Crónica de Alexandre Honrado – Identidade para a diversidade

Crónica de Alexandre Honrado – Identidade para a diversidade

 

IDENTIDADE PARA A DIVERSIDADE

Estou desnorteado

 

 

Não sou menos do que os outros, também eu me sinto desnorteado e com um medo intenso do que fazem em meu nome.

Podia dar muitos exemplos, mas este é o mais universal: dizem-me que só temos onze anos para começar a inverter a curva de destruição do planeta, mas que são até agora ínfimos os esforços mobilizados para tarefa tão espantosa e tão desmesurado objetivo –  que requer mobilização total e um conceito de ordem que está longe da famigerada ordem repressiva, ou da brutal ordem policial-militar ou da quase sempre incompetente ordem política que nos trouxe até aqui, mas uma ordem (ou que obedeça a outro nome qualquer desde que ordene o território, os recursos e as pessoas) que assente sobretudo nos núcleos que compõem a Humanidade que, ao contrário do que  a Internet pode fazer crer, são dispersos e nada altruístas.

Salvar o planeta é relançar um conceito dúbio: o conceito de identidade.

Não somos uniformes, não somos todos iguais, não somos identitários, mas subjetividades, traduzindo os pequenos universos em que nos definimos, destacamos, reconhecemos e compomos.

Somos indivíduos, ou pior, somos seres sozinhos, alguns muito solitários, no que definimos para nós (cada um tem a sua vida, diferente até do companheiro de jornada, da família, dos progenitores ou dos descendentes, dos amigos, colegas, comparsas, correlegionários e afins), cada um tem o seu ídolo (que colou na parede do quarto, no altar erguido ao fundo do lar, na bandeira que defende ou que impõe, na igreja que frequenta ou que defende – ou ataca – a tiro…), a sua verdade ( tão diferente da do próximo), a sua noção de absoluto (eu quero, posso, mando, tenho ideias melhor do que as tuas, nunca me engano, raramente tenho dúvidas, sou o habitante da ilha deserta onde os cocos nascem numa árvore singular que me enjoa e cada vez faz menos sombra), o seu sentido (afinal nascemos para a transfiguração? Para o Botox, a operação plástica, o cover, a tinta que nos cobre pele e muros, o piercing, as mutilações, o desespero de não conseguir enfrentar o fim do mês porque se enfrentou o fim de semana, a vontade de comunicar mesmo com quem não ouve ou lê ou acena ao que partilhamos, o deslize pela derrocada psicológica, este desnorte?).

Ao celebrarmos o eu, formatamos o egoísmo. E a salvação do planeta – nem falo dos seus habitantes…- é generosidade. Logo neste ponto há uma ambígua atitude, um fim de travessia bem diferente das pontes que estabelecemos, uma mancha de intuições e de desilusões. Como ser no outro e com o outro, se nos formamos para ser, logo existir, numa identidade que nos cerca e reduz? Construir uma nova grelha para onze anos de inversão do caos obriga a audácia e a criatividade para servirmos uma causa urgente. A causa do que já não somos, mas que é urgente sermos por nós, pelos outros, pelos que de nós ficarem a criar – quem sabe? – um novo conceito de identidade.

 

Alexandre Honrado

 


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