Crónica de Alice Vieira | Cheiros perdidos

CHEIROS PERDIDOS
Alice Vieira

 

Eu ia cheia de pressa. Acabada de chegar a Lisboa, depois de um maravilhoso mês na Ericeira, a disposição não era das melhores. Mas a voz da mulher na banca da fruta fez-me parar de repente. “Olhe as minhas maçãs, freguesa! Olhe que até cheiram e sabem a maçã!”

Sorrio, acho graça a maçã saber a maçã, olho o vermelho da casca e acabo por sucumbir à tentação, qual Branca de Neve diante da malvada madrasta.

E dou comigo a pensar no tempo em que as coisas cheiravam àquilo que eram, em que as maçãs cheiravam a maçãs, os morangos enchiam de perfume as nossas casas, o pão sabia apenas a pão, e o soalho da nossa casa tinha um honesto e lavado cheiro a sabão.

Hoje até o cheiro e o sabor se globalizaram.

A pobre da minha amiga Natália, nas agonias dos seus primeiros meses de gravidez, anda por aí doida à procura de pão-que-saiba-mesmo-a-pão e ainda não encontrou. Porque desde que se inventaram as boutiques do pão, as padarias portuguesas, as padarias do bairro e disto e daquilo– essas lojas que por aí proliferam no lugar dos velhos padeiros que até penduravam  o pão nuns sacos às nossas portas—há pão de tudo menos pão-pão, sem mais nada do que isso . Há pão de nozes, pão de uvas, pão de orégãos, pão com sementes de sésamo, pão de queijo, pão com azeitonas, etc, etc…

É um verdadeiro quebra cabeças descobrir, por entre tudo isso, um vulgar papo-seco, carcaça, molete. Pão a saber ao pão que comíamos antes de ir para a escola. Ou no intervalo das onze. Ou quando chegávamos a casa.

A pobre da Natália, que é professora e tem de dar os “Maias” aos seus alunos, vai afirmando, à guisa de conforto, que se calhar a ideia que ela tem de pão é qualquer coisa idealizada, pois já o Ega costumava dizer  que “neste miserável país  não há nada de genuíno, nem mesmo o pão que comemos…”

É então que ficamos as duas a recordar o Ega, e o Dâmaso, e o Carlos e por aí fora até que lhe passam os enjoos e os desejos A cultura ainda serve para alguma coisa.

O que não serve é para nos trazer os cheiros antigos.

Lembro-me sempre que o velho casarão da minha tia Dina, em Torres Novas, tinha sempre um cheiro intenso a madeira queimada. E havia à entrada uma grande taça cheia de maçãs que perfumavam a casa toda.

Hoje, para lá de as maçãs não cheirarem a nada,  ao fim de dois dias estão todas podres, por causa dos frigoríficos por onde andaram até chegarem  às nossas casas—as quais, por sua vez, cheiram todas às latas de purificadores do ar que , das prateleiras dos supermercados, nos prometem aromas de “pinheiro bravo”, ou “lavanda”, ou “rosas do bosque” , e se ficam todos pelo mesmo cheiro plastificado  a coisa nenhuma que, como toda a gente sabe, é o pior cheiro que existe à face da terra.

Acreditem que eu até chego a sentir saudades do terrível sabor do óleo de fígado de bacalhau, do azedo genuíno dos primeiros iogurtes, vendidos em boiões de loiça, e da intragável canja de galinha à qual, antes de partirmos para a praia, se juntava o então indispensável óleo de rícino.

Aquilo sim, aquilo eram sabores a sério, puros e duros.

Aquilo—e volto a citar a minha amiga Natália—formava o carácter de uma pessoa.

Chego a casa e largo as maçãs sobre a mesa da casa de jantar, antes de ir à vida, na doce ilusão dos perfumes de antigamente.

Sabendo que à noite, quando regressar a casa, a única coisa a que ela há-de cheirar e é à saudade dos cheiros de um tempo perdido.

 


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