Folhetim | Casa de Hóspedes (13º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

 

Casa de Hóspedes (13º. Episódio)

No recanto da casa de jantar, uma pequena mesa para as revistas e dois sofás desirmanados, a que Dona Júlia chamava pomposamente a salinha, a cena desenrolou-se. Sem intróitos, a outra falou, é o pulha do meu marido, a senhora desculpe a palavra, mas ele não merece outro nome, um homem que é homem não deixa assim o lar, sem mais nem menos, uma casa muito boa, a senhora havia de ver, com todo o conforto, tudo a horas e com asseio, e, sem dizer água vai, faz a malinha e sai porta fora como se levasse fogo no cu, a senhora desculpe, mas não consigo falar disto sem me exaltar, depois sobe-me a tensão, o que me vale são os comprimidos que a médica me deu, mas mesmo assim ela sobe que nem uma doida quando os nervos me apertam, qualquer dia apareço para aí esticada e ele que bem se rala, se nem com o filho se importa, meu rico filho e bonito que ele é, benza-o Deus, não é por ser meu filho, agora, dizia eu, Dona Júlia, a senhora desculpe que eu às vezes já me baralho, a vida anda a dar cabo de mim.

Pôs-lhe as mãos no colo, a acalmar a mulher, a fazê-la parar a cascata de palavras, já com pena, esquecida das compras e do peixe fresco, com a cabeça às voltas a pensar, o que é que eu digo a esta infeliz, ora o que me havia de vir bater à porta, e o que será mesmo que ela quer de mim. Acalme-se, senhora, diga-me o seu nome se quiser fazer o favor, a senhora não está bem, o que é que eu posso fazer por si, quer um copinho de água, um chá de tília, veja lá. Sou Maria das Dores, o meu nome diz com a minha vida, Dona Júlia, muito obrigada, uma pinguinha de água agradeço.

Foram lá buscá-lo de madrugada, não posso explicar bem, Dona Júlia. Gente malvada, invejosa, eu até desconfio quem foi que fez queixa dele, o meu rico filho não roubou nada, não fez mal a ninguém, como puderam fazê-lo passar por aquela vergonha. Isto dizia com soluços de permeio, o copo de água a tremer-lhe nas mãos. Beba mais, Dona Dores, beba e não se aflija assim, coitada o que havia de lhe acontecer, mas já passou, pronto. Sim, passou, ou antes, nunca há-de passar. Não fosse o Mário Manuel, lá isso é verdade, não fosse ele ser muito amigo do senhor comandante, o meu menino não teria estado dois dias naquele sítio, mas meses, eu nem quero pensar. O pai é que não lhe perdoou. Ao jantar do dia em que ele voltou ao lar, eu até fiz o entrecosto no forno com batatinhas novas de que o meu Francisquinho tanto gosta, levantou-se a meio, deu um murro na mesa que saltaram os copos, aquele bruto, e disse, aos gritos que parecia louco, cá em casa não fica, tratou o filho por senhor, se já se viu, sujou o meu nome, não quero um porco comu… debaixo do meu tecto, desculpe mas não posso dizer o nome todo.

 

(continua)

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