Crónica de Alexandre Honrado – Em busca de Competência

Crónica de Alexandre Honrado – Em busca de Competência

 

A incompetência de Boris Johnson, Donald Trump, Jair Bolsonaro e, óbvia incompetência dos candidatos às eleições portuguesas, numa luta corpo a corpo a que, com graça, rádios e televisões chamam debates.

Desfila a incompetência diante dos nossos olhos, deixa-nos atónitos, a uns, indiferentes a quase todos.

O mundo está nas mãos de muito poucos. Sabemo-lo e encolhemos os ombros. É assim mesmo, deixámos que a coisa chegasse longe de mais.

Ando pelas prateleiras cá de casa, tão poucas para o que deviam abrigar, procuro nos baús, revisto tudo pela memória. A ideia é encontrar um livrinho que li no início dos anos de 1990, referente a dois acontecimentos de 1983. Um desses acontecimentos, ocorreu em Altenberg, onde estive há pouco tempo, daí a recordação da leitura, nos arredores de Viena. Tratou-se do encontro entre dois sábios, Karl Popper e Konrad Lorenz. O segundo acontecimento foi o Simpósio que em maio de 1983 fez acorrer muita gente interessada a Viena, para a evocação, durante três dias, do 80º aniversário de Sir Karl Popper.

O livrinho de que falo – livrinho, mas faço notar que os livros não medem aos palmos – tem o título surpreendente: O Futuro Está Aberto.

Logo à partida, interrogamos: mas aberto a quê? A mais futuro? A sobressaltos que o presente expõe dos erros enormes do passado? Aberto a uma solução que não nos traga mais progresso, mas a salvação do progresso atingido?

Popper era considerado como o intérprete do melhor dos mundos até hoje existentes. Na realidade talvez tivesse razão, porque apesar de todos os desaires que conhecemos há que mostrar como nenhum tempo antes do nosso atingiu tanta percentagem de moderação, tanta solução para doenças tidas como incuráveis, tanta regulação económica capaz de alimentar milhões sem a generalização da fome, tanto acesso à educação e à cultura, tanta perceção dos erros capaz de nos apontar onde estão os problemas que merecem a nossa prioridade.

O futuro aberto às exigências do clima, aos combates à poluição, à edificação de projetos de paz, à tolerância intercultural, ao respeito pelo ar, pela água, pela fauna e pela flora, pelo próximo.

O nosso universo – de futuro aberto – de refutação de erros (e não de proclamação de verdades derrotadas).

Encontro o livrinho e preparo-me para relê-lo com a mesma avidez com que o li há mais de 30 anos. O tempo passou por mim e pelo objeto cuja capa esmaeceu, apertando as escassas cem páginas de sabedoria numa síntese que me falta.

Leio: “não é verdade que nós sejamos ‘moldados’ pelo meio ambiente. Somos nós que procuramos o meio ambiente, e somos nós que ativamente o moldamos. Tentamos permanentemente mudar e modificar o nosso meio circundante, o próximo e mais afastado, e por último o mundo inteiro. Deste modo, a nossa vontade desempenha um papel essencial em toda a história (…) Somos pesquisadores e a vida é, desde o início, cética – em grego pesquisante. Nunca está inteiramente satisfeita com as condições de que dispõe. E é temerária nas suas aventuras.”

Leio, em busca de competência.

O Universo não é digerido, é fabricado.

As coisas que aprendemos!

 

Alexandre Honrado

 


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