Crónica de Alexandre Honrado – O animal que mais falhou

Crónica de Alexandre Honrado – O animal que mais falhou

 

Um animal que falhou enquanto animal. Eis uma nova definição do ser humano.

Estonteado pelas formas autofágicas de cultura, essa outra forma específica que relevou da sua capacidade de contrariar a natureza e distanciar-se dela, como se fosse dono do planeta, é agora um ser perturbado, procurando acumular valores enquanto perde os valores que o podiam resgatar. Um animal – pela definição, um ser organizado, dotado de movimento e de sensibilidade – que perdeu ou adulterou os seus atributos: tornou-se desorganizado, ziguezagueou falseando os seus movimentos, e esgotou o melhor da sua sensibilidade.

Obviamente, este não é um atributo dos últimos anos. Foram séculos a temperar o caldo essencial do ódio onde todos os condimentos do mal ganharam espessura e dimensão, umas vezes em forma de racismo, outras em forma de perseguição, outras de genocídio consciente, outras de anulação da individualidade e prisão dos mais habilitados para a transformação e para o progredir.

Todas as formas criminosas são iguais. Umas vezes chamam-se inquisição, outras colonialismo, escravatura, sinfilia, nazismo, fascismo, franquismo, salazarismo, estalinismo, maoismo, chavismo, bolsonarismo, trumpismo, em resumo: idiotismo crónico de alguns, muito poucos, mesmo celebrados por muitos em alguns dos momentos da sua “grandeza”, mas  sempre a quererem ser mais do que os outros, com o poder na ponta das espingardas e, regra geral, um encéfalo muito deficiente que a história acaba sempre por revelar, infelizmente tarde de mais.

Talvez tenha razão o povo sul-americano Shuar, quando reduzia a cabeça dos seus inimigos, coisa que fez até à década de 1960 do século passado, pois acreditavam na vida depois da morte e que um inimigo morto permanecia vivo dentro da sua cabeça.

Uma das faces prismáticas desta evolução, uma que conduz paradoxalmente ao declínio, é a fórmula do cinismo. Os mais fracos creditam líderes aparentemente fortes, ou de discursos fortes que apontam soluções radicais para a condução do destino coletivo. Promovem o pior de si: um cinismo fratricida que agita bandeiras de iniciativas liberais, aterrorizados com os outros – “dando à polícia e às forças armadas todos os recursos materiais e humanos para que possam cuidar dessas fronteiras com total eficácia junto com o indispensável amparo legal.”

É um velho disco riscado que por vezes encanta os mais desesperados. Forja-se no culto à tradição, produtor dos pensadores tradicionalistas. Afirma-se na rejeição ao modernismo (visto como toda a depravação moderna).

O populismo, pai genético do fascismo, que é o irracionalismo consagrado, aparece como um primeiro patamar e o que se lhe segue é ruinoso, da xenofobia sobre o meio ambiente e sobre “o outro” à veiculação da apatia, com a cultura dita de massas e os meios de comunicação a sugerirem a fórmula patética do conformismo e da submissão. Para modificar a miséria da cultura moderna, deste pântano nosso contemporâneo onde nos debatemos, seria necessário um grande movimento popular e, como é sabido, estamos sedentarizados, sentados, guardamos o movimento para a bicicleta e para o tapete do ginásio, que mata calorias mas não dá vida ao cérebro que parou lá atrás a buzinar no trânsito cujo ritmo nos impede de chegar ao ponto que ignoramos como destino. Não sabemos qual é o lugar do ser humano no Universo e essa preocupação, tão motivadora de algumas épocas no passado, deixou de ter para nós o menor interesse.

Não é o nosso lugar no Universo que buscamos, mas no parque automóvel e à mesa do restaurante, na fila do supermercado e da administração do banco.

A nossa pegada ecológica, sendo vergonhosa, não nos envergonha. Embrulhamos em plástico ideias de celofane, e não distinguimos qual das duas películas é mais eficaz ao sufocar-nos.

Somos traidores de nós. Traímos até o legado da filosofia ocidental de cunho racionalista e progressista, que foi uma herança que nos engrandeceu. Ficamos a um canto a dizer mal da autarquia, e não fazemos a menor ideia de que somos nós o território.

 

Alexandre Honrado

 

 


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