Crónica de Jorge C Ferreira | Outros Tempos

 Outros Tempos

As velhas avenidas novas. As lojas da nova moda. A minha escola do ciclo preparatório. As ruas largas. As pracetas para jogar à bola. O Júlio de Matos e as “lagoas”, fruto de escavações, por detrás daqueles edifícios cor de rosa. Os mergulhos proibidos e perigosos. Os corpos novos. As pastas espalhadas pelas margens. Se os pais soubessem!!!!

O imponente Cinema Alvalade mesmo em frente à escola. Os filmes que a idade não nos deixava assistir. Os cartazes enormes com os artistas em realce. As cenas que iriam ficar por ver. O Campo Grande e as frondosas árvores.  Os barcos a remos e a motor, a estreita passagem, a aventura. A ponte e a esplanada. O antigo Estádio de Alvalade. Os pelados em frente e a estância de madeira. O futebol, as reservas, os treinos dos craques. O andebol de 11. O desporto a borbulhar. Assistir à borla a tudo o que podíamos. Os autógrafos. Onde está o meu livro de autógrafos? A falta que me faz. Deve-se ter perdido nalguma mudança de vida!

O velho autocarro número sete, verde, de dois andares, a entrada por trás, um varão branco e uma escada em caracol. O primeiro andar e a viagem panorâmica entre a Praça do Chile e a paragem em frente à Escola Eugénio dos Santos. Uma escola nova, com ginásio, campos ao ar livre, relvados que não se podiam pisar.

A Eugénio dos Santos era uma escola técnica. No meu tempo, após a quarta classe, os que tinham a sorte de continuar a estudar tinham de optar entre as Escolas Técnicas e o Liceu. Para qualquer dos casos tinham que se submeter a um exame de admissão.

Era um tempo em que nos forçavam a dividir. A estratificação das classes era, logo aí, bem explícita. Os que, terminada a quarta classe, iam trabalhar; os que iam para a escolas técnicas; os que ingressavam nos liceus. No Liceu Camões os alunos andavam com fato e gravata, na escola técnica tínhamos de usar umas jardineiras de tecido azul, igual aos fatos-macacos dos operários. As mães bordavam o nosso número, turma e nome no peitilho das jardineiras. A diferença ficava assim bem à vista.

Estudei sempre o suficiente, sem deixar de me meter em todas as experiências que a idade nos pede. Tinha boas notas. No segundo período estava passado a todas as disciplinas (tinha somado os vinte e nove valores), excepto a desenho e trabalhos manuais. Sempre achei que era um incompreendido. Diziam que era falta de jeito.

Muitas vezes vínhamos a pé desde a escola até casa. Havia mais colegas que viviam por perto. Era uma festa percorrer toda a Avenida de Roma até à Praça de Londres. Depois subir a Manuel da Maia até ao Instituto Superior Técnico, descer até ao Largo do Leão e aí começava a minha rua. A Rua Visconde de Santarém, o número quatorze, o quinto andar direito. Aí foi o meu abrigo durante mais de vinte anos. Aí tinha a minha querida Avó, sempre à minha espera.

O dinheiro poupado no autocarro iria ser esturrado, em rebuçados dos bonecos da bola, na mercearia da esquina. Os repetidos iriam, mais tarde, ser jogados à palmadinha nas soleiras das portas.

As saudades que eu tenho dos mimos que me davam naquela minha velha casa…

«Coisas bonitas e as patifarias do costume. És mesmo tu.»

Fala de Isaurinda.

«Coisas próprias da idade e feitas na idade certa.»

Respondo.

«Sim, sim. Se a tua Mãe tivesse sabido desses banhos nessas lagoas!!!!»

De novo Isaurinda e vai, a ternura na mão.

Jorge C Ferreira Abril/2019(204)

 

 

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15 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Outros Tempos”

  1. maria rosa matos

    Outros tempos que me são tão presentes e até as velhos Bairro. Adorei!

    Um abraço, Jorge

  2. Isabel Pereira

    Gostei muito do seu texto e reconheço todos esses lugares apesar de ter passado a minha infância noutro local: Campo de Ourique, liceu Maria Amália… Mas as brincadeiras com as colegas, os doces que trocava com os cromos dos artistas de cinema recordo com saudade. Obrigada .

