Crónica de Jorge C Ferreira | Medos

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Crónica de Jorge C Ferreira | Medos

 

Medos

Suspiros. Ais. Desgostos imensos. Sonoros choros. Tudo antes que a vida se despeça de alguém. Malfeitorias danadas. Dizem que são artes de mulheres muito antigas feitas com rezas, benzeduras e outros artefactos que nem ouso referir. Mulheres vestidas de roupas largas e escuras. Mulheres capazes de abraçar pias baptismais e tentar envenenar toda a água benta. Tudo isto me era contado num telhado em noite de lua cheia.

Eram estórias inventadas por mentes criativas e dadas ao gozo de criar alarme nos espíritos mais fracos. O cenário era fantástico. As águas-furtadas. As telhas, um estrado de madeira. Um céu estrelado e a lua enorme que um dia iria ser conquistada. Uma lua grande e soberana. Uma lua onde todas as sombras eram interpretadas. Iniciáticas noites.

Eu, que era pequeno, mais pequeno ficava. Encolhia e quase tremia com tanta sabedoria inventada. Desfilavam à minha frente outros desvarios. Uma dose excessiva de criatividade nascia na sola dos meus pés que não paravam de tremer.

Não sei se dormi nessa noite. O medo deve-me ter invadido. Era muito crente. Acreditava em muita coisa. A minha Mãe tinha-me posto uma moldura com o meu anjo da guarda no quarto. Nem assim me sentia seguro. Escondia-me sob os cobertores e procurava esconder-me para nenhum mal me encontrar. Noites de difícil adormecer. Nem as orações nocturnas, que rezava com a minha Mãe, me sossegavam.

Medos das coisas não explicáveis. Medo de viagens sem regresso. Medo do estado febril. Um candeeiro sempre aceso para afugentar os maus espíritos. O anjo da guarda em posição de defesa. Eu escondido no fundo de tudo.

Havia, num determinado andar do prédio, sessões espíritas. Diziam. Nunca soube quem incorporava quem. Nunca assisti. Sei, isso sim, que era mais uma coisa que me metia confusão. Quando se iriam embora os espíritos? E se eles decidissem visitar-nos? Tudo era muito estranho e muito secreto. Tudo isto me assustava. Como iria ser capaz de lutar contra estes estranhos fenómenos? O medo! O medo!

O quarto parecia encolher. A cama a ficar pequena, eu sem espaço para me esconder. Apetecia-me gritar, mas a voz não me saía da garganta. Parecia que alguém me apertava o pescoço.

Não tinha amuletos para combater estas coisas. Sabia que tudo não passava de pesadelos. Que tudo era fantasia. Sabia, mas não processava. O sono não chegava. Estava gente dos dois lados do meu quarto. Isso não me sossegava. Tinha medo dos seres capazes de atravessar paredes. De líquidos impregnados de venenos que me pudessem inundar a vida. E eu sem antídotos para tais malfeitorias.

O medo sem razão é terrível. Rápido se transforma em pânico. Em ataques que nos levam a mimetizar coisas incríveis. Falar dos nossos medos. Aprender a ultrapassá-los antes que o ataque seja fatal. Saber distribuir a dor e as expectativas. Andar sempre com os pés no chão. Saber rir de nós.

«Olha que tu! A tua Mãe dizia que quando eras miúdo eras medroso. Mas escreveres isto!»

Voz de Isaurinda.

«É uma espécie de exorcismo. Estou a tentar varrer todos os medos antigos.»

Respondo.

«Tu não estás bom de todo. Não estás não!»

De novo Isaurinda e vai, a mão a fazer estranhos gestos.

Jorge C Ferreira Outubro/2019(223)

 


Poder ler (aqui) as outras crónicas de Jorge C Ferreira.


