Crónica de Jorge C Ferreira | A Minha Rua

A Minha Rua

Saímos de casa e descemos vinte metros de rua. Aparece uma espécie de largo onde, duas árvores, muito antigas, fazem sombra sobre um banco de madeira. São árvores muito velhas. São diferentes, mas parecem gémeas. São o consolo de quem foge ao sol.

Aquele pequeno local é sobranceiro a outra rua. As pessoas passam lá em baixo, embora muito perto. Uma rua estreita onde só sobem e descem os que por ali moram ou aparcam. Uma rua que acaba num beco muito antigo deste velho canto desta terra. Dez degraus dão acesso ao banco e às tais árvores.

É nesse sítio que encontro muitos dias um sujeito que não conheço e não sei a idade. Usa um boné na cabeça e fato completo. Está sempre a ler. Lê livros com ar antigo, encadernados, e vê-se que está a saborear o que lê. Os livros têm todos a mesma encadernação. Não sei se é o mesmo livro, se fazem parte de uma cuidada biblioteca. É um gosto olhar e ver gente a ler sentada em bancos de madeira e sob árvores que, também elas, já devoraram muitas leituras.

De noite aquele sítio é, muitas vezes, ocupado por casais jovens que, a coberto das virtuosas ramagens, se dedica a ler os corpos um do outro e a esperar que o amor floresça numa noite de lua nova. As folhas das árvores agitam-se. São agora testemunhas de amores por escrever. Imaginam um novo romance e esperam pelo desfecho da aventura.

Até agora ainda só falei de actos de amor. O do senhor de provecta idade pelos livros e o dos jovens pela frescura dos seus corpos. Duas maneiras de imortalizar o belo. Duas maneiras de atingir o êxtase. Tudo é sonho. Tudo é fantasia. Tudo é busca. Muitas vezes uma fértil imaginação. Assim é, também, com quem se senta só a pensar a vida naquele mesmo banco sob aquelas mesmas árvores. Quantas fronteiras ultrapassamos quando nos dedicamos a pensar? Quantos mares? Quantos amores? Quantas danças inventadas e quantos versos guardados numa caixa de memórias?

Deixemos aquele montículo quase divino e sigamos a nossa rota. Atravessamos a rua e, uma centena de metros mais à frente, encontramos outro largo maior que o mau gosto conseguiu destruir. Tem nome de escritor e necessita de intervenção urgente. É aí que quase todos os dias, em que a lua está visível, um fulano monta o seu potente telescópio e nos convida a visitar as crateras da lua. Tira fotos que vai guardando num portátil. A resolução é brilhante. Por momentos caminhamos onde nunca sonhámos. Pendurado no telescópio está um tubo comprido com uma ranhura no topo. Somos convidados, e não obrigados, a deixar uma moeda. Deixamos um Euro. Não podemos dizer que foi caro este pequeno passo na Lua.

Atravessamos a rua. Vamos para o restaurante a que chamamos: “a cantina”. Temos a nossa mesa preferida. É-nos dito o que devemos comer. Nem sempre aceitamos. Há os comensais de todos os dias. Há gente conhecida e gente conhecida da outra gente. Gente da música e da radiotelevisão.  Comemos frugalmente. Bebemos café. Conversamos um pouco e voltamos para casa pelo mesmo caminho. Assim enriquecemos a vida simples.

«Olha, hoje gostei disto. Sítios tão nossos, alguma invenção!»

Fala de Isaurinda.

«Sim, sítios que caminhamos. Tens de estar mais atenta e ver tudo.»

Respondo.

«Tá bem, conheço-te bem e há muitos anos!»

De novo Isaurinda e vai, um sorriso na mão.

Jorge C Ferreira Março/2019(202)

 

 

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20 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | A Minha Rua”

  1. Branca Maria Ruas

    Adorei o passeio!
    Nas ruas por onde caminhas há sonhos e ternura.
    Há gente que sabe ver e olhar. Gente que sente e que ama.
    Gente que se encanta com pequenas coisas. Gente que vive!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. Percorrer as ruas deve ser percorrer a vida. Caminhar sempre com todos os sentidos despertos. Abraço

  2. Sara Paiva

    São livros de vida e de sabedoria, como as árvores. Às vezes faz falta a rotina. Há gente para tudo. Beijinhos.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Sara. Em geral as árvores são fontes de sabeforia. Os caminhos tão nossos. Abraço

  3. Madalena Pereira

    Uma descrição impecável de uma rua com “coisas” encantadas que nos fazem sonhar. Coisas simples da vida que nos fazem tão bem (ao corpo e ao espírito) e nos enriquecem. Adorei este passeio! Obrigada. Um beijinho, meu amigo

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. É tão bom passear e descobrir o inesperado. Abraço

  4. Como gosto da sua rua..ela fica sobranceira a todo o seu mundo!
    Maravilhosa a sua rua..gostava de ter uma rua assim..igual a tantas ruas.
    Obrigada por texto tão bonito?

