Crónica de Jorge C Ferreira | Sentimento de Posse

Sentimento de Posse

Possuir. Ter. O sentimento de posse. A quase loucura. O sentir o outro como seu. A negação do amor. A inversão dos sentimentos. Um “click” e passa-se do que se julga amor ao ódio. O triste sentimento de propriedade. Isto é meu – a frase fatal. Não és minha/meu não és de mais ninguém – a frase letal.

A primeira estalada. O falso arrependimento. O pedido de desculpa. A cama como falsa reconciliação. O perdão sem razão. O erro tantas vezes repetido. As marcas. Ocultar a vergonha. A fantasia. O teatro. O faz de conta. A triste infelicidade de tentar ser feliz. Enganar-se, mentir de si para si. Querer acreditar no impossível. Errar mais uma vez.

As cenas que se repetem. Um crescendo que está em todos os livros. Os tais ciúmes que se forjam num sentimento vil. Tolerar cada vez menos. Não tolerar nada. Embirrar por tudo e por nada. A casa, os filhos, a vida. Tudo no mesmo saco. Não saber distinguir. A posse a alargar-se. As marcas a crescerem. Esta triste educação que ouvimos mil vezes: “entre marido e mulher não metas a colher”. Ter a noção que o horror mora ao nosso lado e fazer por esquecer. Não cometam esse erro! Sejam corajosos!

O divórcio que não sai. Os litígios para distribuir a miséria. Os filhos pelo meio. O descontrolo. O desconchavo. As ameaças, as veladas e as reais. As queixas e as contra queixas. As casas abrigo. O desabrigo. A injustiça. Há quem perdoe de novo, volte e tudo o contado até agora se vai repetir. Voltam os choros e os gritos. As marcas e a vergonha.

Um dia surge a notícia que ninguém queria anunciar. Uma morte, duas, três. Toda a gente fala agora para as câmaras. Conta o que nunca teve a coragem de contar no tempo próprio. Os tais quinze minutos de fama.  O sangue escorre pelos rodapés dos canais de televisão. Há jornais que chegam à banca empapados no líquido que sobrou da morte. Faltam os ardinas para anunciar o crime. Chega a vergonha. Vergonha que teima em se multiplicar.

O sentimento de posse também se manifesta nas heranças. Todos se incompatibilizam com todos. Há irmãos que se deixam de falar. Os pais às voltas na tumba ou no jarrão das cinzas. Como são tristes tais ocorrências. Também, nestes casos, acontecem homicídios e toda a sorte de maus actos.

Há umas aves raras que se dedicam a caçar heranças. Uma vez escrevi assim:

Os abutres. Os caçadores de fortunas. Rapaces figuras. Os herdeiros feitos à força. Sempre presentes nas aberturas dos testamentos. Cheiram o dinheiro da morte a quilómetros de distância. Servem venenos finos às infelizes vítimas. Coisas do foro psicológico. Por vezes têm de tomar pastilhas para o estômago, tal o refluxo que a ideia da fortuna a herdar lhes provoca.

Não voam. São rastejantes seres. Algo os tornou assim. Quem não conhece abutres invertebrados, aqui os apresento. São uns seres estranhos têm o riso das hienas e comem toda a merda que lhes aparece. São insaciáveis e perigosos. São capazes de litigar o sem sentido. O vil metal é a sua bandeira. Podem desejar a morte do competidor. Lutas de galos, corridas de galgos. A morte à espreita.

Por vezes morrem de enfartamento.

Sobre o sentimento de posse por hoje é tudo.

«Olha que tu falaste de uma coisa que me faz sentir mal. A violência sobre as mulheres.»

Fala de Isaurinda.

«Sobre as mulheres e os homens. Toda a violência é vergonhosa.»

Respondo.

«Sim. Mas olha que é mais sobre as mulheres.»

De novo Isaurinda e vai, a paz na mão.

Jorge C Ferreira Agosto/2019(212)

 


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22 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Sentimento de Posse”

  1. Célia M Cavaco

    Leio esta crónica com mágoa,tantas vidas disfarçadas de felicidade,tantos lobos a viverem dentro de quatro paredes onde deveria ser AMOR,amor simples e verdadeiro onde a posse fosse amar muito e amar mais o respeito por dois.Nunca o Amar pelos dois deu certo.Amar e honrar é uma equação tão simples,pelo menos deveria.Obrigada pelo texto,certamente que todas as mulheres incluindo eu dou um aplauso as todas as que conseguem cortar as amarras sem medos…
    Abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Célia. Respeitar o outro a peça importante deste complicado cenário. Uma luta de mulheres e homens. Abraço