 

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24 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Medos”

  1. Manuela moniz

    Texto tão acertivo, Jorge, que coube em mim que nem uma luva. Muitos foram os medos que senti na minha infância, iguaizinhos aos teus. Ao acordar deles, assustada e de coração aos pulos, metia-me na cama dos meus pais. Perdi-os, bastante mais tarde, quando me apaixonei de verdade. Uma paixão improvável naquele tempo. Desafiei tudo e todos, senti-me como uma guerreira vencedora. Só o amor me deu a força para me libertar de tantos medos, de tantas regras que me impunham.
    Passados tantos anos, como mãe e avó, voltei a sentir outro medo, medo por eles. Outros pesadelos me assaltam, de vez em quando, quando os dias são pouco luminosos.
    Muito obrigada, querido amigo, por me fazeres lembrar do medo que eu tinha dos meus medos perdidos, e dos que adquiri. Por vezes somos tomados por eles sem nossa permissão.
    Beijo

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Manuela. Que belo e corajoso comentário. Os nossos eternos medos. Vencê-los uma aventura. Abraço.

  2. Cecília Vicente

    Tantos medos,um conjunto de medos e receios que levei anos a guardá-los em caixas imaginárias.Depois,outros medos apareceram, já crescida,quando mulher,e por último,medo de não conseguir levar o papel principal até ao fim,deixando não medo mas algo que possa magoar a quem mais amo…O papel principal que nos é predestinado tem uma carga emocional tão grande…que o meu medo é o fechar do pano (…) Abraço meu querido amigo

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Os medos, as tábuas da vida e o tal papel principal. Papel nosso, pai dos nossos medos. Lutar. Abraço.

  3. António Feliciano Pereira

    Marcas que nos acompanham durante anos e só nos deixam quando nos sentimos vacinados.
    O medo foi embora por que amadurecemos; o saber estar na vida é uma nova condição, somos nós que comandamos.
    Um abraço, Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. O caminho. O corpo marcado. Alguns medos afastados. O medo essencial que nos persegue. Abraço

  4. maria fernanda morais aires gonçalves

    Só nós nos lembramos desses tempos. Ainda não havia televisão e nem sequer o Tide tinha chegado à rádio. Sentavam-se as tias que vinham lá de trás-os-montes e nas noites de inverno, enquanto faziam meias com cinco agulhas iam contando histórias dos pastores que tinham visto um lobisomem a rondar o curral das ovelhas quando desciam da serra. ou as luzes misteriosas que iluminavam o cemitério da aldeia durante a noite. Os tios confirmavam e contavam as aventuras do contrabando de café e co mo ficavam enregelados de frio e fugindo aos lobos que uivavam , imitando os uivos que levávamos para a cama. Histórias para não adormecer criancinhas que éramos nós. Sim, também sou desse tempo. Mas o medo e a imaginação estão em mim, fazem parte de mim, quando é preciso pego num pau e enfrento-os. Abraço para ti.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda. Linda a tua estória. O medo que se abria vindo das montanhas. Somos filhos do medo e assim alimentamos a nossa imaginação. Abraço

  5. maria rosa matos

    Tão bem descritos os medos sentidos na infância, meu Amigo.
    Eu bem me lembro dos meus . Eram tantos .
    Que medo!!!

    Um abraço, Jorge

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Rosa. Os nossos medos originais. O pecado que não tínhamos. A nossa vida. Abraço

  6. Eulália Pereira Coutinho

    O medo sem razão. Haverá sempre uma razão desconhecida. As memórias cada vez mais reais, transportam-nos às histórias contadas pelas avós. Também eu ouvia histórias de bruxas e bruxaria que me aterrorizavam e me tiravam o sono. Hoje, quando penso nisso, sorrio, mas fica sempre o medo do desconhecido.
    Grande mensagem esta! Obrigada amigo , por partilhar medos com que me identifico. Medos sem razão!
    Um grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. O conceito do medo. O medo construído. O medo inacto. Somos a história do medo. Abraço.

  7. Ana Nogueira

    O medo do que não é explicado…..Amei!!! A minha querida Isaurinda….. Parabéns Mestre!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ana. O medo não se explica. Vive connosco. Abrasivo. Abraço

