OPINIÃO POLÍTICA | Mário de Sousa – Se o Concelho de Mafra é agrícola onde se aprende o ofício?

Se o Concelho de Mafra é agrícola onde se aprende o ofício?

Desde sempre que somos um país de extremos: ou se é Doutor ou se é Analfabeto (leia-se iletrado ou sem qualificação profissional). Pelo meio fica um deserto em termos de qualificações de profissionais.

 “A instrução secundária e complementar carece de dilatar a esfera do ensino, na parte relativa às disciplinas industriais, adiantar os conhecimentos práticos e de aplicação, tão necessários para o progresso da agricultura e para o desenvolvimento de todas as artes e ofícios”i.

“Esta conclusão traduz não só as dificuldades sentidas, ao longo da primeira metade do século dezanove, em implementar uma série de medidas capazes de aproximar Portugal dos parâmetros educativos europeus, como em criar um ensino secundário diversificado, de forma a permitir formar quadros indispensáveis ao desenvolvimento económico.” (Gomes, 1985, 142)

Frases duras mas atuais conquanto a primeira já tenha cerca de 170 anos. Para que não existissem dúvidas já no Sec. XIX se dizia que o ensino industrial, hoje profissional, tinha como objetivos “a instrução especial e técnica dos indivíduos da classe industrial” e como destinatários, … serralheiros mecânicos, forjadores, carpinteiros, construtores de moldes e de carros, construtores de motores,… desenhadores industriais, fundidores, modeladores em metal, estampadores de estofos e papéis, administradores e guarda-livros de estabelecimentos industriais.” ii

Em 1852 Fontes Pereira de Melo criou dentro do Ministério das Obras Públicas as escolas Industriais e Agrícolas. Fora do seu Ministério, deu as condições para a criação de escolas Comerciais.

Com muitas dificuldades e atropelos o ensino técnico foi-se desenvolvendo, tendo chegado a 1974 com provas dadas, e ideologias à parte, contribuiu para que uma grande parte de profissionais técnicos e comerciais hoje à beira da reforma, tenham preenchido um espaço de empregabilidade para o qual hoje ainda não existem soluções claras.

Após a Revolução de Abril, em 1977 o ensino técnico foi extinto. Passou-se de um ensino técnico discriminatório mas ainda assim produtivo, para um ensino de coisa nenhuma. Em 1984, com a criação da Lei de Bases do Ensino “uma nova modalidade de formação profissional …, com base no célebre modelo dual de formação, presente sobretudo na Alemanha, Áustria, Luxemburgo e em parte da Suíçaiii” teve o seu início.

Mas porque implementar um ensino técnico implica a criação oficinas de serralharia, carpintaria, eletricidade, eletrónica, mecânica, laboratórios, salas de desenho técnico, informática, etc. etc. por falta de investimento, os cursos profissionais reduziram-se a ensino teórico deixando a parte prática para estágios em empresas de onde se tem obtido resultados duvidosos. Descredibilizado, tornou-se rapidamente num saco para onde seguiam todos os que não apresentavam vocação que se encaixasse na oferta existente.

O estado da arte tem melhorado muito e hoje “…A inovação respondeu, …a duas necessidades reais das famílias e dos adolescentes e jovens, necessidades prementes, ainda não satisfeitas e inadiáveis da sociedade portuguesa: por um lado, a de proporcionar caminhos educativos de qualidade e capazes de promover a realização de todos os adolescentes que terminam a sua escolaridade básica e obrigatória e querem frequentar o nível secundário e, por outro, a de qualificar, profissionalmente e com qualidade, jovens que querem inserir-se na sociedade e na vida profissional.”iv

E o que se passa no nosso Concelho sobre esta matéria? Vamos mal! Quando da publicação do Ranking das Escolas em 2018 verificou-se que os resultados são desanimadores:

Quadro consultável em https://expresso.pt/ranking-das-escolas-2018#gs.YejxZVEg

Com apenas 83 alunos, a Escola Sec. José Saramago apresenta uma Taxa de Abandono de 25,3%. Assusta! Assusta também a densidade do problema da Escola Profissional da Ericeira.

Estará o problema da E.S. José Saramago nos cursos que ministra? Consultada a oferta formativa em https://escola.esjs-mafra.net/index.php/22-alunos/oferta-formativa/ talvez o problema esteja na nota que se encontra apensa: ‘O funcionamento de qualquer dos cursos, agora divulgados, depende da existência de um número mínimo de alunos que garanta a sua abertura.’. Compreende-se, mas onde fica então o ensino vocacional?

Por outro lado, estando Mafra adjacente a uma extensa área agrícola a Região Oeste, agora que já possuímos empresas agrícolas de ponta, onde está o nosso ensino agrícola? Onde vão contratar os seus técnicos essas empresas? Fora do nosso concelho com certeza. E porque não tem Mafra uma Escola Agrícola?

Termino repetindo ao Executivo Mafrense o mesmo apelo que Fontes Pereira de Melo fez no Diário do Governo, n.º 1, de 1 de Janeiro de 1853:

“O ensino agrícola acha-se hoje largamente derramado em todas as nações cultas da Europa. Fundam-se em toda a parte escolas práticas, institutos agronómicos, granjas e quintas (…). No meio deste geral movimento é indispensável que não fiquemos estacionados (…).”

Estacionados já estamos. A pergunta é: Quando nos começamos a mover?

Mafra, 6 de Março de 2019
Mário de Sousa

 

GOMES, Joaquim Ferreira, Relatórios do Conselho Superior de Instrução Pública (1844-1859): Introdução e Transcrição. Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1985. Citado por MARTINHO, António Manuel Matoso, A criação do ensino industrial em Portugal, MÁTHESIS 15 2006 53-81

ii MARTINHO, António M. Matoso, (1999), “Professores estrangeiros ao serviço das escolas de desenho industrial do Porto nos finais do século XIX”, Sep. das Actas do Congresso Maia, História Regional e Local, Maia, 1999. Publicado, igualmente, na Revista Portuguesa de Pedagogia, Fac. de Psicologia e de Ciências da Educação, Ano 36, nos 1, 2, 3, Coimbra, 2002, pp 117-119.

iii Consultável em: http://www.joaquimazevedo.com/images/bibtex/escolas_profissionais_livro_vfinal.pdf

iv Ibidem

 

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