar a cabo iniciativas e perpetuar valores que permitam a real abertura do concelho a todos, mesmo todos. Que em Mafra sejamos todos iguais, bem-vindos e nunca ostracizados.

 


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