Folhetim | Casa de Hóspedes (10º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

 

Casa de Hóspedes (10.º Episódio)

Era num anexo da Igreja setecentista, uma meia porta aberta, um degrau exterior para subir, dois interiores para descer. Um perigo, dizia a Dona Júlia, quando o tempo está de humidades não é preciso mais para se escorregar e partir uma perna, que Deus nos defenda, e persignava-se. No átrio de lajedo, à direita, um corredor mal iluminado dava acesso, ao fundo, à casa, para um ou dois lugares de morto, propriamente dito. Só um estava ocupado. Tem de ser o Lomelino, dizia o Gil para o Zeferino, a meia boca, quando chegares logo vês, isto cheira a cera que tresanda, no que é que a gente se veio meter. Já lá se encontrava a família, a mais chegada e a outra dos casamentos e funerais, vizinhos, conhecidos e até os desconhecidos, que ocupam o tempo vazio de velório em velório, de funeral em funeral, dando sempre os sentimentos a quem apanham a jeito e que presumem ser o triste mais próximo do ente querido que se apagou. A Dona Júlia foi sentar-se mesmo ao lado da viúva, que a filha deixou a cadeira vaga, sente-se a senhora que eu estou a ficar sem ar e vou até lá fora. Obrigada, filha, cuida-te e abafa-te que está frio. O Gil não tirava os olhos da viúva, o traje preto fazia ressaltar a brancura da pele ainda fresca, mal empregada, pensava, e depois para o Zeferino, não me importava de a consolar, cala-te, pá, não sejas javardo, e sorriam. Ouviram-se passinhos miúdos no corredor, alguns pares de olhos tentaram divisar quem chegava até perceberem que eram a D. Adélia e o Sr. Mário, ele de gravata preta e ela com um véuzinho preto nos cabelos brancos, qual retrato de noiva em negativo. Olha que parzinho, murmurou o Zeferino, isto está a parecer um filme do Buñuel. Achas que a gente devia ter trazido gravata, tás parvo, já agora era o que faltava. E tu vê mas é se tiras os olhos da viuvinha antes que o falecido tope.

O silêncio não durou muito e começaram a esboçar-se conversas em palavras curtas, em tom baixo, com tendência para avolumarem e se alargarem entre os circunstantes. Gil e Zeferino, de bons ouvidos e alguma curiosidade, iam retendo palavras, frases, sinais de cumplicidade entre as mulheres, nos lugares mais afastados do caixão.

A esta hora já lá está a prestar contas. Pobre Adelaide, enganadinha até quase ao último momento. Uma mulher bonita e asseada como ela ser trocada por aquela mastronça. Não sei o que é que ele via nela, francamente. Homens, senhora, homens, gostam de provar o alheio e não cuidam do que é deles. Acha que o outro sabia, ó senhora, tinha de saber. Consta que um dia até os apanhou em preparos. Consta, que a vida deles só a eles interessa. Isto é a gente a falar. Ai coitadinha da Adelaide, com dois filhos ainda para acabar de criar. Que Deus tenha em descanso a alma do Lomelino. Apesar das malandrices não merecia ir tão novo para a terra da verdade. Lá isso não. Se calhar cansou-se, coitado. Há homens que não chegam para uma quanto mais para duas. Bem o diz, bem o diz.

Um suspiro deu intervalo ao diálogo das duas mulheres, que desataram a abanar-se, quando o calor dos corpos e das velas começou a ensopar a sala onde se acompanhava um morto, a família do morto, e se preparavam novas vidas, que a morte é certa mas amanhã é outro dia.

 

(continua)

Licínia Quitério

 

 

Siga-nos nas redes sociais

Artigos Relacionados

Leave a Comment