Crónica de Jorge C Ferreira | O ódio, a inveja

O ódio, a inveja

 

O Ódio. Essa nódoa imensa que, por vezes, atinge as pessoas. O ódio que faz mal a quem o anda a ruminar. O ódio que desgasta mais quem odeia do que quem é odiado. O ódio, a doença que necessita de tratamento. Tratamento urgente. Tratamento que necessita de continuidade em virtude das recidivas.

Muito ódio é sublimado a partir da inveja. Nesta terra de invejosos a coisa abunda. A inveja que deprime. Rasga o corpo por dentro. Uma infinita danação. Ter inveja do reconhecimento feito ao outro é uma marca do processo português de estar. Não gostar de ver o outro vencer, mesmo sendo à sua custa, é desporto nacional. Falar mal. Contar dos amiguismos muitas vezes inventados.

Tudo isto tem uma razão. A chusma dos grupos de amigos que mandam e desmandam. A falta da cultura de mérito. Os saltitões, os que rastejam, os invertebrados. Sim, não se esqueçam que isto foi, durante demasiadas décadas, um país de delação alimentado por uns desgraçados bufos e uma polícia de horrores.

Mas o ódio só faz mal a quem o alimenta. Acreditem! É como um bicho que se mete dentro do corpo e nos vai destruindo. Vamos ficando nada. Os olhos encovados. Uma autêntica ausência. Uma não existência. Os zeros todos à esquerda. O ódio pode levar ao fim de quem odeia.

A inveja é um mal, mais suave, mas também satânico. Acho que quem inveja acaba por ter o mesmo sentimento sobre si mesmo. Não acreditam? Olhem que isto não anda muito longe da realidade. Há uma transformação no invejoso que acaba por arrasar o seu próprio ego. Pior que tudo isto é a pessoa ser levada a odiar-se a si própria. Terrível.

Todos estes perversos sentimentos têm por base uma deficiente cidadania. O olhar mais para os outros do que para si. O desentendimento do mundo. Um não se enxergar. Temos invejosos profissionais. As cloacas do mal dizer. Estamos bastas vezes, sem saber, com horríveis companhias. Porque há gente que sabe dissimular. Que se sabe insinuar. Pessoal do faz de conta.

Um dia escrevi isto:

Na memória dos ódios nos desgastamos.
Desconfortáveis sabores.
De ódio rangem as vísceras.
Em nós só cansaço e portas onde não iremos bater.

Em quatro versos tentei reunir toda a panóplia de desgastes que o amorfo sentimento nos traz. Cargas negativas que criam feridas difíceis de sarar. Sentir as portas a fecharem-se. Ter unicamente aquele malvado desidrato.

Vamo-nos libertar de tudo isto. Vamos sentir a vida a beijar o mar. Vamos procurar o diferente e não ligar ao que pensam de nós. Tentar entender. Saber usar a consciência do bem. Desanuviar o ambiente. Acender uma vela.

«Olha que tu tens razão. Há pessoas terríveis. Eu tenho muito respeito por essas coisas. O mau olhado!»

Voz de Isaurinda.

«Tu não me venhas com o mau olhado. Já conversámos sobre isso. Só nos faz mal quem nós deixamos.»

Respondo.

«É o que tu dizes. Nunca fiando. Eu cá não gosto nada dessas conversas.»

De novo Isaurinda e vai, a mão a abanar como que a afastar maus olhados.

Jorge C Ferreira Agosto/2019(214)

 


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13 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | O ódio, a inveja”

  1. Sara Paiva

    Nem sempre conseguimos detectar a dissimulação que essas mentes retorcidas que andam por aí são capazes de promover, mas eventualmente o olhar desmascara esses cuspidores de estupidez! O melhor e mais irónico é quando se acham tão inteligentes que têm voleidade de pensar que os outros são burros. Que a luz nos ilumine sempre e que nos mostre as pessoas que tornam este Mundo num lugar de partilha saudável. Obrigada pelo texto. Beijinhos.

  2. António Feliciano de Oliveira Pereira

    São sentimentos nada virtuosos que encontramos em qualquer latitude e extracto social.
    Bem dissimulados para confundirem bons princípios, elegância no trato e bom carácter.
    É preciso estar muito atento e saber resistir, seguindo em frente fazendo conta que nada se passou. Quando nada acontece que nos machuque, para o invejoso é uma frustração.
    Um abraço, Jorge.

