Mafra | Escola das Armas envolvida em polémica por alojamento alegadamente inadequado de jovens desportistas

Escola das Armas envolvida em polémica por alegado alojamento inadequado de jovens desportistas

 

Nos dias 31 de maio, 1 e 2 de junho teve lugar no Pavilhão do Parque Desportivo Eng.º Ministro dos Santos, a Fase Final do Campeonato Nacional de Basquetebol – Final Four Feminina sub-16. A organização da prova foi da responsabilidade da Federação Portuguesa de Basquetebol, da Associação Basquetebol de Lisboa e da Câmara Municipal de Mafra.

A competição pôs em confronto as equipas da S. C. Figueirense (Figueira da Foz), Quinta dos Lombos (Carcavelos), C. D. E. F. Franco (Madeira)  e A. C. D. Ferragudo (Ferragudo).

Às equipas femininas do C. D. Ferragudo (Ferragudo) e do C. D. E. F. Franco (Madeira), como instalações de pernoita, foram destinadas pela organização, as instalações militares da Escola das Armas em Mafra.

Depois de realizada a prova, surgiu um comunicado emitido pelos Pais das Atletas Sub-16 da ACD Ferragudo presentes nesta prova. Neste comunicado, os pais das alunas dão conta de situações graves (documentadas fotográficamente) alegadamente ocorridas no contexto do alojamento das jovens atletas na Escola das Armas.

Segundo a comunicação dos Pais das Atletas Sub-16 da ACD Ferragudo:

[…] Colocaram a nossa equipa (bem como a equipa da Figueira da Foz e a equipada Madeira) num dos lugares mais nojentos do país, precisamente o Quartel de Mafra, quartos sem iluminação, sujos, com um cheiro nauseabundo, colchões manchados de urina e sabe-se mais o quê, janelas sem vidros, uma retrete para toda a equipa e staff (para 22 pessoas), etc… etc.. tal como poderão observar nas fotos que colocamos.

As refeições que prepararam à comitiva numa das escolas da cidade foi do piorio, especialmente as primeiras duas refeições, nem os cães merecem uma comida daquelas, desde sopa queimada, esparguete aquecida, coxas de frango mal cheirosas a quantidades minúsculas, valeu de tudo…

Para atletas que necessitam de descansar e de se alimentar para disputarem uma final de uma competição nacional ao mais alto nível, o que se passou, na realidade, foi totalmente o oposto – fome e muito sono! A miséria não foi maior porque o staff e os pais andarem sempre por perto para tentarem amenizar as dificuldades das atletas, embora sempre com efeito retardado.

A sujeira foi enorme e nunca mais será esquecida por todos aqueles que passaram por esta cena de horror… isso é certo.

Por tudo isto, não nos iremos calar até que o clube, o staff envolvido e as nossas atletas recebam um pedido formal de desculpas de todos os intervenientes nesta miserável (des)organização.

Por fim, lamentamos as condições a que se submetem todos os militares que frequentam as casernas do Quartel de Mafra, certamente ao nível do pior que existe no mundo. ”

P’los pais das atletas sub-16 da ACD Ferragudo

Por seu lado, a direção do clube deu entretanto a conhecer a sua posição em relação a este caso.

“A Direcção da ACD Ferragudo solidariza-se com os pais, atletas e todo o staff que infelizmente teve que passar por esta atrocidade.
Lutaremos até às últimas consequências para que mais ninguém tenha que passar por uma situação destas.
Aproveitamos igualmente para agradecer aos pais todo o apoio demonstrado e a ajuda para se tentar amenizar a situação junto da equipa.”

Contactámos Nuno Pedro, Diretor da secção de Basquetebol da ACD Ferragudo, que confirmou integralmente o teor do comunicado dos pais das atletas, confirmação presencial, pois também ele conheceu as instalações em causa. 

Ficámos a saber que ninguém dormiu, verdadeiramente, naquelas instalações, porque ninguém teve a “coragem” de se deitar naqueles colchões e dormir naquela noite. Houve jovens a quem, com a visão e os cheiros que as imagens permitem invocar, se soltaram as lágrimas. Ninguém dormiu naquela noite e isso ter-se-á refletido nos resultados desportivos, afirmou aquele responsável.

Ficámos a saber que as instalações foram visitadas previamente por um representante da Câmara de Mafra e da Associação de Basquetebol de Lisboa, a quem não terão agradado as condições, mas que as terão aceitado. No entanto, ninguém avisou antecipadamente o clube de que seriam aquelas as condições de alojamento a que as jovens atletas e o staff iriam encontrar e às quais as pretendiam sujeitar.

Não é fácil encontrar alojamentos em Mafra. A equipa da Madeira, também encaminhada para a Escola das Armas, terá gasto então 700 euros num alojamento local, tendo-se recusado a ocupar as instalações militares. Quanto à equipa de Ferragudo, valeu-lhe a Câmara de Mafra, que decidiu alojar as jovens no pavilhão do Parque Municipal Ministro dos Santos, onde dormiram no chão sobre colchões.

O Jornal de Mafra contactou uma fonte da Escola das Armas, que confirmou contatos da Associação de Basquetebol de Lisboa e da Câmara Municipal de Mafra para alojar as equipas. Esta fonte afirmou “nós mostrámos o que tínhamos e que foi considerado razoável para instalar a equipa. Nós não oferecemos nada a ninguém, apenas respondemos a uma solicitação“.  A “troca de favores” e a excelente e tradicional relação entre a Câmara de Mafra e os militares instalados na vila teve, desta vez, resultados indesejáveis.