  2. Branca Maria Ruas

    O sentimento de posse é destruidor. Avassalador. Doentio.
    Revela insegurança. Quem mais quer prender é quem mais engana.
    Tanto sofrimento à custa desse terrível sentimento!
    Muitas vezes começa na educação. Por vezes esse sentimento é fomentado e alimentado no seio da próprias família. Condescende-se. Mas não podemos ceder ao mínimo sinal.
    Lembro-me que, ainda muito nova (talvez uns 15 anos…) terminei um namorico porque ele não gostava que eu usasse as saias tão curtas… Mas isto foi nos anos 60! Pasmo como agora ainda há raparigas a aceitar namorados possessivos e ciumentos.
    É uma tristeza…
    E há outras “posses ” que também (e tão bem!) referes. Mata-se por querer TER esquecendo, tantas vezes, que aquilo que importa mesmo é SER! Ser honesto! Ser responsável! Ser verdadeiro! Ser amigo! Ser livre!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. Sim, dar valor ao Ser, desvalorizar o ter. Mudar os valores. Sermos cidadãos de corpo inteiro. Investir na educação para a cidadania. Denunciar a cobardia dos maltratadores. Abraço

  3. Eugénia Soares Lopes

    Difícil de comentar pela dor que o texto nos provoca: é verdade, bem verdade, que existe frequente, e tão ao nosso lado, o desconforto – tão concreto – e, até a violência, vinda do sentimento de posse – que, invisível, e em certos casos bem visível, povoa a nossa sociedade, por todos os seus ângulos…
    Como ‘extrair’ esse sentimento de posse que impregna a nossa sociedade? através do bom exemplo? do realce a dar àquela generosidade que se implica no nosso bem-estar moral? através do amor limpo? da desvalorização social do ‘ter’ bens? da aceitação, consciente e incondicional, da liberdade?
    Um abraço, Eugénia

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eugénia. Mudar a sociedade, mudar o mundo. Nunca perder a esperança. A educação, sempre a base para tudo. Uma educaçao para a liberdade plena. Abraço

  4. António Feliciano de Oliveira Pereira

    Bom dia, Jorge!
    Infelizmente, na nossa sociedade que tende a progredir, não consegue libertar-se de heranças viciosas enraizadas desde o SEC. XIX, em que os machos se sentem doentiamente inferiorizados, não se sabendo libertar de um modo civilizado.
    Hoje, o acesso à cultura está tão facilitado que me atrevo a dizer que só não aprende quem, realmente, não sabe olhar para dentro de si; mas sabe apontar o dedo aos outros.
    Um abraço, Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. Sim, meu amigo, é esse sentimento de insegurança que desperta a força bruta. A importância de educar para a cidadania. Abraço

  5. maria rosa matosi

    Uma doença grave não aceite por quem a tem , embora o seu sofrimento seja por eles sentido. A sociedade deveria estar mais atenta a esta urgente terapia.

    São lobos vestidos com pele de cordeiro .

    Um abraço meu Amigo Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Rosa. Os disfarces e as manhas. A impotência. A falta de princípios. Tanta coisa para mudar. Abraço

  6. Jorge C Ferreira

    Obrigado Cristina. Não sei que te responda. A coragem com que aqui abres o teu coração ainda magoado é digno de toda a nossa reverência. Serás sempre menina/mulher coragem. Obrigado por tudo o que aqui escreveste sem filtros. Abraço

  7. Isabel Campos

    A primeira coisa que me ocorre é, precisamente, uma frase tua.

    “é tão difícil ser simples”

    Depois, depois vem tanto.
    Depois, é a inquietude.
    Depois, é quantas vezes um pouco de nós em cada grito.
    Depois, depois,…

    … É um Sim alegre ou um triste Não.

    https://youtu.be/aqOGScSUXL0

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Sim, tudo o que tão bem dizes. Saber dizer basta. Abraço

  8. Eulália Pereira Coutinho

    Qualquer forma de violência é inaceitável.Em nome do amor praticam-se os maiores crimes. Esquecem-se os afectos, as crianças, os laços familiares. Várias faixas etárias, qualquer classe social….chega-se ao limite máximo.
    Amor é amor!
    A Isaurinda tem razão, a mulher continua a ser o elo mais fraco e mais desprotegido.
    É utopia pensar que vai mudar.
    A sua crónica é excelente. Só alguém de grande sensibilidade pode transmitir em palavras esta mensagem.
    Um grande abraço amigo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Os crimes que se cometem em nome do amor! O amor que não existe. A confusão de sentimentos. Abraço

  9. Maria Madalena

    Um tema duro que rasga em muitos memórias que sangram. Que nunca falte a coragem de dizer BASTA! A Violência e o Sentimento de Posse nada têm a ver com o AMOR! O que se deve procurar é ser feliz, nem que para isso se viva só (mais vale só que mal acompanhada). Ainda a propósito da violência, lembrei-me agora, da declaração de um determinado juiz: “Os homens batem nas mulheres porque se sentem intimidados” justificou. Fiquei pasma! Daqui à morte vai um passo muito pequeno. Seguem-se as condolências e os famigerados testamentos que quase sempre conduzem a guerras entre os herdeiros. Tudo tão triste, tão desumano! Para onde caminhamos, meu querido amigo?

