Folhetim por Licínia Quitério | Casa de Hóspedes (24º. Episódio)

Folhetim por Licínia Quitério 

Casa de Hóspedes (24º. Episódio)

No outro dia, Dona Júlia encontrou Lucrécia na rua e, sorrateira, olá, Menina, bons olhos a vejam, sentimos a sua falta ontem ao jantar, ah comi qualquer coisa em frente ao Coliseu, em pé, ao balcão, que não podia perder tempo, tinha de conseguir um lugar, posso saber o que houve lá por esses lados, pode, claro, como é que hei-de explicar, houve o maior e mais emocionante espectáculo musical que eu vi até hoje, Dona Júlia, cantores, poetas, músicos, sim, portugueses, fantásticos, o Zeca Afonso, o Adriano, o Vitorino, o Ary, o Júlio Pereira, tantos e tão bons, muita gente é pouco, Dona Júlia, o Coliseu a transbordar, muita gente de pé, apinhada, os polícias de choque e dos outros também eram muitos, as paredes das escadas estavam forradas deles, qual medo, éramos muitos, era uma força tão grande, vejo que foi de arromba, mas polícia porquê, porque as canções, senhora, falam de coisas que eles não gostam, de liberdade, do fim da guerra colonial, está a ver, bem tentaram calar-nos. No que esta Menina anda metida, em confusões, e sem necessidade nenhuma. À saída foi lindo, uma multidão rua abaixo a cantar as canções da festa, e a polícia atrás, à frente, aos lados, que horror, não, acho que não prenderam ninguém, um dia quem vai ter medo são eles, um dia havemos de cantar estas canções e a polícia já lá não estará para nos calar, Menina Lucrécia, por amor de Deus fale baixo, no meu entender a Menina anda mas é metida em política e isso não é bom, é mais perigoso que um incêndio, veja bem o que é que arranja, descanse, Dona Júlia, lá em casa não se fala disto, fica só entre nós, confio na Senhora. Mesmo ali, no meio do passeio, cantou baixinho ao ouvido da Dona Júlia, atónita, eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada, quem, quem, os vampiros, minha querida senhora, os vampiros. Deu uma gargalhada e uma das suas reviravoltas, o cabelo longo a voltear também, o que é o jantar, até mais logo, e já não ouviu Dona Júlia a dizer, peixe frito, e depois para com os seus botões, ela parece tão feliz, Deus a proteja, Deus nos proteja no que tiver de acontecer.

(continua)

 


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