O Jornal de Mafra contactou a Câmara Municipal de Mafra para que desse alguns esclarecimentos a propósito deste caso.

Pretendíamos saber, nomeadamente: a Câmara Municipal de Mafra (CMM) visitou previamente as instalações em que as jovens seriam alojadas? Reconhece a Câmara Municipal de Mafra que as condições de alojamento que diligenciou, não eram adequadas ao fim a que se destinavam? A Câmara Municipal de Mafra conhece a reação pública que aquele tipo de condições de alojamento originou? Como é que a avalia? A Câmara Municipal de Mafra protestou (ou tenciona protestar) junto das Escola das Armas pelas condições de alojamento a que terá sujeito as jovens atletas? Que circunstancias levaram a Câmara Municipal de Mafra a diligenciar a disponibilização de pernoita das jovens atletas numa instituição militar?

A Câmara optou por não responder às questões por nós colocadas, tendo emitido um comunicado onde se se afirma que a organização foi da Federação Portuguesa de Basquetebol e da Associação de Basquetebol de Lisboa “…contando com o apoio da CMM”. Mais adiante, no referido comunicado,  pode ler-se:

“Na sequência do pedido formulado, a EA informou que as camaratas do Alto da Vela, já disponibilizadas em 2018, se encontravam indisponíveis, verificando-se a possibilidade de cedência gratuita de um conjunto de três outros espaços, mas que caberia à ABL validar a sua adequabilidade, pois não estavam a ser usados de forma regular;

O Presidente da ABL, após visita a estas instalações, validou a sua utilização pelas atletas, pelo que se imputam responsabilidades a esta associação pela escolha do espaço de alojamento, aliás sua competência enquanto entidade organizadora, e se rejeitam quaisquer responsabilidades por parte da EA;

No dia 1 de junho, durante a manhã, a CMM tomou conhecimento de que as equipas se encontravam insatisfeitas face às condições de alojamento disponibilizadas e, de imediato, mesmo não sendo sua responsabilidade, disponibilizou espaço alternativo no Parque Desportivo Municipal de Mafra, tendo a Associação Cultural e Desportiva de Ferragudo aceite esta sugestão, enquanto que o Sporting Clube Figueirense, por decisão das atletas, permaneceu nas instalações da EA;

Uma vez sanada esta questão em devido tempo, foi a CMM surpreendida com publicações em redes sociais, manifestando o descontentamento face à situação exposta, as quais têm vindo, entretanto, a ter eco nos órgãos de comunicação social, pondo em causa o seu bom nome e o da EA. Lamenta-se que, numa atitude que apenas pode ser interpretada como reveladora de má-fé, se suporte as críticas essencialmente na publicação de fotografias de espaços adjacentes às camaratas cedidas pela EA, os quais não foram utilizados para dormida das atletas.

Face ao exposto, a CMM solidariza-se com as atletas, lamentando os incómodos causados por esta situação.
Nesta ocasião, a CMM apresenta as suas desculpas à EA, na medida em que, indiretamente e apenas devido à sua permanente disponibilidade, esta escola foi envolvida numa questão que ultrapassa totalmente as suas obrigações.”

Neste comunicado, a Câmara de Mafra substitui-se, de algum modo, à Escola das Armas, ensaiando a sua defesa. Afirma a validação das instalações por parte da Associação de Basquetebol de Lisboa, afirma a sua disponibilidade ao alojar posteriormente as atletas no pavilhão do Parque Desportivo Municipal e mostra-se surpreendida pela exposição pública das imagens, saindo uma vez mais em defesa da Escola das Armas, afirmando que as mesmas ilustrarão “espaços adjacentes às camaratas cedidas pela EA, os quais não foram utilizados para dormida das atletas“. Afirma-se ainda que “o Sporting Clube Figueirense, por decisão das atletas, permaneceu nas instalações da EA“, não se fazendo, no entanto qualquer referência à equipa da Madeira. Verificam-se ainda contradições entre este comunicado e a avaliação feita po Nuno Pedro, Diretor da secção de Basquetebol da ACD Ferragudo, que esteve na Escola das Armas a acompanhar as atletas.

Estes acontecimentos tiveram, desde já, um efeito positivo. Deram a conhecer ao público as condições de alojamento de, pelo menos, alguns militares da Escola das Armas, condições a merecer a atenção do exército. Por outro lado, sendo a Escola das armas parte do Edifício Real de Mafra, atualmente em vias de ser classificado pela UNESCO, as condições das instalações do lado militar parecem estar demasiado degradadas.

Mais uma vez se demonstrara que, ao contrário do que a tutela da cultura defende, a divisão das responsabilidades do edifício, não coordenadas, entre o Ministério da Cultura, o Estado Maior do Exército, a Câmara de Mafra e a Paróquia católica, não representam uma boa solução de gestão para este património.

[Créditos das imagens: pais das atletas sub-16 da ACD Ferragudo]

Atualizado a 06-06-2019 às 20:00

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2 Thoughts to “Mafra | Escola das Armas envolvida em polémica por alojamento alegadamente inadequado de jovens desportistas”

  1. Ereaman

    Essa terra perto da Ericeira, não foi?

  2. Reflexões

    Lamentálvente a CMM veio a terreiro fundamentar as razões da existência do município neoliberal para a sua existência.
    Renunciou em actividades essenciais, para prestar serviço às funções empresariais.

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