OPINIÃO POLÍTICA | Mário de Sousa – Frases, conceitos e modos de ver!

Frases, conceitos e modos de ver!

 “Ao passo que os factos me iam saltando da memória, percebi que me reacudiam as frases, os conceitos, os modos de ver…” i 

Pensei nestas palavras de Faure da Rosa no início do seu romance ‘Adágio’ quando terminei de ler os Documentos Previsionais para 2019 da Câmara Municipal de Mafra. As frases que tantas vezes escrevi sobre documentos impenetráveis para os munícipes, os conceitos arrevesados, distorcidos, moldados a razões que não as nossas e os modos de ver de quem fala e escreve o que os outros querem ouvir, deixando muito por dizer e congelando a nossa liberdade de perceção do que lemos ou escutamos. Este tipo de discurso não é mais do que uma forma de subjetivação, uma forma de utilizar o atual fenómeno do empobrecimento da linguagem. Sabe quem escreve documentos deste tipo das dificuldades de compreensão do cidadão e por isso a utilização de uma linguagem cheia de níveis, cheia de expressões, cheia de não ditos em detrimento de uma linguagem didática, leva quem ouve ou quem lê apenas a agarrar, a entender, aquilo que na sua vida concreta lhe faz sentido, ainda que na realidade o que se pretenda seja apenas cativar a sua adesão de forma incondicional ao eu de quem diz ou escreve.

Ora verdade seja dita, a CMM conseguiu produzir um documento em que a linguagem procura ser didática, e apenas no que diz respeito à obrigatoriedade de mapas oficiais demonstrativos se encontra uma linguagem técnica. Seria dispensável o final introdutório demasiado épico e fora de moda. Concorde-se ou não com o seu conteúdo, é patente o esforço de quem escreveu, no sentido de explicar de forma acessível quais os vetores essenciais do Orçamento, o que são as GOP, o PPI e o PAM.

Sobre todo este previsto para 2019 e porque as maiorias são surdas, o que aqui está será o aprovado, mais secante, menos tangente, e muito haverá para dizer, tanto sobre os números que são ‘ditos’ como os que não são ‘ditos’.

E o assunto que pretendo hoje destacar chama-se Be Water e, embora seja um ‘dito’ tem um ‘não dito’ muito grande. O ‘dito’ aparece na pag.3 :

Mas não. No Orçamento não há uma linha a falar disto. Apenas nas GOP e as GOP, conforme nos é explicado no documento a páginas 9 é um documento de caráter previsional. Somente prevê que possa vir a acontecer.

Os quadros acima são elucidativos: Ano de 2019 – Previsão de despesa de €9.655.860,00 sem financiamento definido num Total Previsto da mesma importância.

E para que se destina esta verba? Para pagar à Be Water o resgate e nulidade da concessão do serviço público de abastecimento de água. E então a reversão do serviço público de saneamento?

Mas faz-se uma previsão que depois não aparece no quadro resumo das GOP?

Por fim é importante perceber que a CMM pretende comprar por 9 milhões um serviço cujo detentor reivindica 52 milhões, valores que constam das ações judiciais movidas pela Be Water à CMM, a saber:

Seria muito importante para a vida do dia-a-dia do cidadão comum saber como se consegue comprar por 9 o que o vendedor vende por 52. Mas esse segredo é um ‘não dito’ deste documento.

 

Mafra, 26 de Novembro de 2018
Mário de Sousa

 

PS: Quanto à promessa feita em Assembleia Municipal sobre um orçamento participativo à medida dos mafrenses nem uma linha. Está visto que a nossa maturidade ainda não é suficiente para esse tipo de voos!

 


i ROSA, Faure da, Adágio, Empresa de Publicidade Seara Nova, S.A.R.L, Lisboa,1974

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