OPINIÃO POLÍTICA | Leila Alexandre – Abrilismo

Abrilismo

Considero-me demasiado jovem para falar, com verdade e sem errar, da importância do 25 de Abril. Demasiado jovem porque não sei comparar o dia de hoje com o Portugal dos meus avós e da juventude dos meus pais. Não sei o que é viver calada, viver com medo, viver conformada. Só sei o que é ser livre. Mas considero que não sou tão jovem que não possa falar do risco de perder Abril e da forma como o tomamos como garantido todos os dias. E como
pisamos o risco, desonrando o que foi conquistado em 74.

Vivemos num desafio constante à liberdade, porque a menosprezamos e porque é tão certa que não imaginamos como poderíamos perdê-la. Perdemo-la aos bocadinhos, quando nos tornamos cegos e nos convertemos à cultura dos -ismos. Machismo, sexismo, comunismo, ambientalismo, ativismo – o que se possa imaginar… São correntes ou posturas, umas negativas outras não, sem relação entre elas, que têm, na sua expressão máxima e pior, dois
aspetos em comum: o -ismo e o radicalismo. O que me faz temer as terminações em -ismo é que delas pode facilmente resultar a cegueira, que leva ao radicalismo e o radicalismo leva a que se comprometa a liberdade, a integridade ou a vontade de alguém, quanto mais não seja a do próprio. Quando somos radicais, deixamos de ser livres.

O que eu sei de Abril é que hoje o colocamos em causa por defendermos e aceitarmos que outros defendam radicalismos. Por deixarmos passivamente que os extremos ganhem força perante a inércia dos moderados.

Se olharmos para o outro lado da medalha, não há -ismos. Do lado da liberdade (aquela que termina na liberdade do outro), não há liberdismo; do lado do respeito, não há respeitismo; do lado da moderação, não há moderismo; do lado da tolerância, não há tolerismo; do lado da aceitação, não há aceitismo. (Desculpem-me o franco e forte ataque ao português.) Não é preciso um -ismo para caraterizar aquilo que tomamos por garantido.

Seja Abrilismo. Seja Abrilismo o -ismo que agrega na sua definição a defesa da liberdade individual e coletiva, o respeito pelas escolhas, crenças, modos de vida e convicções dos outros, a tolerância e a aceitação. Seja Abrilismo a corrente que nos faz inconformados perante o ataque à democracia e à liberdade de cada um, a crítica gratuita e as vozes que se levantam para rebaixar.

Seja Abrilismo. Hoje simbolicamente e todos os dias necessariamente.

 

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