Crónica de Alexandre Honrado | O Homem, a Natureza, a Natureza do Homem

O Homem, a Natureza, a Natureza do Homem

 

Quando, no liceu, éramos obrigados a estudar as ideias, algumas e em rápidas sínteses, do filósofo Emanuel Kant, ficávamos entre o mais absoluto desprendimento e a mais perfeita envolvência; só se ama ou odeia como dizia um dos nossos professores, pois nisto das ideias não há meios termos.

Era uma época interessante, essa em que vivíamos, pois ao contrário de hoje estávamos ávidos de pensar. E alguns dos nossos mestres estavam desejosos de partilhar as formas como, em seu entender, o pensamento se pode construir.

É claro que, como num palco, o pensamento mais apto a erguer-se é o que nasce no espaço vazio, sem que nos obriguem a pensar como os outros a menos que estejamos voluntariamente predispostos a fazê-lo.

Não devemos aprender com todos os filósofos mas com aqueles com que mais nos identificamos e então descobrir tudo sobre eles até os abandonarmos e seguirmos o nosso próprio caminho de pensar – era o que dizia um dos professores da época.

Estava na rota então fazerem-nos rodopiar entre as múltiplas possibilidades que emanam das teorias do caos – o mundo nasce do que é caótico e inesperadamente organiza-se em formatos surpreendentemente perfeitos. O que, por si, era um formato do pensar que se opunha a um outro: só a natureza é exata por não fazer nada em vão.

O homem, por exemplo, desafia o mundo natural e cria até o inútil, que por vezes aparece em forma de arte – para que efeito de sobrevivência a queremos, afinal, já que a sua companhia nem é de primeira necessidade e o que tem de utilitário é muito discutível? – ou por puro deleite e ócio – como praias onde os corpos se deitam aparentemente sem que isso seja alguma coisa de fundamental para a dignificação da vida – vai-se exagerando nas suas convicções, invenções e desafios.

A natureza atua em função de uma finalidade  – os homens, seres à margem da natureza por dependerem dela e a modificarem a seu belo prazer, não.

Kant dizia-nos nessa época que aprendemos a admirar as técnicas humanas que têm pouco valor quando comparadas com a natureza. Talvez por isso se assista hoje a momentos culturais de tanto desdém e quase suicidas.     Afastados da natureza e do que em si é evidente  – que todos os homens são seres da natureza como outros seres vivos e que, por isso mesmo, não a deviam trair – somos atores de um espetáculo triste e desolador. Não enchemos o palco vazio mas enchemos o palco de vazio.

A desordem das ações humanas parece indicar que fomos abandonados pela natureza – porque há muito a abandonámos – e que quase nada na vida dos homens é já regulado pela finalidade natural.

Era o que Kant nos dizia quando andávamos no liceu – e nunca lhe ligámos como merecia.

 

Alexandre Honrado
Historiador

 

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