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Tão incisivo o que escreveu. Dizer não à brutalidade. Mudar as consciências. Abraço

  10. Teles Ivone Teles

    Diariamente lemos e ouvimos. Diariamente acontece nalgum lugar deste país, nalgum lugar da Terra. E com a tua lucidez e as tuas certeiras palavras expuseste o horror da posse, do ciume a que alguns(?) chamam amor. Quem ama cuida, não vigia, não espreita, não abre cartas. Hoje, violam as novas tecnologias para acederem às conversas a que eles próprios fugiram, porque vivem à volta dos seus umbigos, rodando sempre, sempre. Tão bom o teu texto. O amor é sentimento, é como estar em constante dádiva. Às vezes pode não ser fácil, mas é falando, nunca gritando, que as pessoas se podem entender. Pode haver separação, porque os caminhos podem ter-se cruzado, mas por qualquer razão se desencontraram. Pode até ser uma atitude inteligente e acontecer com harmonia e não deixar rancores. Mas somos todos muito imperfeitos e trocar amor por ódio é, muitas vezes a opção que é, sempre, errada. Hás-de voltar ao ” sentimento de posse “, porque é necessário que haja essa reflexão. ” Toda a violência é vergonhosa” disseste à Isaurinda e bem. Aposto que pensa nisso enquanto ” limpa o pó”. Não se pode calar o que se abomina. Obrigada querido amigo pelo teu texto. Beijinhos <3 <3

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Sempre tão lúcida, sempre do lado da razão. São assim as tuas palavras depois a frase que diz tudo: “quem ama cuida”. Que bom ler-te. Abraço

  11. Regina Conde

    Creio que nunca tive tanta dificuldade em comentar um texto teu. Doí cada palavra. A minha avó materna foi vítima de maus tratos por parte do meu avô. Convicto que a possuia afectivavamte de forma animalesca. Foi a mulher mais bonita que conheci até hoje. Conseguiu libertar-se. O coração não aguentou. Partiu com 58 anos. O maior legado que alguém me deixou. A herança que guardo em mim. Outras sucessões de bens. Casas, terrenos, dinheiro, conduz à avareza, distanciamento. Desapego que aprendo todos os dias mais um pouco sobre essa realidade. Como me sabe bem a paz na mão da Isaurinda. A harmonia das tuas palavras. Um abraço Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Tanta coisa nos passa pela vida. Tantas tristes noites. A vida dura a bailar no teu belo comentário. Grato pelo testemunho. Abraço

  12. Cristina Ferreira

    Querido amigo,
    sei de tudo o que falas. Do sentimento de posse. Da quase loucura. A frase letal. A primeira estalada. O falso arrependimento. O pedido de desculpa. O erro tantas vezes cometido. As marcas. Ocultar a vergonha. A triste infelicidade de tentar ser feliz. Querer acreditar no impossível. Errar mais uma vez.
    As cenas que se repetem. Os tais ciumes. Embirrar por tudo e por nada. A triste educação que ouvimos mil vezes “entre marido e mulher não metas a colher”
    Ter a noção que o horror mora ao nosso lado.
    O divórcio que não sai. O descontrolo. As ameaças, as veladas e as reais. A injustiça. Há quem perdoe de novo, volte e tudo o contado até agora se vai repetir. Voltam os choros e os gritos. As marcas e a vergonha.

    Todo o texto acima foi escrito por ti, são palavras tuas. Mas podiam ter sido escritas por mim. Exactamente assim. Como és sábio, meu querido amigo Jorge. Como conseguiste descrever ao pormenor o que presenciei e vivi. Eu e a minha querida mãe, que na tentativa de ao fim de 10 anos de viuvez, encontrar novamente o amor, entrou num profundo e terrível pesadelo. Foram anos de profundas trevas até encontrar novamente a Luz. Mas encontrou. Conseguiu. Conseguimos. O desfecho podia ter sido outro. Por várias vezes esteve próximo. Mas tivemos sorte. Muita sorte. A minha querida mãe não desistiu de lutar. Ela nunca desistia.
    Recordo o dia em que saímos as duas pelas primeira vez à noite em liberdade. Sozinhas. A partir dessa noite mágica, agradeço todas as noites a beleza do brilho das estrelas e ao sentir o vento no rosto (das melhores sensações que há no mundo) , digo que sei o que é o sabor da liberdade.

    Meu querido e sábio amigo, o meu comentário à tua crónica acabou por ser um pequeno desabafo meu, da meia dúzia de anos que vivi. Nunca tal tinha acontecido. Desculpa. Mas querido Jorge, para além de um homem bom e sábio, de uma sensibilidade única que consegues transmiti-la em papel, tens um Dom. O Dom de chegares na tua forma doce e delicada até nós. Ao mais intimo de nós. Bem hajas

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