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. Todas as ruas têm a sua beleza. Temos de as olhar melhor. Abraço

  5. Maria Isabel Quental

    Olá!
    Gostei imenso deste texto e revi-me nele nos meus passeios diários com o Freddie, o meu cãozinho. No meio da urbanização existe um caminho pedonal e aparelhos de manutenção ladeado por árvores frondosas que servem de habitação a muitos pássaros, muitos Melros, Pardais, Rabos de Junco e Pombas. É um encanto passar por ali e ouvir o chilrear em especial dos melros. Na sua rua, não há pássaros?
    Um abraço.
    Maria Isabel Quental.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Isabel. Alguns pássaros são amigos daquelas árvores. A minha rua tem muito movimento. Abraço

  6. Eulália Pereira Coutinho

    Uma rua de todos os dias. As árvores já velhas mas que se renovam em cada ano. Oferecem a sombra ao leitor, à poesia, ao amor.
    Sublime esta crónica. Pela sensibilidade, pelo olhar atento. Emocionante.
    A Isaurinda é incomparável!
    Obrigada por partilhar a rua, as arvores, os bancos do Jardim!
    Um abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Procurar/inventar sempre a beleza. As pequenas coisas que nos enchem de júbilo. Abraço

  7. Regina

    Como desenhaste com palavras a tua rua. Agora nossa também. Maravilhar e seduzir são as árvores que abrigam quem deseja sentir. Que bom que é olhar, sentir e como tão bem o dizes enriquecer a vida simples. A Isaurinda gostou e vai de sorriso na mão. Abraço Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrjgado Regina. Assim devemos andar todos, sempre de sorriso na mão. Abraço

  8. Teles Ivone Teles

    E que bem me fez o passeio, almoço e convívio desta tua crónica a partir da rua que habitas. Porque tu, meu querido amigo, não resides só nessa rua, tu habita–la. Por isso conheces os espaços, por isso tu sabes dos amores pelo frémito das folhas da árvore frondosa..E há a leitura, porque os bancos de jardim a ela convidam. Alguém lê um livro ” arrumadinho “, ou passeia-o numa distracção. Os livros, teus também amores, têm vida dentro. Às vezes vidas inventadas, outras vezes vidas vividas, Escrevê-las é uma óptima terapia, porque aos poucos, quem as lê, partilha com as palavras angústias e alegrias e tudo fica mais leve.. A tua rua é também um espaço de invenção e sonhos, A fantasia dá-se bem com espaços como os teus, com Homens como tu. Tu multiplicas amigos. Tu vives e abraças com o coração e isso é raro, meu amigo/ irmão. Diz à Isaurinda que está a voltar a POESIA, que a Primavera está morninha e que vais enriquecendo com coisas simples, porque és, volto a dizê-lo, um ” SER ” muito especial. Beijinhos.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Inventar a vida, descobrir caminhos, buscar o belo. Passear com sentida atenção. Que belas, como sempre, as tuas palavras. És um Ser únoco. Abraço

  9. Cristina Ferreira

    “(… )sítios tão nossos, alguma invenção!” – palavras da tua Isaurinda, sempre tão preocupada contigo. Ela que sabe melhor que ninguém que tu és deste sítio, mas também és do mundo, és desta rua , mas também és das escadas brancas de uma ilha lá longe. És do mundo e o mundo é teu, um mundo de todos os sentidos . Um mundo em que só os bem aventurados nos sabe oferecer na forma mais sublime. “Assim enriquecemos a vida simples” – é desta forma terminas este acto de amor. Porque é de amor que se trata, é amor o que tu nos ofereces todas as semanas . É a tua visão do mundo que tão sábia e generosamente nos dás. É a tua entrega. És tu ! Porque as coisas mais simples da vida, são as mais extraordinárias , mas só os sábios, conseguem vê-las . Obrigada por nos dares a conhecer “A tua rua”

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Esta rua que é de todos. Esta rua aqui deitada. Pode ser sonho. Pode ser raíz de tudo. Assim vaguemos pela vida. Abraço

  10. Célia M Cavaco

    Que bom ler-te por caminhos teus. Um dia essas ruas guardarão todos os passos e contarão quem sabe a quem queira ouvir o eco dos passos teus por esse caminho tantas vezes entre a ida e o regresso à tranquilidade do espaço intimo.Abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Célia. As ruas são nossas confidentes. Guardam o sentir dos nossos passos. De ilusão em ilusão as vamos calcorreando. Abraço

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