OPINIÃO POLÍTICA | Mário de Sousa – O Eleitor Peregrino

O Eleitor Peregrino

Terminou mais uma legislatura, esta talvez a mais especial da nossa curta democracia. Solução à partida periclitante e a quem ninguém atribuiu a saúde e a solidez necessárias para se cumprir integralmente. Mas aconteceu!

Sem necessidade de suplementos alimentares, a vida decorreu calma durante estes 4 anos. Fica-se com a sensação de que se a legislatura tivesse de durar mais tempo tudo continuaria a funcionar, segundo uns ‘bem’ e segundo outros ‘mal’. O cheiro a poder foi a massa aglutinadora da solução. Agiu sobre os partidos como um creme para a pele; tornou-a macia e flexível, e como todos sabemos uma pele saudável espelha ‘boa saúde’.

Tornou-se por isso fácil encontrar pontos comuns, estabelecer consensos, contribuir para finais felizes. Tudo correu bem embora por vezes tenha sido necessárias gritarias, encenar zangas, insultar o vizinho, não fossem os eleitores pensarem que cada um per si, tinha vendido a alma ao outro. Esse susto desabou com estrondo, conhecidos os resultados obtidos pelos partidos nas eleições para o Parlamento Europeu. Culpados, claro está, foram a abstenção e todos os pequenos partidos e movimentos que se entretiveram, ‘maldosamente’, a desviarem as atenções e os votos das barrigas de aluguer de onde tinham saído. Ingratos!

Numa revisão rápida a este última sessão legislativa em que os partidos que suportaram o governo trabalharam arduamente para reeditarem a solução vigente para os próximos 4 anos, verificam-se números extraordinários:

 

317 Iniciativas legislativas i – 256 projetos de lei
……………………………………………61 Propostas de lei

            BE                   – 64 Projetos de lei
\          PCP                 – 50 Projetos de lei
    ……. PEV                 – 17 Projetos de lei
…….     PS                    –   9 Projetos de lei
 ……..   Governo          – 49 Projetos de lei
………………………………..189

Um governo de voz grossa mas significando apenas 26% da iniciativa legislativa dos que com ele suportam a solução governativa. Comboio perdido para os eleitores que ficam com dúvidas de quem é quem. Quanto à oposição verificou-se valer tanto em ideias como o Governo, ou seja, apenas 26%.

E neste disse que não disse, neste faz que não faz, se vão consumindo os dinheiros e tempo, tempo que cada um de nós tem hipotecado a tentar sobreviver financeiramente nestes caminhos sinuosos de resultados pífios, criados pelos partidos políticos que têm agora com eleições à porta, grandes dificuldades de elencarem ‘best-offs´ a que se possam agarrar.

É este estado da nação que leva o eleitor a flutuar na entrega do seu voto entre a esquerda e a direita. Sim desenganem-se os puristas da esquerda. O eleitor precisa de dinheiro para viver e a classe média já não tem mais para financiar o projeto atual. Agora há que o compensar por todos estes anos de cedências sem qualquer resultado prático. No fundo o que se conseguiu foi um país de gente mal paga e com fraca escolaridade a alimentar um Estado cada vez mais gordo acordado repentinamente pelo cheiro a dinheiro fresco.

Farto deste ‘procuro mas não te encontro´, começa a surgir um fenómeno de ‘peregrinação’ no espetro político que se consubstancia na formação de pequenos partidos, cada vez mais pequenos, por vezes apenas movimentos cívicos formados por dissidentes dos partidos tradicionais e nos movimentos cívicos por militantes ou intelectuais fartos de uma política fraca com resultados paupérrimos. Estes dissidentes ‘peregrinam’ por vários partidos votando ora es nuns ora noutros até que fartos de serem ignorados acabam por servir de massa crítica ao grupo a que mais se assemelham.

Danièle Herveu-Léger nos anos 90 do século passado escreveu um ensaio sobre a intervenção política dos estudantes católicos no contexto dos movimentos sociais dos anos 60 e 70, onde profetizava o fim da religião tal como a conhecemos hoje a favor de uma privatização pessoal da religião. Diz ela:

“Concretamente ao que nos dizem, não é, pois, a indiferença crente que caracteriza as nossas sociedades. É  o facto de esta crença escapar muito largamente ao controlo das grandes igrejas e das instituições religiosas. De modo muito lógico, é através do inventário desta proliferação incontrolada das crenças que se estabelece o mais correctamente, a descrição da paisagem religiosa actual.” …\ …“A descrição desta modernidade religiosa organiza-se a partir de uma característica maior, que é a tendência geral à individualização e subjetivação das crenças religiosas.”…\ … “Mas o aspecto mais decisivo desta «desregulação» aparece sobretudo na liberdade que os indivíduos se concedem de «recompor» o seu próprio sistema crente, fora de qualquer referência a um corpo de crenças institucionalmente validado.” ii

Leia-se ‘indiferença crente’ abstenção; ‘crença’ ideologia; ´grandes igreja’ partidos tradicionais; ´paisagem religiosa’ espetro político; ´crenças religiosas’ ideologia política; ‘sistema crente’ partido / movimento.

Como conclusão Herveu-Léger acaba por dizer que o que se passa é a descoberta do bricolage da crença religiosa pelo crente e eu contraponho o bricolage do partido / movimento político pelo cidadão. Anne Applehaum dizia na Revista Expresso de 8 de Junho de 2019:

“Vamos finalmente construir os partidos em torno dos interesses das pessoas em vez de presumir que os eleitores vão sempre votar nas mesmas pessoas porque sempre o fizeram”.

No futuro, a eclosão de mais partidos é inevitável. Só não entende quem não quer e os primeiros a meterem a cabeça na areia são os políticos, convencidos que estão que nada mudará, habituados que estão a ver o país e os eleitores apenas a quatro anos de distância.

 

Mafra, 24 de Julho de 2019
Mário de Sousa


i https://tvi24.iol.pt/politica/bloco-de-esquerda/be-com-mais-projetos-de-lei-entregues-e-aprovados-na-ultima-sessao-legislativa

ii HERVEU-LÈGER, Danièle, O Peregrino e o Convertido – A religião em movimento, Gradiva, Lisboa, 2005 pp 47-49


Pode ler (aqui) os outros artigos de opinião de Mário de Sousa.


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