  3. Cristina Ferreira

    Querido amigo,
    o comentário da querida Ivone é tão completo, tão sábio e vai exactamente ao encontro ao que eu sinto. Também não consigo descrever estes “estados de espírito” como sentimentos. Que palavras feias. Costumo dizer que não existem no meu dicionário. Porém existem, infelizmente. E estou com a Isaurinda. E agradeço-te, uma vez mais, pela forma magistral com que abordas temas tão complexos, tão reais . Obrigada

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Não tenhas medo. Só nos faz mal quem nós queremos. Abraço

  4. Ana Bela Duarte Lopes Graça

    A negritude e perversidade de tais sentimentos é avassaladora. Não beneficia ninguém. Só provoca a destruição de tudo e todos. Tão lamentável! 🙂 Desde sempre se ouviu falar de ódios e invejas. Só a inteligêcia humana conseguiria derrubá-los, mas isso não acontece. Os egoísmos e egos inflamados não o permitem.

    Grata por esta crónica tão oportuna, querido amigo Jorge C. Ferreira. Continuemos a nossa luta pelo bem comum. Que toda a Luz nos ilumine!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ana Bela. Que bom o seu comentário. Vamos clarear ps céus. Abraço

  5. Isabel Campos

    “(…) o ódio só faz mal a quem o alimenta (…)”

    Não podias dizer melhor.

    Parabéns pela continuidade de um tempo, uma ideia, um sentir.
    Parabéns pela presença.

    Beijinhos

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Grato estou eu pela tua presença. Tu sabes do que somos capazes para ludibriar estas horríveis coisas. Abraço

  6. Branca Maria Ruas

    O ódio. A inveja. O ciúme. A posse. Nódoas de quem só quer TER e não sabe SER.
    Gente que não consegue encontrar beleza em nada. Gente que destrói, que contamina.
    Fujo desse “mau olhado”!

  7. Teles Ivone Teles

    Tenho um amigo, meu irmão, que um dia escreveu uma quadra:
    ” Na memória dos ódios nos desgastamos.
    Desconfortáveis sabores.
    De ódio rangem as vísceras
    Em nós só cansaço e portas onde não iremos bater ”
    Estava integrada numa crónica sobre: ” O ÓDIO. A INVEJA “. Quase não era necessário dizer mais nada. Qualquer destes ” estados de espírito “,( não consigo escrever ” sentimentos “, mesmo que os adjectivasse de ” negativos “.). Sentimentos, só conto o bem que o coração sente . A inveja e o ódio, reproduzem-se mutuamente. O ódio é muito mau, mas às vezes dissolve-se a si mesmo. A inveja, faz muito mal a quem a tem e quase sempre faz muito mal a quem é dirigida. Inventa, dissimula, consegue destruir qualquer outro, mesmo sem se aperceber que se destrói também a si próprio.
    Um texto bom como sempre. A Isaurinda diz, por outras palavras e chama-lhe ” mau olhado ” Na sua inteligente simplicidade resume assim.
    Obrigada por mais uma crónica tão social nesta comunidade de seres a que pertencemos. Um beijinho amigo e terno, Jorge meu amigo/ irmão.

  8. Célia M Cavaco

    Que texto tão actual. Eu que não acredito,dou por mim a analisar métodos que certa “gentinha” usa para se sentir realizado,não vendo que o sucesso é trabalhoso e desgastante.A tal inveja,o tal mau olhado,a cobiça é pura e nefasta a longo prazo,quero crer que sem maldade da minha parte exista a lei do retorno. Meu muito amigo,desde já o meu abraço de sempre com toda a energia positiva,creio que nós somos dos que ficam felizes com o sucesso dos outros,não seriamos nós se assim não fosse. A minha felicidade e comodidade emocional começa por ver os outros bem.
    Abraço cheio de positividade.

  9. Madalena

    É isso exactamente: ‘saber usar a consciência do bem, acender uma vela’ e rezar por esses seres que se encontram na mais profunda escuridão!
    Obrigada por mais um texto iluminado. Um beijinho querido amigo.

    1. Ana Bela Duarte Lopes Graça

      A negritude e perversidade de tais sentimentos é avassaladora. Não beneficia ninguém. Só provoca a destruição de tudo e todos. Tão lamentável! 🙂 Desde sempre se ouviu falar de ódios e invejas. Só a inteligêcia humana conseguiria derrubá-los, mas isso não acontece. Os egoísmos e egos inflamados não o permitem.

      Grata por esta crónica tão oportuna, querido amigo Jorge C. Ferreira. Continuemos a nossa luta pelo bem comum. Que toda a Luz nos ilumine!

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