Crónica de Alexandre Honrado – À espera do caldeirão

À ESPERA DO CALDEIRÃO

 

Sempre que encontro José Gil – o filósofo português que o mundo mais atento reconhece – fico, sempre, entre o mais evidente estádio de maravilhamento, que economiza palavra e emana inibições, e a sensação de atrever-me a perturbar um cérebro de menino capaz de fulgores destinados a derrubar os momentos mais incapacitantes do quotidiano asperamente adulto. Oiço-o, a José Gil, com uma vergonha do meu saber tão pouco; outro tanto acontece quando o leio, nos livros nem sempre fáceis, das frases enormes aos simples conceitos com que explica o mundo.

São assim os filósofos que estimo, capazes de inundar-me.

Estive com ele há pouco tempo,  em três situações inigualáveis: no Chiado, e então bebi o que me ensinou; depois episodicamente em Campo de Ourique, cruzando-me com o seu passo acertado; e finalmente dei com ele agora no Jornal de Letras a dizer-me coisas que talvez eu precisasse ouvir, uma delas muito inquietante: “o multiculturalismo é uma combinação de culturas como se preservássemos a identidade de cada uma. Não. As identidades vão estilhaçar-se e vamos pegar em bocados uns dos outros e vamos fazer disso um caldeirão mágico.”

Cá estão elas, as “identidades”, a par com um livro que acaba de sair com esse nome – e com o subtítulo caprichoso de “a exigência de dignidade e a política do ressentimento – IDENTIDADES”, de Francis Fukuyama, um dos que, creio por equívoco, anunciou há anos o fim da História.

Posso responder agora a quem se interroga: qual é o motivo pelo qual falo destes autores e das suas perseguições? Porque volto eu ao tema das identidades – coisa difícil de aceitar – e destes dois extremos estonteantes: de um lado a assunção de um caldeirão mágico à nossa espera, do outro a vertente emotiva do ressentimento como efeito para algumas causas?

Muitas são as razões e razão nenhuma me motiva. Em primeiro lugar porque ler aqueles que pensam profunda e detalhadamente contribui para a minha construção. Não digo para a minha identidade, pois só os recursos políticos criam essa marca para nos agrupar e levar à certa: somos individualidade, mais do que identidade, e aquilo que aparentemente é a “nossa identidade” que às vezes entendemos como coletiva, é apenas o somatório de coincidências que nos agrupam em pequenos universos ditos culturais que vistos de longe são afinal a multiculturalidade e de perto mostram-se apenas a ilusão de preservar a identidade das muitas culturas em que nos revemos.

Se há um caldeirão mágico não sabe bem o que fazer com tanto ingrediente. O segredo de tantos elementos é a sua capacidade de poder de um só constituir um todo.

O estar junto (em casa, nos afetos, na rua, no coletivo, na massa indiferenciada, na sociedade, no mundo) é consagrar a comunidade do sentir. Só podemos ser um coletivo, um conjunto, através e a partir das nossas diferenças (das nossas singularidades) e de como sentimos e as sentimos – Mas mais profundamente, através e a partir das nossas “diferenças”. Para tal, há que saber lidar com os conflitos de interesses. E sentir. Sem aprendermos a gostar das coisas juntos – do casal ao universo, a lei é para todos –  não podemos amar-nos.

O mundo em que vivemos é a multiplicidade dos ingredientes – à espera do caldeirão. Não gostamos uns dos outros, somos mais pródigos no ódio que no amor, matamos real e virtualmente, desdenhamos, desacreditamos, corrompemos e permitimos corruptos e corrupção levando-os aos ombros, colocando-os nos lugares maiores do nosso destino comum, sendo afinal cúmplices das suas incapacidades. Deixamos matar o próximo, ou violentá-lo, seja na frente de guerra, no apartamento doméstico que alberga a violência, nos jogos de guerra que oferecemos aos filhos, na excisão das meninas desamparadas que mutila corpos e fere espíritos que não perdoam, às drogas que inalamos e consumimos (das mais pesadas às que estão, mortais, à nossa espera no supermercado mais próximo), às arenas tauromáquicas ou aos ringues de pugilismo, às Sírias todas da nossa vergonha… Tudo sem a exigência da dignidade que podia exercer o melhor de nós para servir o melhor aos outros.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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