OPINIÃO POLÍTICA | Mário de Sousa – Marinheiros de ‘cabotagem’

Marinheiros de ‘cabotagem’

A dois meses de eleições legislativas tudo levaria a supor que os portugueses estariam fora dos seus lares gozando umas merecidas férias para no seu regresso votarem em consciência. Livres de bullings e burnouts laborais, longe do stress das longas filas de trânsito e dos tratos de polé dos transportes públicos, seria de prever que Julho, Agosto e Setembro, os levassem, agora de bolsos cheios e plenos da felicidade que os desafogos financeiros proporcionam, a desaparecerem das suas residências em busca de lugares paradisíacos.

A sublinhar esta suposição vêm as notícias de ocupações de hotéis e resorts muito perto dos 100%, hostels e airbnb esgotadíssimos. Preocupadíssimos com as viagens de férias dos portugueses o Governo trava uma verdadeira batalha com os condutores de matérias perigosas, levando o Ministro da Defesa a dizer em horário nobre das televisões, que caso fosse necessário, poria as Forças Armadas a conduzirem os camiões tanque para que nada faltasse aos portugueses. Logo reclamaram os produtores de tomate e os produtores de leite que se sentem injustiçados por não serem alvo destas preocupações.

Abençoado pré-aviso de greve. De um momento para o outro deixou de se falar nos incêndios que continuam a cumprir o seu dever de esturricar o que ainda existe, as tão faladas golas que tal como dizia o nosso Camões ‘ardem sem se ver’, os transportes públicos que mesmo com menos utilização devido às férias, não melhoraram um milímetro, os medicamentos que aos milhares continuam a não chegarem às farmácias, o SNS que cada vez está pior de saúde, diz a Ministra que tudo está bem e que o que está mal são as interpretações maldosas das pessoas, tal e qual os irrequietos cidadãos que resolvem madrugar nas filas das Lojas do Cidadão. E porque tudo isto não chegava, agora temos um problema terrível para resolver: a deflação! Os preços em vez de subirem estão a descer. Inventa-se cada maldade…

Mas eis que chega vinda das Europas do tal Intrastat que nunca nos trás boas notícias que 41% dos portugueses não conseguem pagar uma semana de férias. 41% são cerca de 4,1 milhões de pessoas ou seja, cerca de metade da população portuguesa. Esta metade excluída de um merecido descanso é a aquela metade que não consegue descolar do ordenado mínimo, que entrega praticamente tudo o que ganha para a renda de casa e para a escola dos filhos. É aquela metade que para além de tudo o mais vive num verdadeiro estado de infelicidade. Pergunte-se-lhes se estão preocupados com a descida dos preços. Mas cuidado com a resposta que possam obter. Mais uma má notícia: não são os portugueses que enchem hotéis. Há por aí uns estrangeiros com esse mau hábito.

Estes 41% têm a perceção exata da razão desta sua exclusão, sabem que vivem num país cujo desenvolvimento económico assenta numa distribuição injusta. Shigehiro Oisni e Selin Kesebirafirmam que quando existe desigualdade de rendimentos, a felicidade decorrente do crescimento económico é anulada pela insatisfação gerada por essa desigualdade. Por isso a distribuição da riqueza gerada num país é um aspeto preponderante para a perceção da felicidade. Pode parecer simplista mas ‘crescimento com igualdade é um crescimento feliz, e crescimento com desigualdade é crescimento infeliz’., afirmam.

Dos que podem pagar uma semana ou mais de férias, 12,3% fazem-no fora do país e estão em franco crescimento.

Esta iniquidade na distribuição de riqueza gerada, leva uma parte cada vez maior de portugueses ao consumo de ansiolíticos, antidepressivos e fármacos para dormir. É mais fácil obrigar os portugueses a pagarem estes fármacos do que explicar às associações patronais que o verdadeiro problema do país assenta na falta de empresários com visão de futuro. Assim anestesiada, uma parte da população que aceita o burnout como uma alínea importante do seu curriculum, lá irá votar convictamente neste estado de coisas, com a mesma convicção com que todos os dias apostam 14 milhões de euros em raspadinhas e quejandas, na esperança de poderem ser ricos.

Alturas houve em que fomos um povo de marinheiros de alto mar; hoje viajamos à vista numa cabotagem eleitoral cada vez mais curta.

Mafra, 7 de Agosto de 2019

Mário de Sousa

 


OISHI, Shigehri, KESEBIR, Selin, DIENER, Ed, Income Inequality and Happiness https://doi.org/10.1177/0956797611417262

 


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