Crónica de Psicologia de Filipa Marques | Creche – o novo local de trabalho?

“Em Portugal, o número médio de horas semanais, que as crianças com menos de 3 anos e com 3 anos ou mais passam em educação e cuidados para a primeira infância e educação pré-escolar é dos mais elevados de entre os países da União Europeia”

Estado da Educação 2018 (Conselho Nacional de Educação)

Queridos leitores,

Estes são os dados polémicos que o documento Estado da Educação 2018 nos trouxe sobre o número de horas que as nossas crianças passam em estruturas de cuidados de educação e/ou com cuidadores de apoio à infância. Concretamente, em Portugal as crianças com menos de 3 anos passam cerca de 39,1 horas semanais (a média dos países da EU é 27,4 horas) em creches ou amas. Isto significa que passam nestes locais aproximadamente 7,8 horas por dia. Já as crianças com 3 ou mais anos passam cerca de 38,5 horas semanais (a média dos países da EU é 29,5 horas) em cuidados de educação pré-escolar. Isto é, 7,7 horas por dia. É tempo de parar para refletir.

Em primeiro lugar a política e a cultura portuguesas não estão ainda voltadas para a família como uma prioridade, talvez pela falta de consciencialização do papel da família no desenvolvimento da pessoa humana em todas as suas vertentes, principalmente no desenvolvimento de uma vida psicológica saudável. É por isso que hoje vos quero falar da importância da família no desenvolvimento das crianças nos primeiros anos de vida.

A família, em específico o pai e a mãe (ou outros cuidadores de referência), têm um papel essencial no desenvolvimento físico, emocional, social e cognitivo da criança que se encontra na primeira infância. É através da imitação da família que a criança aprende a falar e a andar, dois dos marcos mais importantes no desenvolvimento humano. A nível emocional, é à família que a criança vai buscar o afeto e a confiança necessários para ter estabilidade emocional e crescer estruturada. O facto de ser emocionalmente estável permite-lhe explorar aos poucos o mundo que a rodeia e interagir com ele, voltando para os cuidadores de referência sempre que se sente ameaçada ou em perigo para encontrar aí segurança e conforto. A relação que a criança estabelece com os cuidadores é também essencial para o processo de construção da identidade pessoal ou seja, da personalidade. No campo social, é através da socialização familiar que a criança aprende a relacionar-se com os outros de forma adequada, treinando os comportamentos a ter quando interage com as outras pessoas. Já a nível cognitivo, a riqueza de conhecimentos e de atividades que a família proporciona à criança podem influenciar as capacidades que ela tem para aprender ou para resolver problemas, por exemplo.

Sendo tão importante a relação com os cuidadores nos primeiros anos de vida, devíamos olhar para o tempo que as nossas crianças passam fora de casa com outros olhos. Sem alarmismo, devíamos ser os primeiros a lutar para passar mais tempo com os nossos filhos e tempo de qualidade. Para isso é necessário mudar rotinas, mentalidades, políticas… bem sabemos que é muito complexo. Mas tenho a esperança de que a nossa reflexão abra caminhos e contribua para que um dia haja uma sociedade portuguesa mais favorável à conciliação do equilíbrio entre a vida profissional e familiar.

 


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Filipa Marques Psicologia


 

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