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. As vidas e os bairros. As histórias da vida. Percorrer o tempo. Abraço

  3. Madalena Pereira

    Pois, pois estava o “caldo entornado” se a Mãe tivesse sabido…Muito gostosas estas lembranças de uma juventude feliz ! Não admira que tenha saudades…Enfim o que interessa é que as guardou no coração e hoje as partilhou connosco. Obrigada, meu amigo. Gostei imenso! Um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Os zegredps, os erros para aprender. Aprender sempre. Abraço

  4. Teles Ivone Teles

    E em certas idades recordamos as nossas vivências de crianças e adolescência. Não sendo de Lisboa não conheço, ou relembro, algumas das ruas que citas. Outras conheço-as, principalmente já adulta, quando ia trabalhar a Lisboa. Também lá tinha família, tanto do meu lado como da família que herdei. Gostei desta tua crónica e no trajecto escolar que contas, não haverá grandes diferenças com as de Coimbra. Sei da casa onde nasci ( aliás a foto de capa ) e todas as outras por onde deixei algo de mim. Na família materna, os meus tios estudaram nas Escolas Técnicas e as tias aprenderam a costurar e outras ” artes ” caseiras. A minha mãe estudou na Escola Superior de Educação da altura, onde se formavam as ” professoras/es primárias/os, porque o Padrinho, escultor de Coimbra João Machado, lhe pagou os estudos. Hoje não comentei, mas respondi com o que se passava em Coimbra e não era diferente da tua experiência.. Afinal, a vida das pessoas não é tão diferente das de outras “gentes “, e quase sempre semelhante segundo a ” classe social ” a que pertencem. Naquela época ainda mais notória. Era uma ” igualdade ” repartida como as fatias de um bolo. Fatias maiores para uns e fatias menores para outros. e ainda os que não tinham direito a nenhuma.. Diz à Isaurinda que hoje ” fugi ” um pouco, mas que lhe agradeço os cuidados contigo. Afinal, és meu irmão. Beijinhos querido Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Tu sabes deste País desigual. Das oportunidades que não chegam. Tu sabes, tu és sábia minha amiga/irmã. Abraço

  5. Cristina Ferreira

    Querido Jorge
    As tuas velhas Avenidas Novas, são agora (menos velhas) as minhas Avenidas Novas também. Bom, agora isto é , já há mais de 20 anos também. São épocas diferentes , vivências diferentes, mas uma coisa em comum, – ambos somos uns privilegiados. Só que uns , ( mesmo os incompreendidos) sabem fazer magia e deliciarnos com crónicas assim. Magia , muita termura e coisas bonitas e patifarias, segundo a Isaurinda.
    Não, o menino não tem falta de jeito. O menino é um incompreendido e mimado – muito mimado.
    Abraço de muita ternura, para ti e para a Isaurinda, claro.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. A corda subida a pulso. As asneiras que nos cimentaram a vida. As roletas russas por jogar. Abraço

  6. Regina

    Começo por dizer que adoro a crónica (conto). Locais e percursos que conheço. Já as vivências não. Creio que os rapazes tinham outra “liberdade”. O tempo certo para as patifarias. Tudo nos parecia enorme, olhávamos sempre para cima. Sinto alegria de criança nestes anos. Os mimos que ainda sentes. Deixo-te um abraço Amigo Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Os mimos, as mãos da momha Avó sábia. As saudades imensassó disso. Abraço

  7. Maria da Conceição Martins

    Olá Jorge.
    Nem sempre tenho tido tempo para comentar, mas leio sempre e hoje como de costume gostei muito do texto. Obrigada e grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria da Conceição. Comente sempre. Está marcado encontro para as segundas-feiras. Abraço

  8. Célia M Cavaco

    Que lembranças boas,que memórias escreves meu amigo. Recuei no tempo,o autocarro nº7,a Avenida de Roma,o cinema Alvalade onde vi pela primeira vez A Dama e o Vagabundo,tempos que recordo como um álbum fotográfico..Como gostei destas tuas memórias,também andei por esses lados,também eu memorizo por aí as minhas andanças. Obrigada meu querido amigo.Abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Célia. Restos de nós que nos povoam. Caminhos que se cruzam. Fitas de uma vida. Abraço

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