Crónica de Alexandre Honrado – Não me peçam silêncio

Crónica de Alexandre Honrado – Não me peçam silêncio

 

Nunca consegui escrever, ler, ou estudar, sem ruído de fundo. Preciso de janelas abertas, trânsito que chia, gente que se quer viva.

Acuso-me. Não será um cérebro decente este que se exibe aos sons e se alimenta deles como um pardal faminto nas últimas pedras da calçada.

Ligo “aparelhagens”. Oiço muito jazz. Tempero-me com emissões radiofónicas, onde as francesas acabam sempre por intrometer-se –, as francesas são uma tentação, pelo menos em formato radiofónico.

Nesta fase a coisa piora, pois há debates e, portanto, acrescento-me com o ruído intenso da televisão. Evito espetáculos onde as apresentadoras aparecem com capacetes radioativos e vestidos que parecem micro-ondas sem revestimento.

Vou comendo do que posso, como o mesmo pardal faminto que desiludido com a cidade tenta as pedras mais salgadas da beira-mar. É assim que tropeço em cronistas bêbados e comentadores impreparados.

Verifico a resposta óbvia de que há mesmo partidos pequenos, pequenos, mesmo que fiquem em segundo lugar nas sondagens nacionais.

Arrepelo-me com o despudor de uns e as ingenuidades dos outros. Alguns perderam o seu tempo e encabeçam agora uma terceira idade política que os retira do centro de dia para a campanha e os devolve ao lar, findo tão grave esforço. Tenho pena de que alguns pequenos partidos não sejam um pouquinho maiores, mas as soluções não se medem aos palmos. Canso-me com os tradicionais, os grandes, por serem tradicionalistas.

Sei que, afinal, somos nós, a minoria, os que votam, que vamos decidir a bem ou a mal o futuro dos desinteressados, que acabam por ser os melhores instrumentos para os nossos desígnios. A democracia tropeçou e resta-nos esta consolação de mandar nos outros.

No intervalo ainda leio. E descubro uma das mais arrepiantes passagens de texto de que a memória me reclama. É de Hans-Magnus Enszenberger. É um poeta (e ensaísta, tradutor, escritor e editor alemão) que fará 90 anos a 11 de novembro próximo. A breve passagem de texto é de um ensaio – dou comigo a ler cada vez mais ensaios, como se me procurasse entre beirais, o tal pardal faminto e irresolvido…

Diz assim:

“A nossa época é uma implacável fábrica de perdedores radicais: de um lado, estão os órfãos das antigas comunidades que davam figura ao coletivo, heróis do vazio sem vínculos e sem amarras; do outro, os filhos do desespero, cuja liberdade, desejo e consciência estão enclausurados em palavras de ordem, comunidades funestas que assomam em identificações mortíferas.”

Fico arrepiado, mas é capaz de ser o temporal nos Açores ou, apenas, porque algum momento de silêncio me empurrou para a melancolia.

 

Alexandre Honrado

 


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