Crónica de Alexandre Honrado – Chega… para lá e leva o outro

Crónica de Alexandre Honrado – Chega… para lá e leva o outro

 

CHEGA… PARA LÁ E LEVA O OUTRO

 

 

Berrar, a plenos pulmões, Fascismo nunca mais! Com a tristeza de constatar que falhou o eco da velha frase O Fascismo não Passará! Falhou porque as palavras, que podem por vezes ser demolidoras, são ao mesmo tempo pequenas entidades frágeis e carentes. Falhou porque somos acomodados. Ora damos aos filhos o jogo eletrónico ora lhes negamos os livros, porque são “uma seca” e a criança precisa muito é de tornar-se um informático na ótica do utilizador, ou mais um habitante indolente dos seus hálitos dolentes, para ambicionar a entrada nos mercados (paraíso de onde não se sai vivo, mas que se brande com intensidade, a cenoura que nos mantém a caminhar).

A melhor das utopias é a que ambiciona ajudar a criar o ser livre de amanhã. Não optámos por isso, porque normalmente hesitamos quando a opção pelo melhor está ao nosso alcance.

Somos mais de 50 por cento, os que nem às urnas vão, mais de cinquenta por cento dos que desdenham de si mesmos e que partiram os espelhos – sete anos de azar, pelo menos – para impedir que a visão de si mostre a desilusão de todos. É por isso que o fascismo chega ao nosso Parlamento. Não vem com pés de lã, nem com pele de comentador da bola com pele de cordeiro, mas com nuances atualizadas de salazarismo antigo e à beira do Museu, com os habituais tiques da falta de virilidade, sem, todavia, lá ficar, no museu-hospício de onde saiu, para expor a sua imbecil crueldade histórica. Vem à tona e assume-se. Com iniciativas liberais e ares de messiânica solução na mão estendida – Heil eu! Heil eu! Heil eu!

A nossa preguiça está já a pagar uma fatura alta. O nosso laxismo, a nossa passagem pelo sofá a ver a novela, a bola, os casamentos às cegas, os globos de lata, paga a conta alta de termos perdido o melhor da História. Pensar é para existir. E a existência custa muito. Permitimos a corrupção, não temos jeito para policiar porque isso é uma repressão. E nos intervalos pedimos mais repressão para policiar a repressão que nos afeta. Não queremos deveres, só os direitos. Desdenhamos o Serviço Nacional de Saúde, a menos que nos dê votos. Desdenhamos o que é saudável, porque a doença é sempre a dos outros, nunca a nossa.

Confundimos tudo e vamos na direção que afinal já conhecemos: tragam-nos um sistema duro, que nos atire para a prisão e para a vala comum, que imponha mais censura, que a que temos é débil e só se preocupa com as mamas à mostra postadas na rede social.

O sistema, que é alucinante, até vai pagar ordenado e regalias aos deputados fascistas para nos insultarem e porem em causa o que ainda sobra da Democracia, pela qual muitos lutaram e morreram, opondo-se aos avós destes que agora chegam para reclamar um passado fétido e de uma crueldade nojenta e imperdoável. Pelo menos, há um lado positivo nisto: as velhas ratazanas macilentas e propagadoras da peste saíram dos buracos.

É triste perceber que se oferecem manuais escolares que depois se esquecem em casa à hora certa da aula. É triste ver um partido a tirar partido da morte de um dos seus fundadores que renegou, como é triste ver um velho político a arrastar-se pela humilhação de ser ignorado, como é triste ver os que não fazem a mínima ideia do que se passa à sua volta, embora tenham à sua espera todas as consequências da sua letargia.

Prefiro uma deputada gaga e bem preparada a um deputado fascista e de discurso populista e engalanado, já perceberam isso, creio. Prefiro uma maioria não absoluta a uma minoria silenciosa, é evidente.

Parece um trocadilho infeliz, mas a verdade é que os mortos vão às urnas. Só que desta feita para votarem. E a Democracia fecha os olhos e dá-lhes boleia e privilégios.

A extrema-direita usa sempre o apelo à frustração social. E temos razões para andar frustrados. Só que a extrema-direita é como o cão desesperado, morde a mão que o alimenta. Em contrapartida, o cão é por natureza um animal nobre, e isso distingue-o daqueles humanos inumanos, que apedrejam o seu semelhante (e que o matam, humilham, desacreditam) com a cobardia dos seus preconceitos e limitações, com a sua ridicularia de fantoche de praia munido de um cacete que alguns, menos avisados, lhe passaram para as mãos sujas.

 

Alexandre Honrado

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