Crónica de Alice Vieira | Falar hoje de Abril

FALAR HOJE DE ABRIL
Alice Vieira

 

…e aqui estou hoje numa encruzilhada.

Que caminho devo tomar?

O da tristeza ou o da alegria?

O que me levou  a chorar como se me tivesse morrido alguém da família –ou o que me levou a cantar a plenos pulmões?

Ou seja: lembrar Notre Dame em chamas (que aconteceu há quatro dias) ou lembrar a liberdade que ganhámos há 45 anos (e que festejamos daqui a seis dias) ?

Vejo-me em Paris nos anos 60, a passar diariamente pela Notre Dame e, quando tinha tempo, a ir até ao fundo da Île de la Cité, com a catedral atrás de mim, e ficar a olhar para o memorial dos Mártires da Deportação, ( inaugurado por De Gaulle há pouco tempo) com aquela frase na entrada, que nunca me cansava de repetir: “Pardonne, mais n’oublie pas”.

Era um dos meus poisos quase diários—e onde levava todos os meus amigos que chegavam pela primeira vez a Paris: a catedral de Notre Dame a fazer-nos acreditar na esperança—e aquela inscrição tão forte, mas também ela a fazer-nos acreditar na esperança.

Também ali fui várias vezes com o meu namorado, a última das quais na véspera de ele regressar à pátria, e eu sem saber se regressaria algum dia——e  prometemos que, se um dia nos voltássemos a reencontrar, era ali que voltaríamos ambos.

Quarenta anos depois, cumprimos a promessa—e esse dia 20 de Março de 2006 foi a última vez que entrei na catedral de Notre Dame.

Ainda fui mais umas três ou quatro vezes a Paris, mas sempre em trabalho, sempre com pressa, sempre com horários marcados para estar aqui e ali—e, de resto, por que havia eu de ir a correr à Notre Dame? Ela era eterna, estaria sempre ali para quando eu precisasse.

Afinal não era tão eterna como eu pensava.

Reconhecia-o enquanto olhava para as imagens que a televisão nos mostrava, as chamas, o pináculo a tombar, o  entulho, a madeira dos andaimes, as pedras, a lama, os carros de bombeiros.

Mas, logo no dia seguinte àquela calamidade—só se ouvia falar de esperança.

Sim, a catedral ia ser reerguida, sim, a catedral voltaria a ser o que era, sim, as famílias mais ricas de França já estavam a enviar milhões de euros para ajudar à reconstrução, sim a Europa inteira estava unida para  salvar Notre Dame.

Mais do que chorar o que tinha acabado, era preciso rapidamente enfrentar a situação e preparar o futuro.

Um pouco ao jeito de velho Marquês de Alorna (e ,já agora, não o Marquês de Pombal, como pretende a tradição popular…) a responder a D. José logo a seguir ao terramoto, “agora, enterrar os mortos e cuidar dos vivos”.

Aqui, felizmente não há mortos a enterrar, mas um passado de pedras e mais pedras, e telhados, e obras de arte destruídas–que tem de ser rapidamente substituído por um presente de esperança.

E por isso também aqui calha bem evocar Abril de 74, que festejaremos na próxima quinta-feira. A esperança a sair à rua pelo meio das chaimites e dos cravos. A esperança a lutar contra os velhos do Restelo (que ainda por aí andam…), a esperança na liberdade, na justiça, no fim da guerra.

A esperança num tempo futuro a fazer esquecer o passado.

Ou antes–como na inscrição da Île de la Citê–  a perdoar o passado, mas a não esquecer.

 

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