Crónica de Alexandre Honrado | Escornar à Força Toda

ESCORNAR À FORÇA TODA

 

Parece que o termo surge na Grécia, onde lendas como a do Minotauro o incluíam fartamente: escornar. Significa ferir ou atingir com os cornos, ato defensivo/ofensivo do animal ameaçado quando provido desses apêndices de cabeça. Também significa escorrer, escorregar, noutras utilizações menos agressivas. Por generalização, aparece em alguns textos com o significado de escorraçar ou desprezar.

Edward B. Tylor definiu cultura como “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.

Escornar, integrando os costumes humanos, transformando-se num hábito, tornou-se uma aquisição cultural.

Não falo do reduto cultural da tauromaquia, onde os cornos são usados para puro divertimento dos humanos que os atiçam. Não falo da luta de alguns animais em época de reprodução, para conquistar e marcar território. Não falo da antiga arena romana em que a luta corpo a corpo incluía umas cabeçadas ou das lutas de rua onde por vezes se usa o recurso, sempre com péssimos resultados (normalmente para os dois lados da contenda).

Falo em compensação de cabeçadas mais aviltantes. As de viver em plataformas de desprezo, de mútuo escorraçar. Falo da violência entre casais, a começar pelos namorados de tenra idade que acham “normal” acabar à pancada um quotidiano que devia ser de mel e suavidades. Falo da violência doméstica – e de toda a cobardia que lhe está inerente e até falo de um certo juiz – que provavelmente não será o único-, aquele legisla à cabeçada, como se escornear fosse forma de justiça.

Há muitas formas de escornear. Nos recintos desportivos, à porta deles, nas salas de aula, nos pátios das escolas, nas séries televisivas, no hemiciclo da assembleia da nossa República, nos discursos à Bolsonaro e evocações do defunto ditador português de péssima memória, coisas de escornear que se andam generalizando. Ao nível internacional e aqui pela casota nacional, mete-se os cornos às cegas – e escorraça-se o próximo. É confrangedor.

Vemos uma civilização com uma percentagem alta de gente a optar pelo escornear, por não ter provavelmente muito mais na cabeça. Mas não há muito de inédito nesses protagonistas da mediocridade. A história é antiga e conduziu sempre aos momentos mais negros do passado coletivo.

A visão superficial de qualquer conceito afeta as potencialidades da aprendizagem e da sua apreciação crítica. Escornear, portanto, não fica por aqui. Mas escorraçar a hipótese de saber que é uma das piores aquisições humanas, serve-nos de consolo e alavanca para aprofundar o que nos sobe (intelectualmente) à cabeça. Talvez para não escorregar. Ou para não sermos colhidos, pelo menos inadvertidamente.

 

 

Alexandre Honrado

Historiador

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