Crónica de Jorge C Ferreira | Estranhezas

Estranhezas

I

“No Espelho”

“Serei da ordem

  lunar

  do espaço errante…”

(Maria Teresa Horta-Estranhezas. Pag. 16)

 

Escrever porque a beleza de outras palavras celebra a

vontade de ser

Porque há voos de poetisa que nos fazem descobrir asas

escondidas

Verso a verso

Ilusão a ilusão

Golpe a golpe

as espadas em punho

um encanto que cresce

A poetisa por vezes feiticeira

As palavras por vezes fogo

O corpo sempre corpo

O fulgor sempre inteiro

Meia-noite e uma fogueira

Assim seguimos as mãos dos mágicos anéis

 

 

II

“Da Paixão”

“Quero a paixão ardente e árdua

incendiando o corpo…”

(Maria Teresa Horta-Estranhezas. Pag. 62)

As entranhas das estranhezas

o sofrido desejo

As veredas do profano

A escrita calada

a calada euforia

A via sacra

Os corpos cativos

as cativas alegrias

A cruz que se carrega

Um mapa de estranhezas por encontrar

Um poema inacabado

Uma cidade de claros e escuros

Um espelho que se nega a cumprir a sua missão

O desafio imenso de nos encontrarmos

Tantas estranhezas

 

III

“Da Beleza”

“Tu és a beleza!

Afirma ela num grito…”

(Maria Teresa Horta-Estranhezas. Pag. 100)

A estranheza deste espaço onde as palavras se encantam e

encontram

Palavras Poemas

palavras de voar

A mágica transformação

o voo

o canto

o arrasto

A dor que nos mostra a beleza

o rasgo

a subtileza

O aparo da rara escrita

Estranheza encantada

Estranheza gritada

A poetisa do verso único

A palavra descoberta

O corpo inteiro da poesia

Tudo o que se Ama


IV

“Alteridades”

“De estranheza e sobressalto

incautas no seu sentir …”

(Maria Teresa Horta-Estranhezas. Pag. 148)

 

A estranheza do diferente

procurar as águas perdidas

o lugar onde tudo se quebra

O ímpeto dos desejos desesperados

o labiríntico desencanto

uma figura de uma história de sempre

Quebram-se espelhos e morrem rostos de susto

abre-se o mundo e surge gente de novo nascida

são consagradas alvas e

são imoladas algumas virgens

A busca do diferente não cessa

vidas

véus

cordões

Uma nova cantata

 

 

V

“Tumultos”

“É preciso saber deixar

o tumulto

chegar ao coração…”

(Maria Teresa Horta-Estranhezas. Pag. 186)

 

Os heróis e a paixão

o prazer e a dor imensa

o fulgor, a falta de ar

as deusas a anunciarem todos os pecados

A não estranheza do imenso tumulto

uma dolorida apreensão

o sentido circular das vidas suspensas

Suspensas são as penas que os grandes amores constroem

os vértices que a paixão arredonda

as cores arrojadas do prazer suavizam os

“pecados”

Escrevem-se corpos flagelados em linóleos

gravuras nascem de prensas cansadas

corpos de desgraças autoinduzidas

sinais de batalhas sem fim

As tumultuosas paixões que teimam em ficar

rasgões que crescem num teatro de emoções


VI

“Ferocidades”

“Passo a passo

deslizando no tempo 

aproxima-se e cisma…”

(Maria Teresa Horta-Estranhezas. Pag. 236)

 

Uma fogueira no meio da selva da vida

afastar os animais ferozes

os grandes felinos cheiram as vítimas

estudam pensamentos

Tochas em fogo tentam afastar a vileza

de novo uma estranheza que cresce

uma fúria que se adensa

labaredas encantadas

choro e riso

Os incandescentes sentimentos

toda a maneira de sentir e viver

sentir todas as saudades do mal e do bem

viver as inconsequentes intenções

Saber das fraquezas o sabor inteiro

provar os dissabores e as calúnias

Assassinar a torpeza

 

VII

“Diante do Abismo”

“Escrevo como quem desenha 

uma asa 

uma estrela-cadente…”

(Maria Teresa Horta-Estranhezas. Pag. 272)

 

Quando tudo parece ruir

o desfalecimento quase a acontecer

o vazio intenso

os corpos despedaçados

Sentir estar à beira do quase nada

De um deserto sem fim

as rosas feitas pedra

a sede assassina

O fim a crescer do umbigo da morte

a mágoa

o pânico

o não acreditar

Sobreviver a todas as tragédias

levantar-se de novo

Enfeitar a vida

 

Assim li e senti “Estranhezas”, o mais recente livro de Maria Teresa Horta. Não deixem de ler este belíssimo livro de Poesia.

