Crónica de Alexandre Honrado | Não há quem nos defenda (de nós)

Atento como era, o professor, historiador e filósofo, Michel Foucault teria publicado hoje as suas aulas no colégio de França, as de 1976, não com o título É Preciso Defender a Sociedade, como aliás o fez e com grande êxito, mas com uma atualização. É provável que intitulasse a reunião daqueles seus pensamentos sob um título novo e mais contemporâneo de todos nós: É preciso Defender a Sociedade de si mesma.

Já nessa altura, nos anos 70 do séc. XX., Foucault preocupava-se com aquilo a que chamava o bio-poder, força de poder exercida sobre a vida e os vivos, capaz de reprimir populações inteiras e negar-lhes a sua parcela de mundo e de futuro.

Já nessa altura, o professor francês ensinava como os novos racismos e o racismo de Estado se agigantavam de maneiras inquietantes. E sublinhava como a lógica da luta, nos nossos dias, é a que resulta de uma lógica nova das relações entre poder e resistência. Também constatava que essa luta passava pela estratégia – e decisivamente não pertencia ao domínio da lei.

Nessas aulas, já lá vão tantos anos, disponibilizavam-se para debate muitas ideias intensas. É natural que hoje não saibamos discuti-las, já que nos entrincheirámos em poucas ideias, algumas nada intensas. Uma dessas ideias ressaltava de uma afirmação de Clausewitz.

Carl Phillip Gottlieb von Clausewitz, militar do Reino da Prússia, ocupou o posto de general; é considerado um grande estratega militar e teórico da Guerra, em especial pelo que deixou escrito na sua obra exatamente intitulada Da Guerra. Clausewitz  afirmou nesse livro que “A guerra é a continuação da política por outros meios”. Foucault sugeria a inversão do aforismo, propondo que se discutisse a possibilidade de, em contrapartida, a política ser a continuação da Guerra por outros meios.

Foucault propunha, em 1976, aos seus alunos, no início do quarto período de 25 anos do século XX, o mais sangrento de todos os séculos de que há memória histórica, refletir e interrogar em torno da pertinência do modelo da guerra para analisar as relações de poder.

Hoje, na falsa paz do ocidente e da transcontinental Rússia, os novos modelos políticos são a guerra que testemunhamos. E essa guerra é nossa, travada por todos nós.

Diria Foucault: estamos em guerra uns com os outros: uma frente de batalha atravessa toda a sociedade, continuada e permanentemente, e é essa frente de batalha que coloca cada um de nós num campo ou noutro.

Em suma: é preciso, cada vez mais, defender a sociedade de si mesma.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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