Crónica de Alexandre Honrado – Falemos de sexo (ou a geringonça nunca existiu)

Crónica de Alexandre Honrado – Falemos de sexo (ou a geringonça nunca existiu)

 

Há palavras que dão prazer, embora algumas sejam surpreendentes de tão originais. E olhem que eu sou dos que fica surpreendido e não surpreso, por mera convicção resistente à moda de cá e com o devido respeito aos verbos permissivos.

Podia listar uma centena de palavras assim, prazerosas, uma centena pelo menos.

Ocorre-me porém um grupo singelo, uma troika. A saber: clitóris – não terá discussão, embora creia que a alguns sugira buscas minuciosas e nem todas no Google -; ou alvoriado, que na terra de alguns dos meus ancestrais significa, com galhardia e graça, uma designação para quem anda com a cabeça no ar por causa do sexo oposto; ou ainda geringonça, uma palavrinha que o Paulinho das feiras lançou ao ar na frase proferida em 2015: “isto não é um governo mas uma geringonça”-  e que António Costa, o gestor de recursos, consagrou meses depois, quando disse: “é uma geringonça mas funciona”.

A prova de que funciona é que o Paulinho lambe as feridas, faz negócios graças à conjuntura que se lhe tornou favorável e nos intervalos inventa comentários, que são literalmente mais geringonças, verborreia ou acrobacias opinativas e lá do fundo do seu covil puxa os cordéis da Assunção que procura a assunção, quero dizer, o  assumir que não tem um terrível legado histórico sobre os ombros e lá vai recitando passagens de um guião pouco consistente. O melhor do seu partido, nos tempos mais recentes, foi o de ter tido a assunção (o ter assumido), de sair do armário (pelo menos num ou noutro exemplo e militante. É a geringonça interna e nada tenho a ver com isso). Ainda no âmbito sexual, o debate da líder com o senhor que encabeça os “laranjas” foi pura sedução, de erotismo moderado, mas romanticamente explícita.

Diziam as minhas tias, isto é só lambaré, o que lá na sua queriam dizer que é só paleio ou, em suma, é a gente a falar.

A verdade é que a geringonça nunca existiu. Na prática deu-se um ato de salvação nacional. Um travão inteligente à grande ficção que a direita tinha criado para o País de modo a levar os dividendos aos seus mais diletos promotores (dos bancos aos banqueiros, dos fora da lei de colarinho branco aos fora da lei de colarinhos sujos). Um oportunismo concertado com grandes interesses internacionais, que relançaram economias privadas à custa de países de economia débil. É triste atribuir a bancarrota só a uns quando os outros nos legaram despesismo, má gestão, bancos furados, apoios comunitários gastos em euforias e ações que valorizaram só para alguns. É triste passar uma borracha sobre os interesses internacionais da crise, fingindo que a mesma era apenas causa interna, de um povo que “vivia acima das suas possibilidades”.

A esquerda, cheia de complexos e esqueletos nos armários, pôs na ordem uma direita de vivos mortos e de múmias? O cenário é quase fílmico. Desculpe-se-me o devaneio, mas a direita portuguesa estava (está?) muito próxima dos textos de Stephen King (até vimos na nossa política interna o palhaço Pennywise, em formato poderoso, a aterrorizar o mundo e a atormentar o Clube dos Predadores, umas vezes pela mão da Troyka e das ameaças: ou comes sobras ou chamo o papão).

E agora? Venha o diabo e escolha? Obviamente. O diabo somos nós, os que ainda votam e decidem pelos outros. Sem necessidade de grandes sondagens, os que ainda votam são maioritariamente de esquerda e muito leva a crer que a esquerda sairá reforçada das próximas eleições. Basta ver os líderes provisórios e incríveis que a direita atirou para o açougue desta jornada eleitoral.

Os órgãos de comunicação social andam a querer que pensemos o contrário, mas são de direita na sua maioria editorial, e não servem para nada, basta analisar as tiragens e a modelagem que conseguem sobre a opinião pública. A única coisa credível nos nossos jornais é a data, se não estiver gralhada. As revistas são para os tempos livres. As tevês para ver a bola, os concursos, um ou outro filmezito.

Concluo. A geringonça nunca existiu porque a direita é infundibuliforme (maravilhosa palavra portuguesa que significa afunilada, ou do feitio de um funil, neste caso dirigido ao próprio bolso). A esquerda que é burra e pouco ágil, cheia de gravações antigas do tempo das cassetes, e com telhados de vidro muito quebrados, tem, todavia, preocupações sociais que a direita desconhece. Deve ser esse o segredo da vitória que se avizinha.

Também é sabido que a culpa é sempre do mesmo e que nisto do sexo as posições variam.

No dicionário diz-se que, como sinónimo de geringonça, podemos usar ainda as palavras: coisa, troço, baiuca, futrica, bagaço, calão, gíria, jargão, joça, insignificância, ninharia, pinoia, trapalhada, engenhoca, gronga. Mas isso não interessa, porque a dita nunca existiu, como é por demais sabido. Duvidam?

 

Alexandre Honrado

 


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