Título: Estranhezas
Autora: Maria Teresa Horta
Editora: D. Quixote

Jorge C Ferreira Fevereiro/2019(196)

 

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18 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Estranhezas”

  1. Claudina Silva

    Belo o teu texto Jorge C. Ferreira. Enfeitar a vida!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Claudina. Fazer a vida andar. Abraço

  2. Gostei muito da tua leitura.
    Sintonia perfeita com os poemas de Maria Teresa Horta.
    A paixão tumultuosa, incandescente. O amor inteiro, a vida feita poesia, em crescendo. Verso a verso.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Sofia. Verso a verso se inventa o amor. Abraço

  3. Madalena

    Certamente irei comprar! Obrigada pela sugestão. Um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Tenho a certeza que vai gostar. Abraço

  4. Jorge C Ferreira

    Obrigado Ivone. Que belo é o teu comentário. Tão lindo. Tão empenhado. És tão generosa. Abraço

  5. Branca Maria Ruas

    Leste, sentiste e acrescentaste emoção aos poemas.
    Criaste a tua própria poesia.
    Que grande e bela homenagem soubeste fazer a Maria Teresa Horta!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. Que bom teres gostado. Grato por toda a tua disponibilidade. Abraço

  6. Célia M Cavaco

    Que coincidência meu amigo,estava eu divagando pelo poema:Trajecto na Escrita,da nossa Teresa Horta, e,ainda folheando pela Estranhezas de muitas páginas quando me deparo com a crónica de hoje. Espantosamente…não há coincidências quando comungamos o mesmo gosto pela da leitura deste livro maravilhoso.Grata meu amigo por me fazeres sentir perto neste sentir de leituras nossas. Abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Célia. Leituras que nos inspiram e transportam para outras levezas. Abraço

  7. Manuela Moniz

    Quando as palavras e o sentir de dois belíssimos poetas se cruzam, dá nisto: uma emoção, e um duplo encanto.
    Obrigada, Jorge. Tanto e tão belo, tudo o que nos dás! Adorei.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Manuela. Sou um mero escrinhador a tentar passar a genialidade de uma senhora a que chamamos Poesia. Abraço

  8. Cristina Ferreira

    Jorge, é um vendaval de emoções!! Ler Maria Teresa Horta e Jorge C Ferreira de uma assentada só. Porque tu, sabes melhor que ninguém ler a tua (e nossa) senhora poesia. Uma maravilha que nos ofereces! Que arte! Que privilégio o nosso!
    Abençoados sejam !!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Sim Teresa é a Poesia. Uma dádiva que todos os dias nos oferece beleza. Abraço

  9. Regina

    Existem mãos lindas. Dedos com anéis que brilham como se fossem reflexo das palavras deste livro “Estranhezas”. Outras mãos escrevem com a delicadeza e sensibilidade de sentir. Belíssimo o que nos deixas a extraordinária Senhora de “Ti” Maria Teresa Horta. Parabéns Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Que bom o qur escreveste. Só me resta enviar-te um abraço

  10. Teles Ivone Teles

    Querido amigo, que escolha fabulosa. Ainda não tenho o LIVRO e nada li a seu respeito, senão o que ofereceste nesta bela crónica. Gosto muito da Teresa e é certo que comprarei o Livro. Tudo o que dizes sobre ele mostra bem a identificação que tens com o sentir da Poetisa. Aliás, na maioria do que escreves habitualmente, nas reflexões, ou textos mais mágicos, está o teu sentir sobre o AMOR e o que une com esse sentimento maior dois Seres, está esse fio de desejo e sonho, de experiência e corpo físico, atracção recíproca sem ” peias “, obstáculos, desnecessárias, vergonhas, condenações, penitências desnecessárias. Todo o AMOR é puro e transparente para quem o sente. Que poderia eu dizer além do que já expuseste ? ” Sobreviver a todas as tragédias ” e “enfeitar a vida “, é o que resta a todos os que AMAM. P.S.__Não te esqueças de dar um beijo meu à Isaurinda.

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