Crónica de Jorge C Ferreira | Cansaços e Beldades

Crónica de Jorge C Ferreira | Cansaços e Beldades

 

Cansaços e Beldades 

Correm leves as mulheres para o fim do mundo das águas por descobrir. Tempos repetidos em histórias nunca filmadas. Só quem viu aqueles corpos nus, esbeltos, o pode contar. Os homens sentados e entregues ao seu pasmo, não acreditavam no que viam. Que liberdade tão bela. Que corpos tão ansiosos. O amor por acontecer.

Ele deita-se no divã e deixa-se ir. Fala sem parar. Apenas algumas pequenas interrupções da mulher que o ouve. Diz o que queria e o que nunca disse. Um desabafo que lhe liberta os pensamentos. Tem, por vezes, visões. Aparecem coisas ainda por acontecer. O que mais o preocupa. Alguma intempérie na mente. A busca da salvação.

O campo é agreste. Os seios erectos. A corrida olímpica. A água sem aparecer. As gotas de suor são grossas e embelezam, ainda mais, os corpos que parecem modelados por mãos divinas. A terra é quente. Os pés velozes. Os animais espreitam e ficam inertes. Há um fogo naqueles corpos que inebria qualquer ser vivo. Continuam a correr.

A confissão continua. Não é católica. Não terá penitências para cumprir. Só espera ajuda. Fala sem parar. Um livro por escrever. As memórias mais recentes. Tem de as contar antes que as esqueça. Conta dos comprimidos SOS. Conta do efeito e de algum prazer. Conta o que lhe falta e lhe faz crescer a ansiedade. Conta tudo e vai mais atrás. Cada vez mais. Uma autobiografia escrita da frente para trás. Bebe um gole de água. Descansa um pouco, limpa a boca com o lenço de linho.

As mulheres não param. Têm a pele pintada de terra quase vermelha. Buscam a água do fim do mundo. Procuram a outra parte delas. Os seus homens esperam sentados à porta das palhotas. Irão caçar e levar os filhos para uma iniciática aventura. Será mais tarde. Quando o sentido da vida se apaziguar. Há rios rasgados pelo suor na terra que pinta os corpos das mulheres. Os mamilos enormes. As pernas elegantes. A corrida de uma beleza que apetece e não cansa. Há quem as chame de gazelas. Nada a ver. Tudo o que nos é dado assistir é de uma beleza difícil de narrar. A água, a água!

Ele está cansado. A mente a estalar. O coração a palpitar. Ela toma notas, memoriza o fácies, os gestos, os maneirismos. Todo este conjunto de coisas emite sinais que abalam o interior dele. Diz que quase sempre viveu com medos. Desde muito pequeno. Os seus olhos suplicam ajuda. Como se houvesse poções mágicas, varinhas de condão.

As mulheres chegam à água. Entram água adentro. Banham-se. Todos os animais continuam especados perante todos estes acontecimentos. Nem a água apaga o fogo que os seus corpos soltam. Tudo é uma explosão de belo. Uma tela acabada de pintar por um pintor que não é deste mundo. A água vai chegar à aldeia.

Ele já não tem forças para mais palavras. Ela é agora a dona das últimas sentenças. Ele só ouve. Está cansado, mas mais liberto. Marcam o próximo encontro.

«Como misturas duas coisas que cansam. Olha que nunca pensei!»

A voz de Isaurinda.

«Sim, duas coisas que parecem diversas e têm tanta coisa similar.»

Respondo.

«Pois, cansaços! Tanto cansaço!»

De novo Isaurinda e vai, a mão a fingir que limpa o suor da testa.

Jorge C Ferreira Outubro/2019(221)

 


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14 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Cansaços e Beldades”

  1. António Feliciano Pereira

    Essa tágide do encanto, do sublime prazer de pintar um quadro com leveza de espírito.
    É pouco vulgar reproduzir tão belas imagens; um sentimento indelével e perene!
    Um abraço, Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. A vida que passa à nossa frente. Aprender a ver e a escutar. Escrever. Abraço

  2. Fernanda Luís

    A forma como escreve e descreve é de uma riqueza literária extraordinária. Ao nível dos Grandes…
    Adoro, não só de agora, como “olha” e retrata a mulher, bem como a liberdade.
    Mulher e liberdade são temáticas persistentes na sua escrita/obra, que muito me apraz! Bem haja Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda. A mulher é de um riqueza extraordinária. Penso que os homens sempre em busca do útero materno. Sem liberdade não há viver. Abraço

  3. Madalena

    Sempre muito belo o que escreve, meu amigo! As mulheres são musas e o resto é cansaço, só aliviado pelo contemplar da beleza dessas mulheres. A narrativa reportou-me para África, a pátria da terra vermelha, onde os homens esperam sentados pela água que às mulheres compete trazer. Eles trazem a caça. Tudo acaba por funcionar na perfeição. Ao fim de cada dia um pintor divino oferece-nos um cenário deslumbrante ao pôr do sol!
    Obrigado, querido amigo por esta beleza de texto. Um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Tudo isso e mais a mulher que ajuda o homem a discernir. Passagens da vida. Abraço

  4. maria rosa matos

    Elevada e solene a sua sensibilidade, Jorge.

    Um bem haja com um enorme abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Rosa. É tão bom saborear as suas palavras. Abraço

  5. Cecília Vicente

    A mente perturbada,a confusão,entre o belo e o cansaço.O melhor das escritas,a perturbação visualizada pela beleza,o cansaço é o primeiro capitulo.Gostei muito!
    Aquele abraço meu amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Tão inteligente o que escreves. Grato. Abraço

  6. Ivone Teles

    Falar de si, falar de outras pessoas e coisas. Sensações, sonhos, realidades. Para trás quer deixar muito do que o atormenta. Situações diversas e o medo. O querer entender do que lhe aparece no tempo, agora, real. Procura contar tudo o que é passado e recente. O fascínio de mulheres belas e livres. Tudo o que, de natural, se torna inebriante. Livres como os animais, mulheres e homens reflectem, na vida , uma selva de desejos sem pecado. Fala para alguém como se esse alguém fosse o livro que escreve em cada palavra. Desatam-se as ideias. Algum dos comprimidos SOS ajudam a uma confissão sem penitências. Voltará. A Isaurinda, como sempre, dá a sua opinião, estranhando o cansaço. Sim, um enorme cansaço que, mesmo assim, traz um alívio doce. Gostei muito. Beijinhos.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Os teus comentários é que embelezam os meus textos. A tua subtileza e conhecimento. As tuas belas palavras. Abraço

  7. Cristina Ferreira

    O Belo é Divino, como Divina a tua sensibilidade à essência feminina. Ver para além do óbvio . A beleza poética como descreves a mulher. A forma como ligas este ser à criação, à origem, à vida. E o pós vida. Sim, Isaurinda, sublime a forma como o mestre mistura duas coisas que cansam. Entre “cansaços e beldades”, é das mais belas odes à mulher que eu já li. Abraço

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Sempre tão generosa. A mulher é um ser único. A Mátria a nossa terra. Abraço

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