  8. Cristina Ferreira

    Tanto medos, querido Jorge. Engraçado que não me surpreende. Já te vou conhecendo pelos teus escritos. A super proteção dos mais velhos e tua extrema sensibilidade, ajudaram a criar medos. Uns mais recorrentes, outros nem tanto. Deixaste-me a pensar na minha infância e apesar de igualmente mimada por todos os mais velhos da família, ao contrário de ti, não recordo de nenhum medo “A rapariga não tem medo de nada”, diziam todos à minha volta. Ao contrário de hoje, quando vejo ou imagino os meus filhos a pensar sequer na possibilidade em viver determinadas aventuras que eu vivi e outras. O medo de todas as mães. Recordo agora de um medo que me assaltava com alguma frequência. sempre que via ou ouvia ambulâncias em urgência, ficava numa agonia – “será um dos meus?”. Recordo ser este o pensamentos que mais me aterrorizava.
    Estou-me a alongar com as minhas histórias e a fugir ao tema principal e de enorme importância – O medo sem razão. Um tema muito sério. Ter quem nos ouça, quem nos compreenda sem criticar , ou fazer qualquer juízo de valor. Que nos aceite com todos os nossos medos , as nossas fragilidades, as nossas espectativas e angustias. Saber distribuir a dor antes que o ataque seja fatal. Tão importante esta tua mensagem. Uma crónica estranha? – Talvez… mas tão necessária. Bem hajas

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Estranha é a vida. A vida por vezes “madrasta”. Que bom no teu comentário expores a tua experiência. A Coragem é tão necessária. Grato. Abraço.

  9. Regina Conde

    Quando leio um texto que considero e me identifico sinto que vesti palavra a palavra, neste caso medo a medo, desde a infância até agora. A coragem de fazermos a catarse. Querido Amigo, mais uma vez obrigada por estares aí. Obrigada belo belíssimo texto. Abraço Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. A catarse tão necessária, mas que não apaga tudo. Os medos vão mudando de cara e vão aparecendo com novas roupagens. Abraços

  10. Branca Maria Ruas

    Fizeste-me recordar medos de quando era criança.
    Lembro-me do medo que o meu pai chegasse a casa sem cabeça depois de ter ligado, do Hospital, dizendo que tinha tido um acidente de carro.
    Na época havia uma séria na TV do “homem invisível” em que ele tinha a cabeça coberta de ligaduras e, quando as tirava, desaparecia.
    Como o meu pai disse para não nos assustarmos quando ele chegasse, pois vinha com ligaduras na cabeça, eu só imaginei que nunca mais lhe podia dar beijinhos na cara e ajoelhei-me a chorar e a pedir a Deus que lhe devolvesse a cabeça. E perguntava, em pânico, à minha mãe: “Como é que eu sei que é o pai se não lhe posso ver a cara?”
    A partir dessa altura recordo-me do medo que passei a sentir cada vez que se atrasava. Corria de uma varanda à outra da casa para ver se o via chegar. E só descansava quando o ouvia subir as escadas.
    As coisas que me fizeste lembrar…
    Obrigada pela crónica.
    Por vezes é bom voltarmos à inocência.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. Que história fabulosa. Assim vamos partilhando aqui os nossos eternos medos. Tão bom o que escreveste. Abraço

  11. Madalena

    Que medo… Fantástico! Foram tempos de crenças que assustavam as crianças e de lendas encantadoras. Valeu, Jorge, gostei muito! Um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Manuela. Será que todos os medos acabaram? Acho que se vão transfotrmando. Abraço.

  12. Teles Ivone Teles

    Meu querido Jorge, meu Amigo/ Irmão, um medo esta tua crónica sobre o medo. A sensação deste estado de espírito é paralisante. A maior parte das vezes esses medos infantis são induzidos pelo desconhecido. E é natural, porque contra o que se desconhece, convêm ter uma atitude de expectativa. Acrescentarei que eu também tinha medo das estórias que ouvia e não conseguia explicar.Às vezes os mais pequenos ruídos, uma janela que se abria e batia, um estalar das madeiras. É curioso que, desde pequena nunca ter sentido medo de que me aparecessem os que já tinham morrido. Esses não fariam mal, mas sim os vivos que fossem más pessoas. Tinha muito medo que a minha mãe morresse, ou o meu pai, ou as irmãs e outros familiares e amigos. Com a idade mantemos alguns medos e, como dizes à Isaurinda, exorcisamos outros. Tu és uma pessoa linda a quem nem vivos nem mortos fariam mal. Gostei desta crónica. Fez-me reflectir sobre o medo, os medos de todos nós. Beijo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Que bem descreves tudo. Interessante não teres medo dos mortos. Somos, também, os medos que vamos mudando. Belo o teu comentário. Abraço.

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