Folhetim | Casa de Hóspedes (15º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

 

Casa de Hóspedes (15º. Episódio)

O Verão estava a chegar e a luz, agora mais brilhante, a penetrar pelos vidros da clarabóia, evidenciava o mofo nas paredes das escadas do prédio.

Na mercearia do Albertino, começavam a aparecer as nêsperas gorduchas e um bocadinho descoradas, a falta de Sol, já se vê, da árvore do quintal da D. Balbina, mais precisamente das pernadas pendentes para o pátio do maroto que as vendia fazendo crer que as tinha comprado. A D. Laura é que apreciava a malandrice e até atirava com um dos seus provérbios de estimação, quem não sabe ser caixeiro fecha a loja. Já a D. Balbina, dona da nespereira, não era da mesma opinião e barafustava, um dia destes mando cortar aqueles ramos e acaba-se-lhe a mama, mas do dizer ao fazer pode ir muito tempo, e assim o prédio, por indiferença ou omissão, consentia na trafulhice e de certo modo a invejava.

Em casa da Adelaide, o luto ia-se diluindo, o tempo é o melhor remédio, ela explicava que não é no preto que está o desgosto e voltou a vestir aquela blusa de quadradinhos que o seu falecido dizia, com desdém, que parecia ser feita de uma toalha de mesa.

A velha sogra vagueava pela casa, enfiava restos de comida nas gavetas da roupa, deitava bibelôs no lixo, cuspia no chão ou onde calhava, uma aflição, um desatino, a Adelaide achava que aquilo não era demência, era maldade mesmo, que ela sempre foi uma peste, só ouve o que lhe convém, só faz o que entende, já não tem cá o filho para a defender, Deus assim o quis, mas eu não aturo isto, bem basta a minha dor, ela não pense que vai dar cabo de mim como deu cabo do meu sogro, que foi um mártir nas mãos dela, o médico receitou-lhe uns calmantes, de calmantes preciso eu que até tenho sonhos maus com ela e o filho a darem-me porrada, acordo toda transpirada, o coração a bater como um doido, ainda me hei-de queixar ao Gil que é praticamente médico e tem sido muito simpático, sempre com palavras muito bonitas, e ele que gosta tanto da minha torta de laranja que, não é para me gabar, não há outra assim, bem molhadinha, nem seca demais nem a desfazer-se, é uma questão de ter mão para doces, a receita não tem nada de especial, o que é que me custa oferecer-lhe umas fatiazinhas, temos de ser uns para os outros, e eu que ando raladinha com os meus ricos filhos que sentem a falta do pai, pudera, pai é pai, eu só quero que não se vão abaixo nos estudos, agora que o fim das aulas vem aí, o Gil até se ofereceu para dar umas explicações de matemática à Nandinha, que ela para os números não é lá grande espingarda, não sai ao pai, não senhor, que, diga-se em abono da verdade, ninguém o enganava nas contas, não falando, está bem de ver, naquela vez em que a mastronça lhe foi à carteira, a limpou sem ele dar por isso, sabia-lhes bem a pouca vergonha, e depois é que foi um Deus me acuda, e eu nunca engoli aquela de o terem assaltado no eléctrico, só vim a saber pela Felismina, a vizinha de cima da mastronça que ouviu o banzé dela com o meu, enfim, Deus tenha a sua alma no eterno descanso, mesmo assim quem me dera tê-lo comigo, com todos os defeitos e virtudes, que a gente quando casa é para se aturar nas horas boas e nas más, é assim a vida e a gente muitas vezes não se lembra que a morte é certa e chega a todos o seu dia de prestar contas ao Altíssimo.

(continua)

 


Poder ler (aqui) as outras crónicas de Licínia Quitério.


 

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